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João Rodrigues

João Rodrigues

Presidente da Comissão de Atletas Olímpicos

Um mundo paralelo (uma história contada por um homem que já esteve nos Jogos Olímpicos sete vezes)

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve João Rodrigues, ex-velejador e presidente da Comissão de Atletas Olímpicos

João Rodrigues

João Rodrigues participou em sete edições dos Jogos Olímpicos

Clive Mason

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Foi já ao pôr do sol, ainda com a respiração alterada, enquanto me deslumbrava perante a tela que se desenhava à minha frente, flutuando sobre o imenso azul, que me dei conta que passava a maior parte do meu tempo consciente, num mundo paralelo. Nesse mundo, extraordinariamente exigente, cruamente justo, perfeitamente objetivo, a magia acontecia todos os dias. Ela exprimia-se na subtileza dos tons do mar, na força da natureza mas, acima de tudo, na manifestação da necessidade intrínseca de ir mais longe, em busca da perfeição.

Na vastidão do oceano, um pé a menos e já não chegamos lá, um instante depois é já uma oportunidade perdida. Cada onda é um desafio, cada momento o mais importante. E quantas vezes falhamos! Tantas são as vezes que sentimos a água a escorrer por entre os dedos, afogados na ânsia de a reter.

Naquele universo, a alegria segue de mãos dadas com a dor, quais companheiras improváveis. A dor física, no entanto, é passageira. Pode ser por um segundo, por um dia ou por uma vida, mas eventualmente também isso muda. Não há no entanto maior dor, do que aquela que o baixar dos braços carrega. E essa, essa dura para sempre, cravada que fica nas profundezas da alma.

Era um mundo muitas vezes cruel. Sem contemplações pelas fraquezas humanas ou pela inexorável passagem do tempo. Não havia nada que revertesse a frieza dos números, que a alterasse ao sabor dos caprichos do ego. Nada!

Mas era também um espaço onde os sonhos se materializavam, por mais inverosímeis que pudessem ser. É ainda ali que, aqueles que acreditam que podem e que trabalham para isso, que falham e erram e choram e riem tantas vezes, acabam por mudar o sentido da corrente. Começando de novo, a cada sopro, as peças do puzzle encaixam-se por estranhas artes, como se o universo lhes proporcionasse aquela pequeníssima ajuda para, no final, pequenos milagres acontecerem.

Tal como tudo na vida, também esse mundo um dia se extinguiu. E nada mais ficou do que a espuma de uma onda que morreu na praia. O crepúsculo já se anunciava no horizonte, traçado nas linhas da pele, nos cabelos que perdiam a cor e na cada vez mais presente consciência do passar dos anos. O capítulo final foi em Terras de Vera Cruz. Depois, o silêncio reverteu aquele mundo para o plano das memórias...

“Quando daqui saírem, a maioria, praticamente não fará uso do que aqui aprendeu. Não usarão equações diferenciais no vosso dia a dia, a física quântica continuará a ser um mistério fascinante, não precisarão de saber a composição química dos materiais que usarão... mas, mais importante, estarão aptos a aprender qualquer coisa!” Terá sido, quiçá, o ensinamento mais marcante daqueles anos passados no Técnico. Duas décadas depois, lembrei-me dessa frase quando abandonava a Cidade Maravilhosa, terminando a minha carreira Olímpica. Ser-me-ia extraordinariamente útil a partir dali, na transição de atleta para, para algo que, ainda hoje, confesso ter alguma dificuldade em definir! Mas, mesmo sabendo que a engenharia não faz parte do meu dia a dia há alguns anos, aquele período passado em Lisboa, não foi de todo perdido. Ajudou-me a construir uma estrutura mental que permitiu-me encarar os desafios da vida, com uma crença inabalável na capacidade de os ultrapassar. No entanto, para que a vida continuasse a ter significado, era necessário mudar o foco.

A Comissão de Atletas Olímpicos tem, entre outros objectivos mais formais, ajudar os atletas no incrível processo que consiste na criação de condições para que um ser humano possa exprimir todo o seu potencial, no maior palco desportivo do planeta: os Jogos Olímpicos! Composta por atletas Olímpicos, para aqueles que aspiram a sê-lo ou já o foram, a sua essência reside no trabalho voluntário e pro bono de muitos atletas Olímpicos, que encontraram nesta comissão, um meio de devolver ao movimento Olímpico e à sociedade, um pouco do que a experiência Olímpica lhes proporcionou. Para mim, mesmo sabendo que jamais conseguirei retribuir tudo aquilo que representaram sete participações Olímpicas, o meu modesto envolvimento deu um novo significado à minha vida, privilégio do qual estou profundamente honrado e agradecido!