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José Gomes Pereira

José Gomes Pereira

Diretor Medicina Desportiva COP

Top performance: desporto limpo ou… nem por isso!

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve José Gomes Pereira, diretor de Medicina Desportiva do COP

José Gomes Pereira

Tim de Waele

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Ao desportista de alto rendimento exige-se-lhe a realização de proezas atléticas. Não raras vezes com incredulidade, verificamos que os recordes do mundo são sistematicamente superados. Até quando será isto possível? Há limites para o desempenho desportivo humano?

A evolução tecnológica dos materiais desportivos, a alteração dos regulamentos em determinadas modalidades e especialidades, a formação dos treinadores, bem como a melhor fundamentação científica dos meios e métodos de treino, contribuem sem dúvida para a não estagnação dos resultados desportivos.

Mas, qual o preço a pagar?

De facto, tudo tem o seu preço e a superação desportiva humana não foge a esta regra. Apesar da intervenção especializada em Medicina Desportiva objetivar a preservação da saúde do atleta, a compatibilização entre esse objetivo e a constante superação desportiva consubstancia um desafio técnico e científico de grande complexidade.

Não é exagerado afirmar que o “grande atleta” é um indivíduo diferente do “Homem vulgar”. O seu organismo é sistematicamente posto à prova. É submetido a situações extremas de agressão psicofisiológica, nem sempre compatíveis com aquilo que se pode considerar uma atividade saudável.

Como superar esta inevitabilidade ditada pelas crescentes exigências impostas ao atleta?

Há dois caminhos, o “limpo” e o da “batota”. Neste contexto, é com licitude que podemos colocar a seguinte questão:

Não há competição de alto rendimento sem dopagem?

A dopagem é uma realidade. Uma realidade bem antiga, mas que se apresenta bem atual, sempre com variantes novas e contornos graves. Pode afirmar-se que, nos dias de hoje, não existem desempenhos desportivos de excelência “completamente insuspeitos”. Muitos acreditam que os grandes feitos atléticos não se alcançam unicamente com preparação séria. Dependem também da “preparação farmacológica”.

A revelação de testemunhos públicos proferidos por ex-atletas, são profundamente inquietantes. Tais factos, associados à sofisticação científica conferida ao tema pelos grandes prevaricadores, deixam-nos fortes dúvidas quanto à real dimensão do problema. Muito provavelmente, o que se conhece é apenas a “ponta do iceberg”.

A utilização de substâncias dopantes é, com maior ou menor sofisticação, generalizável a praticamente todas as modalidades desportivas. A vitória a qualquer preço está presente em várias vertentes da alta competição desportiva e não se confina à dopagem. Tomemos como exemplo a integridade das competições e a manipulação de resultados. É escusado negá-lo. O que importa é reconhecer a existência do problema e criar estratégias para a sua minimização.

Em jeito de conclusão, acreditamos poder referir que não se conhecem os limites do desempenho desportivo humano. Os recordes mundiais não deixarão de ser superados. No entanto, importa também salientar que o ”preço a pagar” é, em alguns casos, extremamente elevado. Casos há em que foram pagos com a vida. A sofisticação e a procura de métodos cada vez mais eficazes e sem olhar a meios tem conferido à dopagem uma dimensão inimaginável. É uma dura realidade, mas que tem de ser claramente reconhecida. Só a ciência aliada à ética poderá conferir ao desporto de competição e ao espetáculo dele decorrente o estatuto de idoneidade e de verdade que constituem a sua essência.