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O meu jogo

Portugal 2-1 Holanda. Como Ronaldo, Pauleta, Figo ou Maniche foram o melhor dicionário de um miúdo de 9 anos

O jornalista Pedro Barata escreve sobre um jogo do Euro'2004 que lhe terá forçosamente mudado a vida. A rubrica "O Meu Jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, como adepto ou interveniente

FRANCOIS GUILLOT

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30 de junho de 2004. Portugal-Holanda, meias-finais do Europeu que transformou o “país à beira-mar plantado” num enorme campo de futebol. A bola transformou-se, mais que nunca, no centro da vida de todos nós e, 18 dias depois do pontapé-de-saída, Portugal preparava-se para tentar vingar 1966, 1984 e 2000, desafiando a maldição que nos impedia de chegar a uma final.

A 16 de junho, eu havia celebrado o meu nono aniversário nas bancadas do Estádio da Luz, assistindo à vitória contra a Rússia que nos devolvia a esperança após o primeiro ato (mal adivinhámos que seria o primeiro...) da tragédia grega. A seta do cupido do futebol atingira-me há pouco tempo, mas, teleguiada como um cruzamento de Beckham, acertara de maneira fulminante no meu coração.

Foi com total dedicação e entusiasmo – e, por primeira e única vez, com direito a televisão colocada no meu quarto, podendo eu assim ver as antevisões, os jogos e os rescaldos do Euro, aplicando o “fechado para futebol” que Galeano descrevera – que vivi o desfile de estrelas que passava à minha porta. Depois de derrotar Rússia, Espanha e Inglaterra, a equipa de Scolari, abençoada pela Senhora do Caravaggio e abraçada por um país que colocava bandeiras à janela, tinha na Holanda dos consagrados van der Sar, Seedorf e van Nistelrooy e das jovens pérolas van der Vaart, Sneijder e Robben o último desafio antes da final do Estádio da Luz.

Há semanas que me habituara à rotina do Euro’2004, mas naquele dia tudo foi diferente. O acordar foi súbito, atento, ativo. Tinha uma incapacidade de verbalizar mais do que palavras de circunstâncias, pois a cabeça já se encontrava centrada no lugar para o qual o corpo se dirigiria horas depois. A alimentação foi transformada em obrigação quase forçada. Saí de casa cedo, com passo grave e sentido de missão, como se tudo o que eu fizesse nas horas seguintes estivesse cosmicamente ligado ao destino final do dia. Na caminhada até ao Estádio José Alvalade havia duas manchas reconhecíveis: uma vermelha e verde e outra monocromaticamente laranja.

E havia algo no ar, como se o respirar coletivo da multidão o enchesse de alguma substância. Entrei no estádio e as bancadas e a relva tresandavam à dita substância. A que me levara a acordar excitado. A que centrara as atenções do meu cérebro. A que me levara a achar que as minhas ações estariam diretamente ligadas com o que 11 homens fariam horas depois. A que conduzira aquela multidão às imediações de um estádio horas antes de um jogo.

Foi assim que, aos 9 anos, o dicionário do futebol me ensinou o que significado de “tensão antes de um jogo grande”.

A contenda decorria há 26 minutos quando Portugal dispôs de um canto do lado esquerdo do seu ataque. Deco, com o seu mágico, subtil e leve pé direito colocou a bola na cabeça de um jovem de 19 anos. O rapaz, com fios de esparguete no cabelo e pensos a taparem-lhe os brincos nas orelhas, elevou-se aos céus de Lisboa da mesma maneira que, anos antes, um avião levantara voo da Madeira para dar asas a todos os seus sonhos. E, do alto da sua impulsão, o jogador mais novo em campo rematou de cabeça, deixando Davids – “oh mãe explica lá outra vez por que é que ele joga de óculos?” – agarrado ao poste da baliza, abandonando o papel de adversário para se converter em mera testemunha.

Alvalade exultou. 1-0 e a final mais perto. O jovem festejou tirando a camisola, mostrando ao mundo um corpo já com as marcas do trabalho físico de um obstinado. E o país tinha ali, de tronco nu e cara de menino, o seu novo herói. A partir daquele momento, “Cristiano” passou a ser antecedente lógico de “Ronaldo”. E “Ronaldo” tornou-se prelúdio racional de “golo”.

Foi assim que, aos 9 anos, o dicionário do futebol me ensinou o significado de “um momento icónico”.

Pouco depois do 1-0, Maniche fugiu pela direita e assistiu Pauleta. O açoriano ganhou a frente aos defesas holandeses, rematou... mas van der Sar defendeu. Ainda em branco no Europeu – e após ver os outros dois pontas-de-lança da convocatória, Nuno Gomes e Postiga, marcarem um tento cada nas duas partidas anteriores -, o dianteiro passou os minutos seguintes cabisbaixo. Alheado do jogo e do mundo. O meu olhar acompanhava-o. Portugal estava a ganhar, a jogar bem, mas Pauleta não parava de se questionar. E eu questionava-me com ele. Esgar de dor, olhar de desilusão, expressão de quem deseja ardentemente algo mas não está a conseguir obtê-lo.

Foi assim que, aos 9 anos, o dicionário do futebol me ensinou o significado de “a angústia do ponta-de-lança que anda divorciado do golo”.

Ainda antes do final da primeira parte, uma bola desceu dos céus de Alvalade para ser domada pelo peito de Luís Figo. Quando eu “nasci” para o futebol já Figo era o consagrado Bola de Ouro, a referência futebolística do país. Na minha cabeça, triunfar na vida era algo parecido a repetir as façanhas do homem de rosto sério que jogava na galáxia distante que se chamava Real Madrid. E, ali à minha frente, Figo contornou van Bronckhorst com aquela passada dura, pesada mas rápida, que emanava um contagiante desejo de vencer. E, após sair do drible, atirou de pé esquerdo. Clack! A bola, caprichosa, bateu no poste direito da baliza holandesa, fazendo o som vigoroso que só se produz quando as balizas, por respeito a quem rematou, querem mostrar que, apesar de não ter sido golo, aquele que tentou colocar a bola nas redes é alguém especial.

Foi assim que, aos 9 anos, o dicionário do futebol me ensinou o significado de “ver uma lenda em campo”.

Segunda parte. Portugal passou a atacar para a baliza mais longe do meu lugar, a do topo Norte de Alvalade. Ao minuto 58, Cristiano Ronaldo, com a pressa própria dos que vivem guiados pela ambição, marcou rapidamente um canto, tocando curto para Maniche. O que se seguiu foi um míssil terra-ar de consequências devastadoras. Van der Sar voou como eu achava que só Benji Price poderia fazer, mas aquele era um remate digno de Mark Landers.

Da outra ponta de Alvalade, a minha estupefação superava a emoção. Eu, que quando pisava um campo de futebol “à séria” tinha dificuldades em fazer um remate à entrada da área chegar com força decente à baliza, achava, genuinamente, que o que tinha acabado de ver pertencia ao campo do sobrenatural ou do impossível. Soube, depois, que quem viu o jogo pela televisão não assistiu ao golo em direto, pois a velocidade de Ronaldo a bater o canto e a espontaneidade do remate de Maniche enganaram não só os holandeses, mas também o realizador. Só quem esteve em Alvalade foi testemunha daquele fenómeno raro enquanto ele sucedia.

Foi assim que, aos 9 anos, o dicionário do futebol me ensinou o significado de “ao vivo é outra coisa”.

Jorge Andrade, com um corte infeliz, ainda deu esperança aos holandeses, mas a vitória foi portuguesa. Quando o jogo acabou, eu agarrei-me à pessoa que estava ao meu lado direito. Ao homem que se havia esforçado tanto, durante tantos meses, para conseguir bilhetes para o Euro’2004, ciente da importância que isso teria para o seu filho. À pessoa responsável pela minha presença num evento único na história do meu país. Se os meses anteriores foram de namoro pelo futebol, foi naquele eterno e sentido abraço de vitória com o meu pai que selei o meu casamento por este jogo.

Dias depois da vitória contra a Holanda vieram as lágrimas gregas, vertidas no colo do meu pai na sala da minha casa. 12 anos depois, as mesmas lágrimas voltaram a ser vertidas na mesma sala no colo do meu pai. Mas, aí, já o dicionário do futebol me tinha ensinado que há lágrimas que têm sabores muito diferentes.