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O meu jogo

Mais do que os jogos, os goleadores: “O Fernando Peyroteo? Com esse gajo não há táticas, há porrada” (pelo filósofo Manuel Sérgio)

A rubrica "O Meu Jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, e o professor e filósofo Manuel Sérgio, mais do que recordar jogos, preferiu recordar os goleadores que marcaram as suas oito décadas como adepto

Manuel Sérgio

Fernando Peyroteo, ex-jogador do Sporting

DR

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A jornalista Mariana Cabral teve a bondade de convidar-me a que evocasse, para a Tribuna Expresso, o golo inesquecível, entre os golos inesquecíveis, da minha longa vida de espectador do futebol.

Nasci, na freguesia da Ajuda, em Lisboa, no dia 20 de abril de 1933 e, por influência dos meus saudosos Pais, senti-me, logo em criança, católico, apostólico, romano e… belenenses! Se o meu Pai não se equivocou, desde 1939 que sou frequentador assíduo, como espectador, dos campos e dos estádios de futebol. Sublinho: como espectador, já que nunca pratiquei desporto federado. Um ponto ainda a salientar: o meu “belenensismo” (nem o do meu Pai) nunca ressumou rancor ou despeito e a minha ironia, uma ou outra vez, era sempre purificada por um lampejo de justiça – eu gostava que ganhasse quem, a meus olhos, tivesse jogado melhor.

É evidente que, quando lia os jornais, bebia as palavras dos jogadores de “camisola azul e cruz ao peito”, como quem prova um licor divino. Nas décadas de 30, 40, 50 e 60, nas ruas trauteavam-se as canções da Beatriz Costa, mas os nomes dos principais jogadores do Belenenses eram reverenciados, como os do Benfica e do Sporting. O FC Porto, antes da liderança e do valor mental de Pinto da Costa e José Maria Pedroto, ainda se situava igual ou ligeiramente abaixo do futebol de Belém.

O Augusto Silva, o Mariano Amaro, o César de Matos, o Quaresma, o Peres, o Godinho, o Capela, o Vasco, o Rafael, o Feliciano, o José Pereira, o Vicente e o Matateu, jogadores do Belenenses, foram internacionais. E o Matateu, hoje, podem crer, seria um dos melhores jogadores do mundo.

Golos, como aquele de um “pontapé de bicicleta”, que o Cristiano Ronaldo marcou à Juventus, vi-o eu conseguir igual feito duas vezes, uma delas nas Salésias (num jogo Belenenses-CUF, se não estou em erro, em que o Jesus Correia, ex-Sporting, jogou como avançado centro da CUF) e a outra, no Restelo, mas já não me vem à mente qual o “nosso” adversário.

Matateu, ex-jogador do Belenenses

Matateu, ex-jogador do Belenenses

Mas florescem, com um novo e flagrante viço, na minha memória, os nomes dos melhores “rematadores”, de nacionalidade portuguesa, que admirei, no nosso futebol, ao longo dos últimos 80 anos: Peyroteo, Matateu, José Águas, Eusébio, Fernando Gomes, Pauleta e Cristiano Ronaldo.

O Matateu e o Eusébio beneficiavam de uma velocidade estonteante, de uma finta desconcertante e de um remate fácil e potente. O Eusébio era fisicamente mais forte, o Matateu era mais coleante, insólito, inesperado. Dos dois, não sei hoje qual seria o mais eficaz, mas em ambos se reconheciam os traços da genialidade. Como em Cristiano Ronaldo – um génio também, mas que se ergue, acima dos demais, com o apoio de uma tecnociência (médica, económica, jurídica, etc,) que o Matateu e o Eusébio nunca viram nem sequer podiam suspeitar. Mas podia ufanar-se o Eusébio de integrar uma equipa onde se movimentavam jogadores de excecional craveira, como o Coluna, o José Augusto, o Simões, o Águas, o Santana, o Torres e o Germano.

O Matateu tinha ao seu lado três jogadores de talento: o seu irmão Vicente, o argentino Di Pace e o guarda-redes, o “pássaro azul”, José Pereira. Os restantes colegas de equipa ostentavam o valor suficiente, para jogarem no Belenenses, mas situavam-se longe da “classe” do Vicente e do Di Pace e do José Pereira. Se é verdade que “eu sou eu e a minha circunstância”, entre a circunstância que rodeava o Matateu e que lhe dava o apoio então possível e a circunstância que ajudava e sustentava os demais jogadores de que me ocupo, neste artigo – a diferença é grande, muito grande, difícil de ajuizar. Não esqueço que a medicina desportiva, designadamente nas áreas da cardiologia e da ortopedia, nos anos do Matateu, do Águas e do Eusébio, era praticamente a mesma, mas os jogadores do Benfica (neste caso, o Águas e o Eusébio) já tinham, em seu favor, o profissionalismo que o Otto Glória engastou, como esplêndida jóia, entre os “encarnados”.

No que respeita à medicina desportiva, o Belenenses, com os Drs. Silva Rocha e Camacho Vieira, ambos médicos dos “azuis” e da Federação Portuguesa de Futebol, não temiam cotejo com a prática médica dos outros Clubes da “Primeira Divisão”. Fiz amizade com os Drs. Silva Rocha e Camacho Vieira. Recordo que foi o Dr. Silva Rocha que me emprestou, para leitura, “O Ser e o Nada” de Jean-Paul Sartre.

José Águas, do lado direito, em 1963, a trocar galhardetes com o capitão do Feyenoord

José Águas, do lado direito, em 1963, a trocar galhardetes com o capitão do Feyenoord

Harry Pot / Anefo

Mas, voltando ao futebol: o José Águas cabeceava com muita certeza e elegância. Aliás, todo ele era souplesse, num jogo de futebol. O mesmo acontecia com o Artur Jorge e ambos, José Águas e Artur Jorge, de remate fácil. O Peyroteo ainda é, “nos dias de hoje, o jogador mundial, com melhor média de golos marcados em jogos de campeonatos nacionais, ao obter 331 golos em 197 jogos realizados, o que corresponde a 1,68 por jogo. Nos 432 jogos em que participou, marcou 694 golos” (Fernando Correia, “Os Cinco Violinos”, Editora Livros do Brasil, 2009, pp. 69-71).

Durante a minha adolescência, o Fernando Peyroteo era o jogador que eu mais temia, nos jogos entre o Sporting e o Belenenses. Dotado de um “pontapé-canhão”, forte e veloz, parecia imparável, quando os interiores que o rodeavam, o Vasques (o “Malhoa”) e o Travassos (o “Zé da Europa”), o serviam “em profundidade”. Ultrapassava os defesas contrários e não perdia tempo com dribles e fintas: rematava imediatamente e, na maioria das vezes, fazia golo.

Durante a década de 70, todas as quartas-feiras, jantava, em Lisboa, num restaurante da rua Pinheiro Chagas, com o Acácio Rosa (um dos pioneiros do desporto, em Portugal) e o Mariano Amaro (futebolista do Belenenses, internacional de futebol e capitão da equipa de Belém, campeã nacional de futebol). O Mariano foi um predecessor do benfiquista Rui Costa, ou seja, de invulgar inteligência a jogar. Disse-me num dos nossos jantares: “O Fernando Peyroteo? Só à porrada se segurava aquele gajo”. No meio de uma gargalhada, ainda acrescentou: “Num jogo dei mesmo um conselho ao Feliciano, que tinha sempre o pesado encargo de marcar o Fernando: com esse gajo não há táticas, há porrada”. E, com voz de clarim vitorioso: e empatámos 1-1”. Após uma curta pausa, ainda recordou emocionado: “E olhe que eu era muito amigo do Fernando. Ele era um homem grande e de alma grande. Estou certo que a porrada do Feliciano nunca o lesionou”…

Fernando Gomes está entre os jogadores que, sob a liderança da dupla José Pedroto-Pinto da Costa, permitiram ao FC Porto uma clara ascendência, no futebol português. “Bi-Bota de Ouro”, 6 Bolas de Prata, 5 vezes campeão nacional, campeão europeu e da Taça Intercontinental, foi o autor de 437 golos, pelo FC Porto.

O Pedro Pauleta, açoriano, nunca disputou o Nacional da Primeira Divisão e, mesmo assim, foi internacional 88 vezes. Em 641 jogos disputados, marcou 339 golos. Junto o Fernando Gomes ao Pedro Pauleta porque, sem grandes qualidades atléticas, distinguiam-se pela inteligência e pela magnífica leitura de jogo. Posso compará-los, sob determinados aspetos, ao brasileiro Romário, o “Baixinho”, como lhe chamavam o qual, com 1,67 de altura, marcou 55 golos em 70 internacionalizações. Nem o Fernando Gomes, nem o Pedro Pauleta tinham a arte do Romário… mas, no meu entender, semelhante inteligência e leitura de jogo.

JEAN-CHRISTOPHE VERHAEGEN

Afinal, não respondi à pergunta que a Mariana me solicitou. Nem acrescentarei palavras banais e solenes, para aplaudir o Cristiano Ronaldo. É o melhor jogador do mundo! E de um futebol que está intimamente ligado à fórmula capitalista do desenvolvimento económico onde, demasiadas vezes, o interesse individual e os interesses das empresas e dos clubes não conhece outros limites que não sejam, portanto, os ditados pelos seus próprios objetivos (digo isto, com um fundo sentimento de desencanto).

O primado da moral, na ordem social, parece incompatível com o economicismo das sociedades ocidentais? No entanto, o Messi, como capitão da equipa do Barcelona, sugeriu uma redução no seu vencimento e no dos jogadores, seus colegas, “para que os funcionários do clube possam receber 100% do seu salário”. Afinal, o cristianíssimo “amai os outros como a vós mesmos” não morreu (nem morrerá, estou certo) no futebol.

Mas… qual o golo que mais me entusiasmou, ao longo dos meus 80 anos de espectador do futebol? Francamente, neste momento, não sei. Entre os do Cristiano Ronaldo e do Eusébio e do Matateu talvez o possa encontrar.

Manuel Sérgio, o filósofo desportivo: “Alguém no futebol sabia quem era o Descartes? Não jogava no Benfica, o gajo”

Não é comum vermos a filosofia a cruzar-se com o futebol, mas Manuel Sérgio é um caso à parte. Filósofo, professor (de José Mourinho, Rui Vitória e José Peseiro, entre outros) e ensaísta, trabalhou no Benfica com Jorge Jesus - "dá uns treinos que é um espectáculo" - e vai ser homenageado, segunda e terça-feira, num colóquio internacional sobre a sua "obra e pensamento" sobre a motricidade humana, que explicou à <strong>Tribuna Expresso</strong>