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O meu jogo

Humberto Coelho

Humberto Coelho

Vice-presidente da FPF e antigo selecionador nacional

Euro'2000. Às tantas, com Portugal a perder por dois, Humberto disse a Rui Caçador: “Vamos ganhar isto”. Ele lá sabia

A 12 de junho do ano que virou o século, no estádio do PSV, em Eindhoven, Portugal abriu o Europeu com uma reviravolta no resultado, depois de estar a perder por 2-0. Um jogo que Humberto Coelho sabia desde o início que íamos ganhar e que não esquece pela beleza do espetáculo a que assistiu. A rubrica "O Meu Jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, como adepto ou interveniente

Humberto Coelho

© Oleg Popov / Reuters

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Um jogo que ficou para sempre gravado bem fundo na minha memória é o Portugal-Inglaterra do Euro 2000, em que eu era o selecionador nacional. Não só pela qualidade do jogo e a beleza do espetáculo, mas também pela atitude, persistência, abnegação e entrega dos jogadores, que fez com que conseguíssemos dar a volta ao resultado, quando estamos a perder 2-0 aos 18 minutos e acabamos por ganhar 3-2.

Todas essas situações que surgem num jogo de futebol e que às vezes não dão certo mas daquela vez deu, porque jogámos melhor, fizemos um bom jogo e, quando se joga bem, geralmente tem-se mais hipótese de ganhar.

Quando sofremos o segundo golo disse ao meu adjunto, o Rui Caçador, que se não sofrêssemos o terceiro golo íamos ganhar o jogo. Porquê? Porque nós sofremos dois golos contra a corrente do jogo, estávamos a jogar bem, tínhamos criado situações de golo. Os ingleses tiveram mais sorte e marcaram, mas o que é certo é que o jogo estava muito equilibrado e nós estávamos a jogar bem. E com essa visão, fiquei com a ideia de que com 2-0, se marcássemos ficávamos por cima. Se estivéssemos a perder 3-0 seria mais difícil, agora quando uma equipa está a ganhar 2-0 e sofre um golo, geralmente vai-se abaixo. E foi isso que aconteceu. Continuamos a jogar de uma forma fluída, um futebol de transição ofensiva.

O golo do Figo foi importantíssimo, não só porque é um grande golo, como pelo que se seguiu. O golo do João Pinto que é uma jogada em que estivemos 52 segundos com a bola em nosso poder e depois finalizámos com um lance e uma execução técnica excepcional.

Terceiro golo, Nuno Gomes.

Foi um jogo memorável. Ainda hoje encontro pessoas que me dizem que esse é o jogo que guardam na memória. Porque não foi só dar a volta a um resultado negativo, mas foi dar a volta sempre a jogar bem.

Sempre acreditei que ia ganhar esse jogo, porque quando entramos em campo estávamos a jogar bem, criamos várias situações de golo. Lembro-me de uma do João Pinto por exemplo, de cabeça, em que a bola passou por cima da barra, a dois metros da baliza. E podia dar outros exemplos. Os dois golos dos ingleses aconteceram porque cometemos dois erros defensivos, mas nesse momento podíamos também já estar a ganhar ou empatados.

Foi também um jogo memorável por ser num Campeonato da Europa, ser o primeiro jogo e levou-nos às meias-finais.

Eu a e equipa técnica preparamos o jogo bem, os jogadores estavam bem física e mentalmente e por isso conseguiram dar a volta, porque também estavam confortáveis com as indicações de que demos. Ao intervalo disse-lhes que estávamos na mó de cima, que éramos superiores a eles, e para continuarem a jogar da mesma forma.

Os ingleses tiveram algumas situações em que podiam ter marcado, mas senti a equipa com confiança para segurar a vitória. Claro está que tivemos sorte também porque os ingleses começaram a atirar a bola muito por cima, a pingar muito a bola para a área, e eles são bons de cabeça. Tivemos algumas situações aflitivas mas estivemos bem na defesa, compactos e determinados. A entrada do Beto para terceiro central foi uma arma que também ajudou e que teve sucesso.

(Depoimento recolhido por Alexandra Simões de Abreu)