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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Uma jornada com ruído imediato e audível. De todo o lado e de várias formas (a análise de Duarte Gomes)

O ex-árbitro Duarte Gomes analisa os acontecimentos da 11ª jornada da Liga portuguesa, que foi fértil em... queixas

Duarte Gomes

JOSE COELHO/LUSA

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A jornada passada teve visibilidade diferente da que se esperava e desejava.

De uma forma global, a verdade é que algumas arbitragens não correram bem. O problema é que isso aconteceu nos jogos em que intervieram FC Porto, Benfica e Sporting.

Consequências? Ruído imediato e audível. De todo o lado e de várias formas.

É assim hoje, como foi assim há um ano, há dez e há vinte. A diferença? A diferença é que os meios evoluíram significativamente, o que torna o barulho ainda maior. Mais amplificado e ensurdecedor.

Hoje, um lance mal analisado transforma-se, de imediato, numa espécie de aula de português: levantam-se logo dúvidas sobre colinhos e missas e surgem esclarecimentos sobre frutas e apitos.

Mais do mesmo, em cada jogo, em cada época, de todas as épocas.

Quando jogam os "grandes" há, em cada erro visível de arbitragem - e a esses já lá vamos -, uma acusação implícita de premeditação e uma sustentada teoria de conspiração.

Tudo para tentar mostrar que o inimigo (bons tempos aqueles, em que chamávamos adversários) só ganha porque é beneficiado, ajudado ou empurrado.

Mérito? Zero. Não há cá nada disso.
Quem não gostou, falou. Quem gostou, calou. Na semana seguinte, vira o disco e toca o mesmo: quem criticou, emudeceu. Quem engoliu, enraiveceu.

Esta coisa de atacar e defender deve cansar. Tem que cansar.

Não pode haver prazer numa estratégia assim. De constante acusação e ironia, de levantamento de suspeitas, de troca de acusações. Mas que raio de jogo é esse, afinal?

Pelo meio, o argumento, esse sim válido, que uma má decisão pode custar milhões e, em alta competição, isso pode ter consequências catastróficas.

E é verdade. É mesmo verdade.

Mas também é verdade que essas podem advir de um golo falhado de baliza aberta, de uma má abordagem tática ou de más opções de quem manda.

Num espetáculo desta importância, todos os protagonistas estão sob enorme pressão. Por isso, todos acertam mas também erram.
Todos contribuem para o sucesso e, infelizmente, todos contribuem para o fracasso. É assim no futebol profissional é é assim em qualquer outra grande área de atividade.

Por estes dias, parece que se perdeu a capacidade de criticar sem ferir, de estar em desacordo sem ofender, de manifestar repúdio sem magoar.

Perdeu-se parte considerável da nobreza do saber estar, do saber perder e do saber vencer.

É angustiante vermos pessoas que aprendemos a admirar e respeitar, pessoas que sabemos terem valores e caráter, a serem literalmente engolidas por estes rolos compressores de lodo e cinzentismo.

No meio disto tudo... os árbitros. E as suas arbitragens. Então vamos ao ópio do povo:

- No Bessa... ficou penálti por assinalar de Brahimi, sobre? Sim, ficou.
Militão fez falta, na área, sobre Rochinha? Não. Quem fez foi Danilo, mas ainda fora.

Antes, o Boavista tivera abordagem dura e atitude demasiado impetuosa para com o seu adversário? Sim, teve.

Ao longo do jogo, o árbitro podia ter feito mais e melhor? Sim, podia.

Gualter Fatia

- Na Luz, Pizzi sofreu falta para castigo máximo? Não. Cris fez contacto aceitável para aquela marcação.
Seferovic agarrou Briseño na área encarnada? Não. Não agarrou.
Fejsa teve entrada duríssima, para cartão amarelo, sobre Tiago Silva? Sim, teve.

Ao longo do jogo, o árbitro podia ter feito mais e melhor? Sim, podia.

- Em Vila do Conde, o primeiro golo do Sporting foi legal? Sim, foi. O espirito da lei nunca foi beliscado e isso deve prevalecer sempre.

Foi Vinícius quem tocou na bola, no lance em que Mathieu fez tacle deslizante para cortar a jogada? Sim, foi. E como houve rasteira posterior do francês, ficou (video) pontapé de penálti por assinalar.

O mesmo Vinícius devia ter sido expulso, por conduta violenta, após entrada perigosa sobre Jefferson? Sim, devia. Lance para cartão vermelho direto.

Ao longo do jogo, o árbitro podia ter feito mais e melhor? Sim, podia.

HUGO DELGADO/LUSA

Agora, a outra verdade: nestes três jogos, também jogadores e técnicos podiam ter feito mais e melhor.
Houve muita falta dura, muitas entradas perigosas, vários cartões justíssimos, protestos exagerados e demasiadas emoções à solta. Dentro e fora de campo. Houve condutas antidesportivas e comportamentos irresponsáveis.
Isso ajudou o jogo? Não.
É matematico: lá dentro, nunca falha só um. Falham todos.
Vendo assim, com essa distância e pragmatismo, sem estratégias de circunstância, já não será tempo de dar um passo em frente e refletirmos, todos juntos, sobre coisas realmente sérias e estruturantes?
Dica para começarmos: o futebol profissional, em Portugal, tem a pior média de tempo útil de jogo, quando comparado com todos os outros campeonatos europeus.
É suficientemente importante ou no pasa nada?