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O meu jogo

Mundial-82: Brasil-Itália. O jogo que Rossi ganhou sozinho, a primeira vez que chorei em frente à TV (por Rui Vitória)

Rui Vitória tinha 12 anos quando sentiu pela primeira vez como a beleza e crueldade podem andar tão próximos num jogo de futebol. Mas também como o reconhecimento pode vir de várias formas. O Brasil perdeu 3-2. A rubrica "O meu jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, como adepto ou interveniente

Rui Vitória (depoimento recolhido por Alexandra Simões de Abreu)

Mark Leech/Offside

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“Com tantos anos de futebol, quer como jogador quer como treinador, muitos poderiam ser os jogos que cabiam neste texto. Histórias bonitas, atuais, sentimentos únicos, de tudo um pouco, que felizmente já vivi.

Mas quero ir bem lá atrás, onde tudo começou e onde possivelmente o futebol mostrou pela primeira vez o porquê de ser para mim algo tão diferente e estimulante.

1982, Espanha, Campeonato do mundo, Brasil - Itália, quartos de final.

Tinha doze anos e este foi aquele jogo em que pela primeira vez senti o que é o futebol. Pela primeira vez senti o prazer do jogo e ao mesmo tempo a desilusão e impotência de querer tanto uma coisa e já não ter mais. Pela primeira vez senti como a beleza e crueldade podem andar tão próximos num jogo de futebol. Foi a primeira vez que tenho memória de chorar em frente à televisão.

O Brasil com um lote de jogadores, os quais nunca mais esqueci os seus nomes, tinha uma qualidade e um prazer no “ jogar” que dava ainda mais prazer a quem via. A Itália, com um ou outro que jogador que me lembro, e com um que nunca mais esqueci: Paulo Rossi.

Sozinho ganhou o jogo por 3-2.

Sozinho, sem quase ninguém dar por ele em campo, fez três golos. O Brasil esteve a perder por dois a um , empata a 2 já na segunda parte e quando todos pensávamos que iria ganhar a partida, eis que aquele jogador franzino, rápido, gela meio mundo.

O Brasil acabaria por perder 3-2 , ser eliminado e a deixar o mundo inteiro, tal como eu, a chorar por não ter mais oportunidade de os ver jogar. Foi neste momento que senti pela primeira vez a importância do jogador individualmente, que senti os pólos opostos dos sentimentos. Mas foi talvez também neste momento que comecei a perceber que o reconhecimento pode vir de várias formas, dos títulos que se conquista e dos sentimentos que se provoca nas pessoas .”