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O meu jogo

Catarina Pereira (Lá em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira (Lá em Casa Mando Eu)

Cronista da Tribuna Expresso

FC Porto 5-0 Benfica. Ó meu deus nosso senhor Jorge Nuno Pinto da Costa, foi das coisas mais bonitas que eu já vi (por Lá em Casa Mando Eu)

O dia 7 de novembro de 2010 será para sempre um dos dias mais felizes da vida de Catarina Pereira - e de Hulk e de Sapunaru e, bom, de todos os portistas, que festejaram uma mão-cheia de golos frente ao Benfica, numa época histórica. A rubrica "O meu jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, como adepto ou interveniente

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Acabei de dar conta que, qualquer dia, faz 10 anos que o Benfica levou 5-0 no Estádio do Dragão. E se isto é, por um lado, chocante (porque estamos todos velhos e o tempo passa demasiado rápido), por outro, sinto que temos que começar já a assinalar a data. Portanto, cá estamos, tentarei fazer a minha parte.

Ora, para falar do FC Porto-Benfica do dia 7 de novembro de 2010, penso que temos de dar um bocadinho de contexto. FC Porto e Benfica, normalmente, já não gostam muito um do outro, mas, nesta altura, vivia-se num daqueles picos de rivalidade que são um verdadeiro e enorme teste para os casais de adeptos doentes destes dois clubes.

Na época anterior, o Benfica tinha sido campeão com o “rolo compressor”, mas Hulk tinha estado sem jogar não sei quanto tempo por causa do túnel, sendo que o castigo foi depois “corrigido” (e Sapunaru, já agora, que será importante neste enredo). Ora, a isto juntavam-se dois treinadores que viviam muito bem com ambas as situações: Jorge Jesus achava que era invencível (como quase sempre, aliás) e André Villas-Boas transformava a injustiça em motivação.

O FC Porto estava já muito bem em novembro. Ninguém diria, nesta altura, que ia ganhar quatro troféus numa época, mas já havia uma grande suspeita de que era melhor do que o rival. Menos para Jorge Jesus, claro, é sempre difícil convencê-lo deste tipo de coisas. Talvez tenha sido um bocadinho por isso que o treinador encarnado tomou aquela opção de colocar David Luiz a lateral esquerdo, subindo Fábio Coentrão. (Mais um bocadinho de contexto: uns tempos antes deste jogo, o selecionador do Brasil tinha convocado David Luiz, mas deixou Hulk de fora. E foi ligeiramente esquisito)

Esta opção técnica de Jesus (legítima, como todas, aliás) viria a ser crucial para o desenrolar do jogo, porque a maneira como Hulk passa por David Luiz no flanco, a forma como este quase que cai e ainda tenta agarrá-lo mas nem isso acerta, para o brasileiro servir Varela para o primeiro golo, oh meu deus nosso senhor Jorge Nuno Pinto da Costa, foi das coisas mais bonitas que eu já vi. É que não foi só futebol, foi justiça.

Se o jogo tivesse acabado aqui, esta já teria sido uma das maiores humilhações da vida de David Luiz (não vou lembrar a maior, seria cruel e eu não sou dessas pessoas que falam de um 7-1 com uma leveza que parece que não respeitam ninguém). Mas, dizia eu, passado um bocado, e depois de muitas combinações entre Sapunaru e Hulk - que fizeram daquele flanco um verdadeiro túnel de amor (viram o que eu fiz aqui?) -, Belluschi voltou a fazer uma maldade a David Luiz (sabem quando uma pessoa vai decidida numa direção e, de repente, a bola vira para a outra, sem aviso? Foi mais ou menos isso. Não se faz) e serviu Falcao para o segundo, de calcanhar. De calcanhar, enfim.

FRANCISCO LEONG

Recordo que na baliza do Benfica estava Roberto e já estava 2-0 sem ele ter feito nada por isso, o que é sempre assinalável. E, por falar em Roberto, fui eu que sonhei ou entrou um frango no relvado neste jogo? Bem, há 10 anos não havia assim taaaaaaaanta preocupação com os direitos dos animais, por isso relaxem um bocadinho perante esta informação.

Ora, se nesta altura (24 minutos de jogo, eheh) já estávamos todos eufóricos, contentes, felizes com aquela demonstração de superioridade, imaginem quatro minutos depois, quando Sapunaru (volto a lembrar a tal situação do túnel) faz um grande passe para Belluschi, que vira um adversário (e desta vez nem foi David Luiz, boa!) e passa para novo golo de Falcao. Zero culpas para Roberto no golo, o senhor que levou o animal afinal nem tinha razão nenhuma para isso. Lembro-me que Luisão ficou de joelhos, mas, 10 anos depois, já ninguém se lembra porque houve outra pessoa que roubou a imagem desse gesto tão belo.

E aqui tenho de admitir - se bem me lembro daquela noite fria do Dragão - que nós, os adeptos, já estávamos meio loucos. A cada golo, os festejos eram cada vez mais ridículos. O futebol, para um doente, é sempre mais sofrimento do que alegria. O festejo de um golo é sempre um grito que mistura felicidade com alívio. Ali, não estava a acontecer isso. As pessoas riam-se, sei lá. Era estranho, mas bom.

Depois, o FC Porto continuou a ter boas hipóteses para marcar, o Benfica continuou a existir (um bocadinho, pelo menos), Luisão foi expulso porque se fartou de estar ali a levar tau-tau e a ouvir “olés” (e bem, e bem, porque isto não se faz, as pessoas vão ao futebol e parece que se tornam más, isto é só um jogo, porquê tanta provocação?). Até que faltavam pouco mais de 10 minutos para o fim e Coentrão fez penálti sobre Hulk. (Contexto: ninguém gosta de Fábio Coentrão, nunca. E Hulk já sabem). O brasileiro bateu Roberto (mais uma vez, sem culpa nenhuma, um senhor), tirou a camisola e fez aquela pose em que mostrava os músculos todos. Aquela imagem foi perfeita, porque ainda hoje transmite toda a superioridade que o FC Porto demonstrou sobre o rival, personificada num jogador que tinha motivos para desejar muito isso.

FRANCISCO LEONG

O bruto do Hulk ainda fez mais um golo, com um remate daqueles que só ele lá sabe fazer e olhem, não havia nada a fazer, a vida era mesmo assim. O speaker do Dragão dizia “FC Porto” e o público respondia “5!”; ele continuava - sem respeito nenhum, onde é que já se viu uma coisa tão horrível - “visitantes” e nós: “0!” Eh pá, era gozar, sabem? Não havia limites, foi uma pouca vergonha, embora ninguém, por acaso, se tenha lembrado de desligar as luzes e acionar o sistema de rega.

Espero que a memória não me traia, mas acho que, quando o árbitro apitou para o final, começou a dar “A Canção do Beijinho”.

“Ora dá cá um e a seguir dá outro,

Depois dá mais um que só dois é pouco.”

AFP

Os portistas cantavam, os portistas dançavam. Havia provocações para os coitados dos benfiquistas nas bancadas, mas havia, sobretudo, uma dose enorme de extravagância.

Essa época teve, aliás, muitas doses disso. Aconteceram muitas coisas, o FC Porto ganhou muitas cenas, mas parecia que era inevitável que, de vez em quando, o Benfica tivesse de ser humilhado para que tudo se compusesse. E arrisco dizer que, apesar do campeonato ganho na Luz, apesar daquela reviravolta para a Taça, apesar de mais uma Liga Europa no museu, este 5-0 foi O momento.