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António Varela

António Varela

Diretor comunicação COP

Os anónimos excelentes no Portugal das gravatas

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve António Varela, diretor de comunicação do COP

António Varela

Alexander Hassenstein

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Faltam 610 dias para o início dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Dezenas de atletas portugueses trabalham para franquear as portas de um sonho irreprimível: participar na manifestação cultural global que marcará o resto das suas vidas. O resultado final de cada um será diferente, mas o nível de empenhamento na busca da excelência idêntico. Mais algumas dezenas de treinadores e equipas multidisciplinares trabalham lado a lado com o objetivo último da superação, independentemente das condições que cada um consiga reunir.

Hoje, sexta-feira, se ler este texto por volta das 10h00, os nadadores portugueses aspirantes aos Jogos já estiveram na piscina duas horas, para cobrir os sete quilómetros do treino da manhã. Há tarde nadam mais sete. E pelo meio fazem uma hora de ginásio. É assim todos os dias. Também atletas, atiradores, canoístas, cavaleiros, ciclistas, futebolistas, golfistas, ginastas, judocas, karatecas, mesa-tenistas, remadores, surfistas, taekwondistas, tenistas, triatletas e velejadores trabalham a um ritmo e com uma dedicação invisíveis num Portugal toldado por gravatas e colarinhos brancos, submetido a agendas casuísticas disseminadas pelo espaço público fragmentado e gerido nas redes sociais.

Não é este Portugal mascarado de modernidade, onde os valores sociais expressos na comunicação global estão de-pernas-para-o-ar, que tira do sério os aspirantes a Tóquio 2020. O atleta que divide o 11.º ano de escolaridade em dois e faz o mesmo com o 12.º, para não abrandar na exigência autoimposta de dar o melhor de si mesmo sem desfocar de cada objetivo, e assim consegue a entrada na faculdade, não desmobiliza, não desanima perante um país que o desconhece. Mesmo sabendo que no apuramento de contas a multidão não quer saber do que fez da sua vida e em que condições. E o mesmo fazem atletas que têm uma profissão – treinando antes e depois -, na conjugação de exigências de trabalho elevadíssimas para tentarem chegar a um objetivo último que faça valer a pena todos os sacrifícios. Com os seus treinadores, fisiologistas, nutricionistas, psicólogos, médicos, fisioterapeutas.

Em 2019, alguns atletas e equipas já terão ficado para trás, mas muitos estarão em linha com o objetivo e outros ainda irão a tempo de fazer as correções necessárias para lá chegar. O país seguirá ao seu ritmo, dando palco à mediocridade, expondo todos os dias casos de como não se deve fazer, tornando tendência a anedota e o ridículo, corporizando a agenda do fútil e da superficialidade, lado a lado com quem trabalha pela superação, na busca da excelência, protagonizando histórias inspiradoras, desconhecidas, no silêncio, no anonimato. E todos os dias é assim. Pela bandeira, pelo hino, por Portugal.