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O meu jogo

Joana Marchão

Joana Marchão

Jogadora de futebol do Sporting CP

EUA 4-0 Portugal. Viver o sonho americano, a sentir o meu coração a bater violentamente e a suar por todo o lado (por Joana Marchão)

A 29 de agosto de 2019, a seleção feminina de Portugal foi aos EUA defrontar as campeãs mundiais, num estádio com 50 mil pessoas. Joana Marchão foi titular e ficou com uma memória emocionante para a vida. A rubrica "O meu jogo" convida o cronista, jornalista, ex-jogador, seja o que for, a relembrar-se dos eventos desportivos que mais o marcaram, como adepto ou interveniente

Joana Marchão

Brad Smith/ISI Photos

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Poderia escolher inúmeros jogos, sejam eles vividos em frente a um ecrã - o Portugal 1-0 França na final do Euro 2016 - ou vividos na bancada - o Sporting 1-0 Man. City em 2012 -, mas vou escolher um que vivi dentro das quatro linhas a representar a nossa Seleção Nacional.

A 8 de junho de 2017 entrava em campo pela primeira vez das sete que já levo com a camisola da Seleção Nacional A, depois das 26 vezes pela Seleção Nacional sub-19. Números modestos que me enchem de orgulho, mesmo assim. Dois anos e uns meses depois, no dia 29 de agosto de 2019, voltava a entrar em campo para representar o nosso país. O que torna esse jogo tão diferente dos outros para o escolher para este relato?

Gosto de palavras, mas temo que tais palavras sejam uma banalidade injusta para tudo o que me encheu o coração nesse 29 de agosto. Uns dias antes, quando saiu a convocatória para dois jogos de preparação nos Estados Unidos contra a seleção acabada de se sagrar campeã mundial, lembro-me vivamente de sentir tamanha felicidade que o meu peito ameaçava explodir. Ainda em tempo de pré-época nos clubes, no Sporting tínhamos oito jogadoras convocadas e no balneário costumávamos brincar umas com as outras, dizíamos: “Eu não disputo nenhuma bola!”. Ou: “Se me virem com a bola, deixem passar!”. Claro que mal começava o treino ninguém pensava nos Estados Unidos, mas no fundo havia sempre aquele receio de ter o sonho e deixá-lo fugir.

Desde que me lembro de ver jogos da seleção feminina dos Estados Unidos, na Eurosport, que tinha o sonho de um dia poder ver um desses jogos ao vivo e mal sabia eu que a miúda de 12 anos com sonhos iria, 10 anos, depois pisar solo americano para fazer parte da história do futebol feminino em Portugal, e não só. Havia a possibilidade de se bater o recorde de maior assistência num jogo particular de futebol feminino nos Estados Unidos e nós, um país à beira-mar com 11 milhões de pessoas, íamos fazer parte disso.

50 mil pessoas encheram o Lincoln Financial Field, em Filadélfia, para os EUA-Portugal, a 29 de agosto de 2019

50 mil pessoas encheram o Lincoln Financial Field, em Filadélfia, para os EUA-Portugal, a 29 de agosto de 2019

Howard Smith/ISI Photos

Antes da história vem o trabalho e ainda tínhamos o treino oficial no dia antes do jogo, a realizar no Lincoln Financial Field, casa dos campeões do Super Bowl de 2018, os Philadelphia Eagles, com capacidade para 69 mil espectadores. Foi o primeiro impacto do que é o desporto na América. Nunca antes tinha pisado um relvado e entrado num estádio com tamanha capacidade como aquele. Tínhamos 60 minutos de treino, mas os primeiros dois foram para olharmos à nossa volta e sentir o quão monstruoso era o estádio, ainda que sem adeptos. Depois, foi treinar com o empenho e a responsabilidade de sempre. Porque, apesar de ser um jogo particular, e para todos os norte-americanos ser um dia de festa onde poderiam ver as suas campeãs e a Taça, para nós seria muito mais que isso e queríamos mostrar o quão valioso e rico é o nosso futebol e, acima de tudo, queríamos preparar-nos para o apuramento.

Então, chegava o dia D, o dia em que íamos elevar o nosso país bem lá no alto novamente. O “prof” deu o mote para o jogo e eu estava tranquila, até que o meu nome aparece no 11 inicial. A partir daí, levantou-se uma barreira invisível à minha volta, o som não passava e eu só conseguia sentir o meu coração a bater violentamente, suava por todo o lado. Todo este processo de choque durou dois segundos, mas pareceram-me horas e horas. À medida que nos íamos aproximando do nosso destino, eram cada vez mais as pessoas na rua com camisolas da sua seleção, os estacionamentos iam-se enchendo e quando viam o nosso autocarro, levantavam-se das suas cadeiras de piquenique e acenavam com entusiasmo, como se fosse por nós que ali estavam. Ao chegar ao estádio, saímos do autocarro com inúmeras câmaras apontadas. Foi intimidante e ao mesmo tempo fez-me sentir super orgulhosa de todo o percurso que me levou àquele momento.

Em todo o balneário se fazia sentir tensão e nervosismo naturais, mas não se sobrepunham à confiança e união reinante. Não faltavam os gestos de incentivo entre o grupo: uma palmada nas costas, um “aconteça o que acontecer, estamos juntas” ou um abanão mais forte a quem precisasse. Cada uma se ia motivando e preparando como sabia. O meu processo é muito simples: meto os meus fones e ouço Mozart enquanto leio quatro ou cinco páginas de um livro. São 10 minutos de paz e serenidade que me levam a um mundo que não é meu, que me afasta de pensamentos e emoções negativas nos instantes que antecedem a entrada para o aquecimento, e por conseguinte, o primeiro contacto com os adeptos no estádio. Centenas de pessoas aplaudiram uma equipa de completas estranhas e no entanto gritavam como se fossemos parte deles. O meu nervosismo ia diminuindo com o tempo. Quando entrei dentro de campo, tudo o resto ficou para trás. O foco não estava na bancada ou no que estava a sentir, mas sim na forma como metia o pé à bola ou como pressionava. Depois do aquecimento, o balneário não tinha qualquer energia negativa, estávamos no nosso meio e é por aquilo que trabalhamos todos os dias. Queremos estádios cheios em Portugal. Queremos aquele ambiente ensurdecedor. Juntámo-nos e agarrámo-nos, demos o grito com toda a alma que tínhamos. Aquela era a hora.

A norte-americana Tobin Heath e as portuguesas Dolores Silva e Joana Marchão

A norte-americana Tobin Heath e as portuguesas Dolores Silva e Joana Marchão

Mitchell Leff

Já no túnel, o barulho era cada vez mais enquanto íamos entrando no relvado… o fogo de artifício explodia por cima de nós no topo do estádio, pessoas gritavam e chamavam pelos seus ídolos e por um segundo, voltei a ter 12 anos e queria gritar com elas. A poucos metros de mim tinha a Carli Lloyd com a taça de campeãs do Mundo na mão. Mas acima de tudo, estava ali para fazer o meu trabalho, mantendo a concentração e o foco.

Durante o hino nacional não esperava emocionar-me tanto mas, no meio das 50 mil pessoas que batiam o tão esperado recorde, havia cachecóis e bandeiras portuguesas e, mesmo que tímido, estava o nosso hino a ser cantado na bancada. Naquele momento, senti tanto orgulho em representar um país tão grande em espírito. Tudo isto ficou gravado e guardado mas esquecido temporariamente durante os 90 minutos da partida. Agarrei-me ao trabalho incansável que fazemos todos os dias e quero acreditar que, apesar do resultado e dos ajustes que havíamos de fazer internamente, deixámos uma boa imagem e sinais muito positivos do que está a ser a evolução do nosso futebol.

Que me perdoem todas as outras memórias maravilhosas que tenho, mas aquele dia fez-me realmente perceber que é assim que quero jogar futebol. É aquele ambiente que quero. A evolução vai-se dando em Portugal. Estamos no bom caminho.