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Joana Gonçalves

Joana Gonçalves

Gestora projeto COP

Capacitar o papel dos pais na construção de uma carreira desportiva

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escrevem a psicóloga Ana Bispo Ramires e a gestora de projeto Joana Gonçalves

Ana Bispo Ramires e Joana Gonçalves

Michael Willson/AFL Media

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Existem várias perspetivas a partir das quais podemos analisar a importância da prática desportiva na vida das crianças e jovens, em particular no que concerne à construção e valorização da sua identidade no desenvolvimento de um percurso sustentável que promova um estilo de vida saudável e a consolidação de competências essenciais na sua autonomia, mobilização em atividades sociais e envolvimento na vida comunitária.

As crianças e os jovens envolvem-se em práticas desportivas por diversos motivos, maioritariamente pela sensação de divertimento que estas lhes proporcionam, pela aquisição de novas competências, pelo sentido de pertença e pelas interações sociais positivas que daí resultam. Estes são, também, alguns dos fatores que contribuem para o seu sucesso pessoal e desportivo, aos quais se juntam a conquista de resultados satisfatórios, o envolvimento dos treinadores e o inegável e insubstituível papel dos pais e encarregados de educação.

Para que este compromisso multifacetado seja duradouro, consistente e bem-sucedido, importa retirar o melhor partido daqueles eixos influenciadores e compreender que a sua intervenção resultará em impactos, positivos ou negativos, na estruturação da sua identidade não só como atletas mas, antes de mais, como pessoas.

Diversos estudos que procuraram analisar as fontes de prazer associadas à prática desportiva (ex: McCarthy, Jones and Clark-Carter, 2008) apontam o envolvimento parental positivo (associado à elevação da auto-estima, à motivação e competências sociais, e a respetiva transição para outros contextos) como um dos fatores mais reportados pelos jovens atletas.

Com efeito, o grau e as particularidades do envolvimento parental tendem a ser tão determinantes para o (in)sucesso destas experiências desportivas como a criação e o desenvolvimento de oportunidades de crescimento necessárias à obtenção de um percurso desportivo desejável. Não só para a construção da identidade do atleta mas, acima de tudo, da pessoa, podendo o contexto desportivo ser "usado" como um fortíssimo aliado no processo educativo que os pais e encarregados de educação concebem para os seus educandos.

Particularmente no domínio de alta performance, tema comumente abordado na Psicologia do Desporto em contexto internacional, emerge a necessidade de lhe atribuir uma atenção redobrada, desde as etapas iniciais daquele percurso, tendo como principal desafio encontrar um nível ótimo de envolvimento parental, para além dos apoios financeiros, técnicos e logísticos, onde se ancora o principal suporte emocional, perante um percurso de progressiva otimização do rendimento em treino e competição das crianças e dos jovens atletas.

Por esta razão, e assumindo-se os pais e encarregados de educação como fortes impulsionadores à participação dos jovens no desporto, afigura-se crucial equacionar a sua integração no fenómeno desportivo, processo no qual é fundamental que os treinadores interajam de forma colaborativa (promovendo o “triângulo desportivo”: relação treinador – família - atleta), abordando os fatores de risco associados a um elevado investimento emocional na prossecução do “sonho” desportivo.

Pese embora a existência de um conjunto de iniciativas devidamente sustentadas cientificamente, no propósito de capacitar os pais e encarregados de educação com um leque de competências facilitadoras do percurso desportivo dos seus educandos, tem-se observado, em território nacional, no que respeita ao segmento do desporto de competição, algumas abordagens incipientes por parte dos mais importantes “players” sobre o tema.

Sendo notoriamente reconhecido o fator catalisador que os pais e encarregados de educação podem assumir na performance dos seus educandos (seja positivo, potenciando o desempenho desportivo ou, mesmo que inadvertidamente, de forma negativa, comprometendo o mesmo), importa então que diferentes entidades cooperem não só no esclarecimento do papel dos encarregados de educação, como também na criação dos canais próprios de articulação destes com os clubes, federações e, inclusive, o próprio Comité Olímpico de Portugal (COP), no sentido de se poder capitalizar o seu contributo no que respeita à elevação dos indicadores de felicidade, bem-estar e performance das crianças e jovens atletas.

Neste âmbito, e a título de mero exemplo, figuram no recém-criado programa do COP “The Olympic Performance” (desenvolvido com a missão de prover informação e formação, aos diferentes agentes desportivos que se encontram no terreno, e no qual se integram os pais e encarregados de educação, em áreas tão distintas como o treino desportivo, a nutrição, a medicina desportiva e a psicologia do desporto e da performance), um conjunto de ações especificamente dirigidas aos mesmos, com o claro intuito de potenciar o seu inestimável contributo na carreira desportiva dos seus educandos.

Até porque, em boa verdade, assumir o desafio de valorizar a sua ação posiciona, necessariamente, os pais e encarregados de educação como um fator crítico de sucesso – razão pela qual, a capacitação das suas competências deverá ser claramente integrada e incluída no processo desportivo do jovem atleta.