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João Paulo Vilas-Boas

João Paulo Vilas-Boas

Vogal Comissão Executiva COP

Afinal, que género de desporto queremos? (não, o desporto não é coisa de “macho”)

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve João Paulo Vilas-Boas, vogal da Comissão Executiva do COP

João Paulo Vilas-Boas

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O desporto era coisa de “macho”. As mulheres não tinham sequer entrada no stadium, já que se tratava de medir “habilidades de homem” – elevação, força, velocidade – mais do que delicadezas de mulher (mesmo se esta já fora tanto a caçadora da família, como a guerreira da nação). Hoje, felizmente, tudo é diferente: as mulheres não só frequentam entusiasticamente o estádio, como são protagonistas de pleno direito da prática desportiva; ou, pelo menos deveriam sê-lo, à luz da lei.

Não vamos, portanto, fazer a apologia do desporto no feminino. Vamos tão só tentar alertar para um dos maiores perigos que, acreditamos, o ameaça: a livre opção de género; a morte desportiva da mulher! O objetivo é, apenas, retomar a apologia do desporto e a defesa da sua perenidade, baseados no superior princípio da igualdade de direitos entre mulheres e homens.

A tendência evidenciada pelo desporto moderno sugere uma evolução no sentido certo: no do reforço da igualdade de oportunidades, de direitos e de deveres. Inclusivamente, acreditamos que se tenderá a reconhecer ao desporto no feminino (e ele tenderá a conquistar) a espetacularidade e, consequentemente, o mediatismo (e tudo o que ele transporta), característico do desporto no masculino. Isto acontecerá em paralelo com a valorização da mulher nas modalidades mistas: umas que obrigam ao desempenho partilhado de um homem e de uma mulher (ou de vários homens e mulheres) em cada “equipa” e outras em que mulheres e homens competem entre si de forma direta e sem “handicaps” distintos (sobretudo aquelas em que os desportistas se vêm “transportados”, como são os casos do hipismo e dos desportos motorizados). Apesar deste desporto “unissexo” ser interessante e apelativo, não acreditamos que possa tornar-se predominante, nem nos motiva a defesa desse paradigma!

Defendemos é um desporto limpo e honesto, escorado numa ética de valorização e respeito pelo indivíduo; que não traia nem os praticantes nem os demais agentes desportivos, e muito menos que defrauda as legítimas expectativas dos que acreditam nele como móbil de superiores valores educativos. É por isso que defendemos um desporto por categorias de prática, mas onde as categorias sejam justas e respeitadas; seja no desporto Paralímpico, no desporto Olímpico ou noutras formas de manifestação desportiva. Que crianças e jovens se confrontem com os da sua igualha, que gerontes o façam com gerontes, que homens o façam com homens e mulheres com mulheres, quando assim for determinado pelas “regras”. Não podemos é admitir que humanos se vejam obrigados a competir com “pós-humanos”, quando estejam provadas as vantagens trazidas pelo “tecno-doping”, seja através de que itinerário da bioengenharia o fenómeno possa ocorrer. Como não podemos admitir outras misturas!

Neste contexto, caro leitor, liberalizar a opção de género e transportá-la para o desporto parece-nos muito arriscado. Transporta os riscos de esconder nela a solução para o menor sucesso desportivo de uns quantos (homens); riscos de, através dela, se conseguir de forma mais fácil o sucesso, a fama e o lucro; riscos de perverter a essência do desporto: o talento, a disciplina e o trabalho. No fundo, riscos de matar o desporto; pelo menos de matar o desporto no feminino, trocando-o por uma coisa de outro género…