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Zoom, frame, freeze: a jornada do VAR e dos erros - e das análises complicadas (por Duarte Gomes)

A jornada que agora terminou - a última antes de uma demorada paragens dos campeonatos - foi, mais uma vez, fértil em lances de análise complicada, que importa aqui analisar e descodificar

Duarte Gomes

HELDER SANTOS

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Não é segredo para ninguém, mas nunca é demais repeti-lo: a realidade dos dias de hoje leva ao escrutínio pormenorizado e implacável de cada jogada, cada entrada, cada contacto.

Tudo sem exceção é esmiuçado até ao mais ínfimo detalhe. Não há culpas de ninguém. As coisas são o que são.

Importante é que os árbitros convivam cada vez melhor com esta realidade, tendo a noção que tão apertado sufrágio pode contribuir ativamente para o seu desenvolvimento, para a sua melhoria qualitativa.

Por outro, é também importante que, quem tem por missão analisar, o faça com dever profissional e sentido ético.

O primeiro obriga-o a informar o público de acordo com as (muitas) ferramentas que dispõe; o segundo exige-lhe que o faça de forma construtiva e didática, procurando nunca esquecer que a dinâmica do jogo jogado é totalmente diferente daquela que se vê e deduz em cada frame, zoom ou freeze.

A forma como se passa a informação para o exterior é determinante no modo como o exterior verá e julgará as decisões dos árbitros.

Sempre ciente dessa responsabilidade, sugiro que passemos então à análise de algumas das incidências maiores das partidas do passado fim-de-semana.

O FCP

O FC Porto venceu o Moreirense num jogo relativamente tranquilo, mas com dois momentos que merecem destaque: o pontapé de penálti que beneficiou a equipa azul e branca (e que depois foi revogado pelo árbitro, após indicação do VAR); e uma entrada dura e fora de tempo de Sérgio Oliveira sobre João Aurélio, numa altura em que o médio do Porto já tinha visto o amarelo.

No primeiro momento, a dúvida (real) se o movimento posterior da perna de Loum (que primeiro desviou a bola com o joelho) foi imprudente ou se o contacto com Ababoukar foi inevitável, casual.

Confesso que vi e revi o lance até à exaustão e tenho para mim que a perna do defesa forasteiro estava demasiado esticada, demasiado rígida para o seu movimento defensivo. Fiquei com a sensação que pode ter havido ali ligeira imprudência, que eventualmente teve como consequência a queda do avançado camaronês.

Certo, certo é que o contacto existiu em dois momentos: primeiro no calcanhar de Aboubakar e, quase em simultâneo, na sua perna de trás.

Ainda assim, admito que a jogada deixa um lençol de interrogações, razão que me leva à consideração seguinte: se consideramos o lance dúbio, se dividiu opiniões, se não foi cristalino, é lícito concluir que não houve um "erro claro, óbvio e evidente" do árbitro.

Quer isso dizer que este não era um lance passível de vídeo-intervenção.

O protocolo não deixa margem para dúvidas: o VAR só deve recomendar alteração de uma decisão (ou sugerir o visionamento de determinado lance) se tiver a opinião segura que o juiz de campo errou. Errou claramente.

Não foi ali o caso. O que é que eu deduzo que aconteceu...

Hélder Malheiro, que numa primeira análise terá partido do princípio que Loum nem tocara na bola, reviu a jogada após sugestão do colega e, ao perceber que o defesa, de facto, desviou primeiro o esférico, "interiorizou" de imediato que errara na primeira observação.

Foi isso que o terá levado a mudar a decisão inicial.

O mais certo é que o juiz lisboeta nem tenha lido, depois, o resto do lance, tal a convicção na questão do "quem tocou na bola". É uma questão de foco. Se só olhamos para os pés, não vemos as mãos; se olhamos para uma verdade, não saberemos se há outras.

Por muito que custe, é importante que se perceba que estas são vicissitudes naturais de uma tecnologia recente, complexa e que ainda está a ser interiorizado por nós... e pelos próprios árbitros, até aqui demasiado formatados na única realidade que sempre conheceram: a do terreno de jogo.

Quanto à entrada de Sérgio Oliveira, que vira na etapa inicial amarelo em falta muito negligente, ficámos com a ideia que seria melhor decidida se fosse penalizada com segunda advertência.

Todo o desenho do lance (e o próprio pisão em si) o sugere.

Em defesa de Hélder Malheiro, o facto de ter sido coerente no critério bem largo que utilizou em toda a partida: por exemplo, minutos antes, Alex Telles fora pisado por um adversário que também devia ter sido advertido e não foi.

Em tudo o resto (golos, faltas e demais cartões, gestão de jogo, etc) o árbitro de Lisboa esteve seguro e a sua atuação não beliscou a justiça do resultado final.

O Benfica

Na Madeira, o experiente Fábio Veríssimo teve jogo de resultado expressivo mas com lances de análise muito complicada, sobretudo no interior das áreas.

Exemplos? Logo nos minutos iniciais, Seferovic foi tocado no pé direito pelo calcanhar, também direito, de Júlio Cesar... depois, Cervi chegou primeiro à bola e foi também tocado, no pé, por Campos.

Nos dois momentos, uma certeza - os contactos existiram - e uma dúvida: teriam sido suficientes para os considerarmos como ilegais?

Se um qualquer lance permite várias leituras, deve prevalecer a opinião do árbitro (e, lá está, o princípio da não intervenção do VAR).

Na nossa opinião, o segundo momento pareceu "mais falta" e podia ter valido castigo máximo: apesar do enorme aparato da queda, a verdade é que o argentino do Benfica vinha em velocidade, antecipou-se, foi tocado e caiu. Causa e efeito estavam lá, tudo o resto é e será sempre matéria de estudo para a cadeira de "Interpretação".

Apesar de terem havido outras jogadas nas áreas - por exemplo, na segunda parte, Cervi foi atingido no pé por jogo perigoso ativo de Júlio César, não sendo claro se a falta ocorreu dentro ou fora da área.. e, perto do fim, Camacho chocou de forma inevitável com Odisseias, quando ambos tentavam jogar apenas a bola - o momento mais evidente, o grande erro da equipa de arbitragem, foi a não expulsão de Cervi após falta grosseira sobre Camacho.

O extremo encarnado entrou com força excessiva e pôs em perigo a integridade física do jogador madeirense. O videoárbitro reviu o lance mas equivocou-se na sua apreciação. A decisão ali tinha que ser apenas uma: vermelho direto.

O Sporting

Em Alvalade, um jogo menos atarefado para Rui Oliveira, em que o destaque vai, primeiro, para uma entrada duríssima de Luis Machado sobre Raphinha - daquelas que a lei diz que são para amarelo mas que devia prever que fossem para expulsão - e, depois, para um "encosto" de Coates no jogador fogaceiro: o central argentino do Sporting, no interior da sua área, foi mais alto, mais forte e ganhou no corpo a corpo, acabando por tocar, com o braço esquerdo, em Machado.

Na minha opinião, o contacto foi aceitável para a ação de ambos e não teve força suficiente para ser punir como infração.

Referência final para lances ocorridos em outros três jogos da Liga NOS:

- Em Guimarães, Nuno Almeida foi inicialmente iludido (tal como nós) por entrada aparentemente negligente de Wakaso e exibiu-lhe o segundo amarelo... mas Jorge Sousa, o VAR nessa partida, estava atento e ajudou a repor justiça: foi o vimaranense quem sofreu falta grosseira de um atleta do Tondela.

A situação foi reposta e a verdade desportiva defendida, de forma clara e inequívoca. Este é um dos tais momentos que devia ser amplamente divulgado, porque mostra a excelência da tecnologia, quando bem potenciada... e utilizada.

Na Vila das Aves, o último lance da primeira parte foi atípico: um avançado do Marítimo isolou-se, rematou à baliza (a bola acabou por entrar e o golo ser inicialmente validado) e foi, entretanto, autenticamente "varrido" pelo guarda-redes da equipa visitada.

Após recomendação do VAR, o bracarense João Pinheiro acabou por anular o lance por fora de jogo.

Essa análise, por si só, foi muito discutível... mas o verdadeiro erro da equipa de arbitragem foi não ter visto a gravidade/violência da entrada de Bernardeau.

O keeper do D. Aves saíu da sua baliza e saltou de longe, a dois pés, com intensidade e velocidade, atingindo, com clara intenção, a barriga/peito de Joel Tagueu.

O perigo para a integridade física do jogador camaronês foi mais do que evidente em qualquer imagem televisiva. O lance era passível de cartão vermelho direto, independentemente da decisão técnica posterior.

Por último, lance entre Fábio Espinho e Patrick, à passagem da meia hora de jogo, do Santa Clara/Boavista.

O jogador axadrezado carregou o seu adversário pelas costas e acabou depois por pisá-lo (sola da bota esquerda na cara do defesa açoriano), em lance que nada parece ter tido de malicioso ou violento mas que, pelo seu desenho, perigo real e consequência, devia ter sido considerado como negligente.

O jovem juiz da partida apenas assinalou o respetivo pontapé-livre direto, mas a ação do boavisteiro devia ter sido sancionada com advertência.