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O meu jogo

Jogos Olímpicos do Rio 2016. Os últimos 100m olímpicos de Bolt. E os meus primeiros (por Lídia Paralta Gomes)

Os Jogos do Rio foram os Jogos do adeus de Usain Bolt. No dia 14 de agosto de 2016 aconteceu muita coisa no Estádio Olímpico, umas mais surpreendentes que outras, mas a mais histórica delas foi a terceira medalha de ouro olímpica nos 100m para o jamaicano. Nove segundos e oitenta e um centésimos para um dos maiores feitos individuais da história do desporto. A rubrica "O Meu Jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, como adepto ou interveniente

Lídia Paralta Gomes

OLIVIER MORIN/Getty

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As zonas mistas dos grandes estádios são, essencialmente, zonas de espera. Salas fechadas, com um labirinto de grades que os atletas serpenteiam após as suas provas, uns com mais vontade de falar que outros, e onde um jornalista precisa de ter olho para para se colocar no canto estratégico, aquele em que o atleta desejado terá mais hipóteses de parar, sabe-se lá quando, porque eles nunca têm horas para aparecer.

As zonas mistas também são locais de frustração para quem se divide entre o dever de informar e o genuíno gosto por desporto. E nuns Jogos Olímpicos isso ainda é mais, digamos, complicado de gerir. Porque num qualquer jogo de futebol, o árbitro apita, o jogo acaba e só então a zona mista se enche. Num Estádio Olímpico, naquela segunda semana dos Jogos, há sempre algo a acontecer, durante horas e horas, no tartan ou no relvado. E os jornalistas ali estão, tantas vezes a meio metro da ação e sem a poder ver ao vivo.

Recuo então até ao dia 14 de agosto de 2016. Estádio Olímpico Nilton Santos, vulgo Engenhão, Rio de Janeiro. É o dia da final do triplo salto feminino e Portugal, fantástico, tem lá duas atletas: Patrícia Mamona e Susana Costa. Sou jornalista de um diário português por isso o meu foco tem de estar ali, naquela prova. Ainda vejo a primeira série de saltos lá no topo da tribuna de imprensa, Susana Costa fica em 11.º e por isso não passa à ronda final de saltos. Patrícia Mamona sim. E está bem. Não sabemos se dá para medalha, mas está bem, muito bem.

Mas é preciso apanhar Susana Costa na zona mista. E por isso desço os seis andares de escadas que vão lá de cima até ao rés-do-chão pela enésima vez, o mesmo movimento pendular. E espero.

E continuo a esperar. É esse o meu dever, apesar do meu Eu amante de desporto querer muito estar na bancada.

Por esta altura não há muito mais a fazer senão encostar-me às grades e olhar de soslaio para os vários ecrãs que pululam pela sala. Ao 5.º salto, ui, recorde nacional para Mamona. Boa, boa. Nas minhas costas, um magote de jornalistas, colados a outro televisor, leva as mão à cabeça. Há sons de surpresa e não é por causa do recorde nacional de Mamona.

Houve um recorde do Mundo.

E não foi um recorde do Mundo qualquer. Um recorde que teimosamente se aguentava há 17 anos, desde 1999, feito de Michael Johnson e das suas sapatilhas douradas. Caiu ali, no Rio, sem que ninguém estivesse à espera, menos ainda porque Wayde van Niekerk corria na pista 8, a mais exterior de todas, normalmente reservada aos que apenas aos últimos lugares da final podem aspirar.

Richard Heathcote/Getty

O meu Eu amante de desporto, o meu Eu que tantas noites passou em branco nos Jogos de Sydney ou de Pequim, porque os nossos fusos horários não eram compatíveis, esse meu Eu e não o Eu jornalista pensou então:

Acabei de perder um recorde do Mundo, que aconteceu aqui ao lado.

Voltou o meu Eu jornalista. Como está a Patrícia Mamona? Ah, ok, último salto. Não deu para mais. O recorde de Portugal de 14,65m chegou apenas para o 6.º lugar. Apenas não, chegou para um grande 6.º lugar numa final olímpica de nível altíssimo. Agora, há que esperar por ela ali na zona mista apinhada.

E esperei.

A noite já ia longa, a jornada ia correndo a passos largos para o fim, para a apoteose que é a final dos 100 m masculinos, a mais esperada de todas as provas a cada Jogos Olímpicos. Veio de novo o dilema: não posso falhar o meu compromisso com o dever, mas é Bolt, é a sua última final olímpica dos 100m, não dá para falhar.

Como boa diplomata, encetei então conversações com um responsável da missão olímpica portuguesa no Rio. Aconteceu mais ou menos este diálogo:

- Olha, achas que a Patrícia Mamona ainda demora?
- Eh pá, não sei
- É que eu queria muito ver a final dos 100m
- EH PÁ, EU TAMBÉM

A hora da final aproximava-se e vi-o muito agarrado ao telemóvel, talvez a falar com alguém nesse momento mais próximo de Mamona. Enquanto isso, eu fazia contas e grandes operações matemáticas na minha cabeça. Em quanto tempo conseguiria eu subir aqueles seis andares de escadas, ver uma final que teria seguramente menos de 10 segundos, descer os seis andares de escadas, entrar na zona mista e ainda apanhar Patrícia Mamona? Eu já tinha perdido um recorde do Mundo naquela noite, não podia perder Bolt.

Mas o dever, caraças, o dever.

Foi já com o speaker do estádio a anunciar a final dos 100m e com o meu cérebro em pleno desatino ético que senti um toque no ombro.

- Bora!

Era o tal membro da comitiva portuguesa. Desatámos a correr. Naquela altura já não teríamos tempo nem pulmões para subir os seis andares de escadas por isso, a meio da fuga, entrámos na primeira porta que vimos aberta. Tenho a certeza absoluta que a minha credencial não me permitia estar ali, mas aquele momento era muito mais importante do que qualquer regra. Vi o relvado, a pista e empoleirei-me o mais que pude. O sítio não era o melhor, havia dezenas e dezenas de câmaras de televisão dos mais variados pontos do planeta ali plantadas, mas com um pouco de ginástica conseguia ter a panorâmica daqueles 100 metros que iam dos atletas até à meta.

Segundos depois ouviu-se o tiro de partida. Usain Bolt, como sempre, partiu mal. Soltei um impropério em direção ao meu companheiro de fuga.

F***-**, tanta coisa e ele vai perder.

Não perdeu, claro. A partir de meio da corrida lá lançou ele a sua passada indomável. O final já o vi eu com o pescoço todo esticado, mas tinha sido o primeiro, sem dúvidas, nove segundos e oitenta e um centésimos, arrisquei eu a minha saúde e a minha credencial por nove segundos e oitenta e um centésimos de tempo, mas valeu tudo a pena, eu estava ali e vi com estes olhinhos que a terra há-de comer Usain Bolt a tornar-se campeão olímpico dos 100m pela terceira e última vez. Festejei, deixei-me ficar um bocadinho quieta a ouvir aquela parede de som que vinha das bancadas a acertar-me em cheio na cara. E depois, a realidade.

Porque faltava ainda saber se não tinha arriscado também o meu dever de jornalista. E para isso, tinha de correr novamente. Desci aquelas escadas outra vez, não sei quantos andares, três, talvez? E a que velocidade? Sei lá. Não foram 100m em 9.81s, mas foi assim que os senti. Quando entro na zona mista, a pergunta lapidar: "Ela já passou?".

Não, ela ainda não tinha passado.

Final dos 100 metros masculinos dos Jogos Olímpicos do Rio 2016

1.º Usain Bolt (JAM), 9.81
2.º Justin Gatlin (EUA), 9.89
3.º Andre de Grasse (CAN), 9.91
4.º Yohan Blake (JAM), 9.93
5.º Akani Simbine (A.SUL), 9.94
6.º Ben Youssef Meite (CIV), 9.96
7.º Jimmy Vicaut (FRA), 10.04
8.º Trayvon Bromell (EUA), 10.06