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Onde estava o VAR e o que fez Tiago Martins: todos os erros de todos os jogos dos grandes vistos por Duarte Gomes

O antigo árbitro e agora comentador e colunista da Tribuna Expresso escreve sobre os momentos mais quentes e talvez polémicos do fim de semana. É tempo de aprender

Duarte Gomes

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A jornada 10 terminou a 10 de Novembro e os chamados três grandes só voltam a jogar, para a Liga NOS... em Dezembro. Mais uma paragem prolongada nos campeonatos profissionais, que seguramente servirá para essas - e restantes equipas - reforçarem os seus pontos fortes e corrigirem os menos positivos. O mesmo período será, seguramente, aproveitado pelos árbitros (e VAR's) no sentido de continuarem a trabalhar para melhor algumas das áreas onde as coisas não têm corrido como gostariam.

O clássico a norte

No Dragão, o FC Porto recebeu o Sp. Braga, naquele que é já um dos clássicos mais importantes do calendário futebolístico. O jogo teve uma equipa de arbitragem à altura: Artur Soares Dias, o melhor árbitro português da atualidade - e juiz de elite da UEFA -, foi o escolhido para dirigir o encontro.

Numa partida disputada em alta rotação, homenagem merecida à abordagem inicial dos atletas: a primeira infração do jogo foi aos dez minutos; a primeira do Sp. Braga aos dezoito. Tudo dito em matéria de entrega, com lealdade e desportivismo.

O internacional a AF Porto teve atuação globalmente boa, com apenas um erro (e importante): em cima do intervalo, Sequeira desviou, com o braço esquerdo, cabeceamento de Soares. Apesar dos protestos dos jogadores azuis e brancos, Soares Dias não considerou a ação faltosa e apitou, pouco depois, para o intervalo.

É justo referir que a infração (quanto a nós, deliberada e passível de pontapé de penálti) não foi de fácil perceção em campo: o lance foi rápido e o desvio subtil, o que garantidamente justificou a decisão incorreta do árbitro.A questão aqui era a de saber se a jogada podia ou não merecer intervenção do VAR e em que circunstâncias.

O VAR pode atuar durante o intervalo?

A questão é pertinente e, no caso, faz ainda mais sentido. O “Protocolo do Videoárbitro”, na versão mais recente definida pelo IFAB - a oitava -, diz que sim, com uma condição: que, no momento em que seja necessário analisar/rever um lance que ocorra imediatamente antes do apito para o descanso, o árbitro da partida ainda se encontre no relvado.

Ou seja, neste caso, se o VAR tivesse entendido que o erro do árbitro tinha sido claro e evidente, devia pedir-lhe, de imediato, que não abandonasse o terreno de jogo e que evitasse que os jogadores fossem para os balneários (para não ter que os chamar de regresso ao relvado, como aconteceu recentemente na Alemanha).

Aí sim, o lance podia ser reanalisado e o penalti assinalado. Depois... tudo para os balneários.

Tondela com chuva, amarelo e vermelhos

Outro internacional de qualidade, o jovem João Pinheiro, dirigiu o jogo entre Tondela e Benfica. A partida foi disputada sob condições climatéricas difíceis. Talvez por isso, o árbitro bracarense tenha optado - desde o início - por critério disciplinar rigoroso. É justo dizer que foi sempre coerente.

As decisões mais importantes da partida terão sido bem analisadas: os golos foram todos legais e a expulsão (o vermelho direto a Ícaro) bem decidida. Os dois amarelos quase consecutivos a David Bruno foram na linha do tal rigor, usado para ambas as equipas, ao longo de toda a partida: no primeiro, a rasteira foi considerada antidesportiva; no segundo, o empurrão e posterior “palmada” na nuca de Cervi (com este já de pé) terão sido demasiado arriscados para quem sabia que tinha sido advertido minutos antes.

Na etapa inicial, Cervi, na área adversária, tinha caído após choque, nas costas provocado por Ícaro. Ficou a dúvida se esse contacto fora intencional ou apenas fortuito para a movimentação defensiva do brasileiro, mas o certo é que o lance estava já ferido de legalidade: Rúben Dias fizera obstrução ilegal a Tomané na fase inicial da jogada. Caso a ação do central do Tondela tivesse sido penalizada com pontapé de penálti, o VAR seguramente recomendaria a João Pinheiro que revisse toda a jogada.

Noite má em Alvalade

Em Alvalade, noite infeliz de Tiago Martins. O internacional lisboeta, recém-regressado de viagem longa (e de um jogo disputado) no Chipre, não esteve ao nível do que já nos habituou.

A sua gestão disciplinar foi incoerente (amarelos por exibir a Jovane Cabral e Eustáquio, que protagonizaram entradas negligentes sobre adversários), algumas faltas por assinalar em lances aparentemente claros e duas más decisões, ambas com impacto direto nos jogadores e equipas.

Na primeira, Bruno Gallo teve entrada duríssima e bem negligente sobre Acuña (um pé na bola, que também acertou no tornozelo do argentino) e por isso merecia cartão amarelo. Amarelo mas não vermelho. O desenho inicial da jogada e da sua impetuosidade sugeriam, de facto, a expulsão direta, mas as imagens repetidas mostraram que essa decisão foi errada. Este era lance para ter ajuda do seu videoárbitro.

Na segunda, decisão errada, claramente motivada pelo facto de Tiago Martins ter antes avisado William para não agarrar Bas Dost. No entanto, e apesar de ter colocado o braço na sua cintura, o defesa do Desportivo de Chaves não o agarrou, não o empurrou nem impediu, com isso, que o holandês se movimentasse na área flaviense.

Foi de tal forma assim, que o próprio Bas Dost colocou depois o braço direito sobre o ombro/pescoço de Marcão e desviou Maras do lance. São os chamados lances de “contacto na marcação" homem a homem, que o futebol entende e aceita como legais.

Neste tipo de situações, os penáltis só devem ser assinalados quando as infrações dos defesas forem claras e inequívocas. Os árbitros sabem disso. A surpresa de todos os jogadores - Bas Dost incluído - foi elucidativa do erro de avaliação do árbitro lisboeta.

Uma noite “menos” de um árbitro que tem muitas de “mais”.