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Santa Clara 4-3 Aves. O dia em que uma ilha invadiu o campo e um arquipélago subiu de divisão (por Mariana Cabral)

A 30 de maio de 1999, o Santa Clara subiu à 1ª Divisão pela primeira vez e Mariana Cabral, juntamente com outros 23 mil açorianos, estava no Estádio de São Miguel a festejar. A rubrica "O Meu Jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, como adepto ou interveniente

Mariana Cabral

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Se há coisa que o passar dos anos nos ensina, é a saber relativizar o peso, a profundidade e o pormenor das nossas memórias mais ou menos longínquas. É, aliás, esse pressuposto que faz de "The Affair" uma das minhas séries preferidas de todos os tempos: o que ali é exposto, enquanto história relativa à memória da pessoa A, é totalmente diferente daquilo que é a memória da pessoa B, ainda que a reminiscência de ambas se refira exatamente à mesma situação.

Este preâmbulo leva-nos então ao primeiro jogo dos jogos que marcaram a minha vida, cuja recordação difusa me levou a interpelar o meu pai, que me levou ao dito jogo, acabando eu por descobrir algo que não imaginava.

- Lembras-te daquele jogo em que o Santa Clara subiu de divisão pela primeira vez? Foi quando?

- Não me lembro da data certa, mas deve ser fácil encontrar. O treinador era o Manuel Fernandes, depois fui entrevistá-lo à sede do Santa Clara e tu quiseste ir comigo.

- Não me lembro de ter sido nessa altura...

- Foi depois da subida e por acaso foi para o Expresso, foi quando eu era correspondente.

Se eu sabia isto? Não. Se eu tenho sequer memória de ter um pai correspondente do jornal para o qual agora trabalho? Também não. Se eu me lembro de conhecer o Manuel Fernandes e se ainda tenho lá em casa uma folha assinada por ele num caderno juvenil que então estimava? Definitivamente.

Os jogadores do Santa Clara que venceram o Aves, em 1999: Madureira, Cláudio Abreu, Telmo Silva, Portela, Manuel Eurico, Figueiredo, Barrigana, Sérgio Gameiro, Cuc, Prokopenko e Vincze (e ainda entraram Vladimir, Sadjó e Sérgio Pedro)

Os jogadores do Santa Clara que venceram o Aves, em 1999: Madureira, Cláudio Abreu, Telmo Silva, Portela, Manuel Eurico, Figueiredo, Barrigana, Sérgio Gameiro, Cuc, Prokopenko e Vincze (e ainda entraram Vladimir, Sadjó e Sérgio Pedro)

DR

A 30 de maio de 1999, 23 mil micaelenses (assim se chamam os naturais da maior ilha dos Açores), incluindo esta que vos escreve, então com 12 anos, abarrotaram o Estádio de São Miguel, em Ponta Delgada, para assistir ao Santa Clara-Aves, jogo que poderia finalmente garantir a inédita subida de divisão para a equipa açoriana, apenas um ano depois de um outro jogo dramático.

Em 1998, então também na última jornada, o Santa Clara garantiu a subida à 2ª Divisão, pela primeira vez, depois de derrotar o Câmara de Lobos, na Madeira, com um golo marcado... no último minuto, vencendo por 2-1.

Essa subida, também com Manuel Fernandes como treinador, já tinha tido todos os ingredientes necessários para um belo filme (ou, como se faz hoje em dia, um belo documentário na Netflix), mas o Santa Clara ainda conseguiu ir mais além, voltando a testar a sanidade mental de grande parte de uma ilha com 150 mil habitantes - de notar que, além dos 23 mil que estavam no estádio, havia outros tantos a ver o jogo em direto na RTP Açores. "Se fosse no continente, na mesma proporção, teria de arranjar-se um estádio com capacidade para mais de um milhão de espectadores", gracejou o então presidente do Governo Regional, Carlos César, também ele presente no estádio que ainda hoje serve de casa ao Santa Clara.

A primeira equipa do Santa Clara a jogar na 1ª Divisão

A primeira equipa do Santa Clara a jogar na 1ª Divisão

CD Santa Clara

Ora, à entrada para 34ª e última jornada da 2ª Divisão de 1998/99, Gil Vicente e Belenenses já estavam mais do que promovidos, mas ainda faltava saber quem ocuparia o último lugar que dava acesso à 1ª Divisão, com a particularidade de ambos os favoritos estarem em São Miguel: o Santa Clara tinha 52 pontos, o Aves tinha 51 pontos. Logo a seguir, também em disputa, estavam Felgueiras e Espinho, ambos com 50 pontos.

Tal significava, então, que o Santa Clara só dependia de si próprio para assegurar a subida e partia à frente dos restantes pretendentes - e a tarde não podia ter começado melhor. Logo aos cinco minutos, o húngaro István Vincze fez o 1-0 e, apenas três minutos depois, o 2-0.

Foi a loucura no estádio, com o jogo a parecer tornar-se um sonho perfeito: aos 11 minutos, o russo Prokopenko - emprestado e chegado no mercado de inverno, tal como Vincze - fez o 3-0 e já todos festejávamos a subida, mesmo com mais de metade da partida ainda por jogar.

Só que isto do futebol, como bem sabemos - bom, com 12 anos ainda não sabia -, tem muito que se lhe diga, e as festas antes do tempo nunca fizeram bem a ninguém. Ainda na 1ª parte, Rui Lima reduziu para 3-1 e, à entrada da 2ª parte, a equipa do professor Neca lá conseguiu o 3-2, por Paulo Poejo, fazendo 23 mil pessoas engolir em seco.

Aos 78 minutos, balde de água gelada: Naddah fez o 3-3. Aí sim, lembro-me distintamente de ouvir quem se questionasse com as contas de Felgueiras e Espinho, mas os adeptos com rádio junto ao ouvido descansaram os vizinhos de bancada, que foram espalhando a palavra: o Gil Vicente de Álvaro Magalhães ganhava 2-0 ao Felgueiras de Diamantino Miranda e o União da Madeira de Fernando Festas ganhava 3-2 ao Espinho de Carlos Carvalhal.

A subida resumia-se então ao duelo a que assistíamos, cujo momento era periclitante para o lado açoriano, dado o ímpeto da recuperação do Aves. Contudo, aos 85 minutos, livre junto à área visitante, descaído para o corredor lateral direito. O capitão Figueiredo, número 10 na camisola e de longe o meu preferido (curiosamente, anos depois, joguei futebol na mesma equipa da mulher dele - devia ter-lhe pedido uma camisola...), cruza a bola com subtileza para o primeiro poste, onde aparece a cabeça de Manuel Eurico, a meias com um defensa avense, a desviar para o 4-3.

O descontrolo foi tal que Eurico deu meia volta sobre si próprio e, antes de festejar, tirou a camisola, mesmo já tendo um cartão amarelo - acabou expulso, pois claro.

Os últimos minutos, incluindo os três de compensação, foram de nervos. Mas assim que Lucílio Baptista apitou, começou a correr desenfreadamente para os balneários. Porquê? Simples: assim que ouviram o apito, muitos dos adeptos desataram a correr furiosamente para dentro do relvado, para festejar junto daqueles a quem queriam agradecer.

O mar de gente a invadir o verde é uma imagem, ou uma sensação, maravilhosa, da qual nunca mais me vou esquecer. Assim como do que se passou a seguir: um adepto apareceu no centro do relvado com o seu helicóptero (!), sobrevoando quem lá andava. Outros tempos, pois claro.

Feita a festa, Carlos César não poderia ter sido mais certeiro no que disse: "Hoje é um dia em que os açorianos não têm clube, nem partido, nem ilha: têm apenas a alma que lhes deu a subida à 1ª Divisão".

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Rui Cordeiro é presidente do Santa Clara desde 2015 e esta época conseguiu finalmente o que todos os açorianos queriam: a subida à 1ª Liga, 15 anos depois da última presença. Enrolado a uma bandeira regional, chorou por amor ao clube e garante que vai manter a promessa que cumpriu: "Na terça-feira, com maior ou menor dificuldade, vamos subir o Pico e pôr as bandeiras dos Açores e do Santa Clara lá no topo"