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“Lopetego” ou a queda pelas escadas acima

O escritor Bruno Vieira Amaral reflete sobre a estranha carreira do treinador Julen Lopetegui: "Poucos serão os treinadores com um currículo tão impressionante para tão poucos resultados"

Bruno Vieira Amaral

GABRIEL BOUYS/GETTY

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A estranha carreira do treinador Julen Lopetegui pode ser vista, dependendo da perspetiva, como um caso de ascensão brutal pelas escadas abaixo ou de queda abrupta pelas escadas acima. Poucos serão os treinadores com um currículo tão impressionante para tão poucos resultados. Lopetegui pode passear-se vaidosamente pelas ruas de qualquer grande capital europeia e dizer que já treinou o Futebol Clube do Porto, a seleção espanhola e o Real Madrid ou então pode refugiar-se numa gruta nas Astúrias e murmurar para si mesmo que houve um tempo em que treinou Futebol Clube do Porto, a seleção espanhola e o Real Madrid. Depois da débâcle em Madrid, amortecida, ainda assim, pela ausência de CR7, que, como quem retira o véu que cobre a miséria, expôs a debilidade de muitos dos artistas que o acompanhavam, será muito difícil que Lopetegui vá comandar nos próximos tempos uma equipa de topo.

Quando Julen Lopetegui chegou para treinar o Futebol Clube do Porto, numa daquelas apostas improváveis de Pinto da Costa que, quando resultam, servem de prova do seu visionarismo, e, quando fracassam, parecem ter nascido espontaneamente nos labirintos e gabinetes do Dragão, era um ilustre desconhecido. Porém, quem o visse na altura diria que a Portugal tinha chegado um treinador reputadíssimo e de currículo inquestionável. Bem, a confiança nas capacidades não é um pecado e, no futebol, a linha que separa a arrogância da competência flutua com os resultados obtidos a cada semana.

A decisão de treinar o Porto foi bastante sensata. Para um treinador sem experiência a nível de clubes, treinar um clube como o Porto, com excelentes condições, um bom plantel e habituado a frequentar os salões da aristocracia europeia, seria um privilégio, mesmo que esse treinador já tivesse os olhos postos noutros voos. Acontece que a postura de Lopetegui nunca foi a de alguém que está a ter uma oportunidade acima das suas demonstrações de competência, e muito menos de quem vai ocupar a sua cadeira de sonho, mas a de alguém que concede ao clube que o acolhe o privilégio de dirigir a sua equipa. Para Lopetegui, o Porto é que tinha contratado um treinador de sonho. Na altura, sendo o único treinador estrangeiro na liga portuguesa (havia também Fabiano Soares, no Estoril, mas percebe-se a ideia), devia olhar para os seus homólogos lusitanos e considerá-los uma espécie de curandeiros provincianos, de feiticeiros de aldeia, com quem seria obrigado a conviver durante uma ou duas épocas e aos quais deixaria os ensinamentos da civilização em forma de aspirinas, equipamento de diagnóstico de ponta e manuais clínicos de tiki-taka. Entretanto, enriqueceria o seu palmarés com vários títulos e, depois, poderia partir para um campeonato a sério, não sem antes tomar um prolongado banho que lhe tirasse o cheiro a classe média-baixa do futebol europeu.

Por isso, deverá ter ficado surpreendido ao verificar que a realidade não se curvava perante a sua simples presença, que os resultados não traduziam o seu pensamento avançado, que mesmo os adversários mais exóticos ou rupestres se mostravam tenazes e resistentes. Era como se Lopetegui tivesse vindo não para se sujar na lama semanal das ferozes lutas pelo pontinho, mas para desfilar a sua majestade, reclinado na liteira dos seus princípios futebolísticos superiores. Rodeado de uns quantos compatriotas medianamente competentes, que, na sua cabeça, seriam mais do que suficientes para governar e se governarem neste retângulo de futebol arcaico, não só encontrou uma realidade mais exigente do que aquela que esperava como deverá ter percebido que os adeptos do Porto, pese embora não terem o glamour de emblemas cosmopolitas alimentados a petrodólares, sabem perfeitamente distinguir um bom treinador de um curioso, um treinador com sorte de um a quem tudo corre mal, um treinador que dispõe de meios e não os sabe aproveitar de um que consegue fazer omeletas sem ovos. Tudo isso terá contribuído para aquela postura ressentida nas conferências de imprensa, uma indignação impotente perante os jornalistas que se atreviam a fazer-lhe perguntas e que culminou naquela reação intempestiva no Estádio da Luz em que, no final de um jogo que não soube ganhar, foi confrontar Jorge Jesus com questões por causa da grafia correta do seu sagrado nome. Sem títulos conquistados, Lopetegui conseguiu a raríssima proeza de, enquanto treinador do Porto, sair humilhado do novo Estádio da Luz. Não é para todos. Outro treinador teria desaparecido de circulação sem deixar rasto.

PIERRE-PHILIPPE MARCOU

Despedido, Lopetegui saiu com a altivez de quem a si mesmo se despede. E a contratação pela Real Federação Espanhola de Futebol caucionou de certa forma essa atitude, ao mesmo tempo que consolava os raros adeptos que tinham vislumbrado em Lopetegui uma mente genial e surpreendia todos os outros que tinham assistido às inúmeras variantes do seu estilo de futebol “mastiga mas não comas”. Verdade seja dita que a escolha da federação não era assim tão descabida. Afinal, Lopetegui era da casa, iria trabalhar com muitos jogadores que já conhecia e o insucesso no Porto podia significar apenas que era um daqueles treinadores mais vocacionados para o trabalho bissexto das seleções. Os bons resultados na seleção davam razão a quem o tinha escolhido. Mas, mais do que os bons resultados com a seleção, terá sido a possibilidade de instaurar uma filosofia de jogo mais definida e duradoura que terá levado Florentino Pérez a optar por Lopetegui quando a saída inesperada de Zidane o obrigou a ir ao mercado. Apesar das vitórias consecutivas na Champions, é bom lembrar que o Real Madrid de Zidane acabou o último campeonato a dezassete pontos do Barcelona e com um estilo tão incaracterístico como pode ser o de uma equipa ganhadora. Ao escolher Lopetegui, Florentino provou que uma sala cheia de troféus não compra, por si só, um estilo definido. Porém, os resultados desastrosos de Lopetegui demonstraram rapidamente que um clube como o Real não se pode dar ao luxo simultâneo de não ter um estilo e não ter resultados.

Na grande narrativa das coisas do futebol, Lopetegui já passou a ser a nota de rodapé que os seus feitos justificam e o foco agora está todo na história magnética dos merengues e no sub-enredo da comparação entre o que faz a equipa sem Ronaldo e o que Ronaldo faz sem a equipa. Mas o destino de Lopetegui também tem o seu interesse dramático, sobretudo para nós que, malogradamente, temos acompanhado a sua carreira mais de perto. A Superliga chinesa ou um clube do meio da tabela da Premier League, daqueles onde figuras outrora cobertas de glória exercem as suas funções com humildade franciscana, poderão ser destinos, porque o fracasso no Real Madrid, para mais um fracasso tão estrondoso – nada daquelas lentas agonias de empates milagrosos e vitórias suadas – não passa despercebido a ninguém. Talvez possa ir para a Confederação Brasileira ou para a seleção argentina, talvez o queiram como comentador num canal de televisão ou a dar palestras a aspirantes a treinador. Ou talvez ele queira tirar um ano sabático para escrever as suas memórias e explicar em pormenor a aventura dos quatro meses que o levaram de uma possível vitória no campeonato do mundo à saída do Real Madrid por uma porta tão pequena que ainda não se sabe como é que o seu ego, ainda que ferido, há de passar por lá.