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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

As decisões acertadas e os lapsos de arbitragem na festa da Taça

O ex-árbitro Duarte Gomes analisa os lances mais duvidosos da 4ª eliminatória da Taça de Portugal, disputada no passado fim de semana

Duarte Gomes

Gualter Fatia

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Terminou no passado fim de semana mais uma etapa da prova rainha.

Pela enésima vez, a octogenária Taça de Portugal levou a festa da bola a muitos dos cantos deste país à beira-mar plantado: Montalegre, Ribeira Brava, Espinho, Lisboa, Covilhã, Ponta Delgada, Vildemoinhos, Tondela, Vila do Conde, Funchal, enfim... um pouco por todo o lado foi possível assistir, ao vivo e a cores, às maravilhas de uma competição que coloca, em plano de igualdade, realidades tão desiguais.

FC Porto, Benfica e Sporting - com mais ou menos dificuldades - passaram os respetivos testes, para os quais eram aliás teoricamente favoritos.

É bom não esquecer que a famosa máxima do "onze contra onze" aplica-se ao que se passa nas quatro linhas, mas muito do que aí se joga é o resultado direto do que acontece fora delas.

Todos sabemos mas nunca é demais recordá-lo: os resultados desportivos são, quase sempre, o produto direto dos meios, profissionalismo e talento dos mais fortes sobre os menos dotados. E contra factos não há argumentos.

Claro que, de vez em quando... o homem até morde o cão, mas essa não é a regra, a lógica desta histórica competição.

No Estádio do Dragão, onde até se defrontaram dois clubes primodivisionários, o FC Porto beneficiou (e desperdiçou) de um castigo máximo, diga-se, bem assinalado pelo árbitro da partida: Reinildo, jovem moçambicano duro mas talentoso, acertou no pé direito de Herrera. O defesa do Belenenses SAD tentou tocar a bola, mas chegou tarde, acabando por derrubar o jogador mexicano.

JOSÉ COELHO

O algarvio Nuno Almeida - que viajou de Montegordo até à Invicta (ida e volta) - estava atento e decidiu bem aí, como o fez aliás na esmagadora maioria dos outros lances.

Nesta partida, o único verdadeiro adversário acabou por ser mesmo o boletim meteorológico: frio, chuva, vento e um relvado que aguentou-se como pôde, até ao apito final.

No velhinho Estádio do Fontelo, em Viseu, houve festa rija.

NUNO ANDRÉ FERREIRA

O favoritíssimo Sporting visitou o Lusitano de Vildemoinhos, numa partida teoricamente desequilibrada.

A primeira parte contrariou essa tese, levando o jogo empatado para o intervalo, mas a superioridade inequívoca da equipa lisboeta viria ao de cima na etapa complementar.

O jogo teve uma curiosidade que vale a pena aqui registar: António Nobre, jovem árbitro de Leiria, dirigiu o encontro no exato dia em que comemorou o seu vigésimo nono aniversário.

É, se não o mais jovem, um dos mais novos árbitros do atual quadro.

O resultado algo desnivelado remete para segundo plano lances potencialmente discutíveis, embora tivessem existido dois que devem merecer atenção (para análise pedagógica futura) do juiz leiriense:

- Uma queda de Bruno Gaspar na área adversária (ficaram dúvidas se foi ou não tocado, na passada, pelo pé do defensor adversário) e uma jogada que envolveu Bas Dost, pouco depois.

Nessa, as imagens (aí demasiado crúeis, porque mostraram algo bem diferente do que todos vimos à primeira) provam que o avançado holandês foi realmente puxado pela camisola e impedido de saltar/disputar a jogada.

Momento de eventual erro, não coloca em causa a perspetiva de futuro animadora que se desenha para António Nobre, um talento que irá crescer e evoluir para patamares bem elevados. Isso é quase certo.

Na Luz, Benfica e Arouca disputaram um jogo intenso, equilibrado e com resultado incerto até final.

ANTÓNIO COTRIM

Hélder Malheiro, outro juiz com forte personalidade, presença e qualidade, não teve qualquer influência no resultado final embora tenha cometido lapsos que o próprio, seguramente, já terá visto e revisto e assumido como evitáveis.

É certo que o jogo não foi fácil de dirigir - demasiadas emoções em campo, empoladas em parte pelo ruído constante que vinha da bancada - mas o árbitro lisboeta não conseguiu manter coerência técnica e disciplinar em algumas das suas decisões.

O expoente máximo terá sido a expulsão (cartão vermelho direto) de Soares, em entrada faltosa, que as imagens sugerem ter sido apenas merecedora de advertência. O aparato da queda, o ruído exterior e o cansaço (falta ocorreu nos descontos) poderão ter contribuído para uma análise menos correta.

Nas restantes partidas, não reza a história de decisões erradas, com impacto direto no jogo, sinal que as equipas de arbitragem nomeadas (algumas muito jovens), cumpriram a sua missão, em condições atmosféricas quase sempre complexas.

A Primeira Liga regressa já na próxima 6ª feira (Santa Clara-Belenenses SAD), esperamos que com muita qualidade e acerto dentro de campo... e pouco ruído fora dele.

O futebol agradece... e nós também.