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O vilão Diego Costa

A crónica de hoje do escritor Bruno Vieira Amaral mistura cinema com futebol e versa sobre alguns jogadores da Liga espanhola, "um espetáculo tão clandestino como as lutas de galos"

Bruno Vieira Amaral

Diego Costa, jogador do Atlético de Madrid

David Ramos/Getty

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Uma das tentações a que não consigo resistir é a de rever um filme que já vi dezenas de vezes quando, por acaso, está a dar na televisão. As possibilidades oferecidas pelas gravações automáticas ou mesmo o facto de ter o DVD do filme não são suficientes para me impedir de largar tudo o que estou a fazer e sentar-me no sofá como se me preparasse para ver uma emissão em direto, irrepetível. Certos filmes são mais adequados ao prazer da repetição: já perdi a conta ao número de vezes que vi “Desafio Total”, “O Exterminador Implacável” (os dois primeiros), “Robocop”, “Instinto Fatal”, “Predador”, “Arma Mortífera”, “Pulp Fiction” e, há pouco tempo, por mistérios da programação dos canais por cabo, desenvolvi um gosto especial por um filme que só é notável por ter dado cabo do casamento de Meg Ryan e Dennis Quaid, “Prova de Vida”.

Ontem, quando comecei a escrever a crónica, vi que ia dar “O Bom, o Mau e o Vilão”, de Sergio Leone, e não resisti. Desliguei o computador e preparei-me para rever Tuco, Angel Eyes e Blondie pela enésima vez. Lembrei-me de quando o vi pela primeira vez, há uns trinta anos, em casa de um vizinho. Foi na época gloriosa dos clubes de vídeo em que alugávamos com devoção os filmes do Stallone, não só Rambos e Rockys, mas Cobras e Falcões da Noite, do Steven Seagal, do Van Damme, e outros objetos estranhíssimos como “Anjo Negro”, um clássico chunga com Dolph Lundgren, e pequenas pérolas como “Fim de Semana Violento”, uma perturbadora fantasia de violência juvenil, com Charlie Sheen e um Maxwell Caulfield que depois prosseguiu a carreira por caminhos mais convencionais como a soap opera “Dinastia”. Bem, no meio disso tudo, o meu vizinho, o Chiquito, alugou “O Bom, o Mau e o Vilão”. Lembro-me da estranheza que aquilo me provocou e cuja origem eu não conseguia determinar. Era um western, mas tinha uma aspereza que os outros westerns não tinham. Era diferente. Agora já percebo a origem da estranheza, o prazer de Leone filmar em grande plano aqueles rostos que adquirem um aspeto grotesco (italianos filmados como habitantes do faroeste como se fossem algo entre as figuras da commedia dell’arte e a Joana D’Arc de Dreyer), e esse talvez seja o motivo de gostar tanto de rever o filme, sobretudo as sequências iniciais em que, até ao momento em que Angel Eyes fala com o homem que vai matar, não há diálogo e tudo é definido pela câmara e pelos sons (botas, vento, cascos).

Na altura eu desconhecia, mas outra das razões da estranheza do filme era o facto de ter sido filmado em Espanha, em Almeria e em Burgos. Essa incongruência paisagística está entranhada na essência do filme como se o realizador contasse que os olhos dos espetadores, habituados aos cenários familiares dos westerns americanos, a detetassem e tornassem parte do encanto da narrativa. E então chegamos, um pouco tortuosamente, reconheço, a Espanha, que era na verdade onde eu queria chegar, mais precisamente a esse vilão maior do que a vida que dá pelo nome de Diego Costa e que, no jogo contra o Barcelona, regressou aos golos após logo interregno.

Permitam-me um desabafo: sem Cristiano Ronaldo e com os direitos televisivos para Portugal nas mãos de um operador quase invisível, a Liga espanhola tornou-se um espetáculo tão clandestino como as lutas de galos. Vemos resumos cuja qualidade da imagem nos remete para os tempos em que só tínhamos uns lampejos do génio de Futre no Atlético de Madrid no final do Domingo Desportivo. Foi como se La Liga se tivesse tornado um campeonato longínquo, como o argentino, do qual nos chegam imagens que dão impressão de terem sido trazidas de uma terra distante por um emissário a cavalo.

Atlético de Madrid e Barcelona empataram a um golo na 13ª jornada da Liga espanhola

Atlético de Madrid e Barcelona empataram a um golo na 13ª jornada da Liga espanhola

Anadolu Agency

Mas regressemos a Diego Costa. Confesso que gosto dele. Há toda uma panóplia de razões – estéticas, pedagógicas, humanísticas – para não se simpatizar com o avançado hispano-brasileiro. Não é um jogador fino. Percorre o campo como um daqueles tipos que, nas zonas de animação noturna, andam pelos bares à procura de uma rixa. Tem aquela cabeça desproporcional de vilão de banda desenhada (cf. “O Protegido”, de M. Night Shyamalan) e a elegância de um praticante de luta greco-romana. E, no entanto, por razões que não consigo explicar, simpatizo com ele, não só pelos golos que marca, mas também pelo lado brigão, infantil e quezilento. Com ele em campo, desenrola-se uma narrativa paralela de violência caricatural, de provocações aos adversários, de agarrões nos cantos, insultos vociferados e simulações ofensivas de tão descaradas. Com as suas barbas hirsutas e feitio de cangaceiro, lembra, é claro, o cómico Tuco do filme de Leone, ora letal de arma na mão, ora picaresco de sombrinha cor de rosa em punho, tão depressa a despachar inimigos impiedosamente como a gritar, manietado e impotente, “hijo de putaaaaa!” ao bonitinho que o leva cativo.

Se o fim de semana futebolístico em Espanha, visto na brevidade dos blocos noticiosos ou em resumos piratas na Internet, trouxe de volta um dos meus vilões preferidos também nos ofereceu a redenção do “mau” Ousmane Dembelé que, graças ao seu duvidoso profissionalismo, um rol de atrasos e outras transgressões menores, se tornou o bode expiatório das falhas do Barcelona, e mais um golo do “bom” André Silva, nosso compatriota com penteado irrepreensível de galã de matinée, que após uma campanha desastrosa em Milão está a redescobrir a felicidade na Andaluzia, não muito longe do lugar onde Sergio Leone, acompanhado de uma trupe transalpina e um americano apenas capaz de duas expressões faciais, com e sem chapéu, reinventou o faroeste e os filmes de cowboys.