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Blessing Lumueno

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Treinador de futebol

Passe e devolução: Tiago Dantas e um diálogo representativo do nosso futebol

O treinador Blessing Lumueno escreve sobre Tiago Dantas, jovem jogador de 17 anos do Benfica, que representa um tipo de futebolista que ainda não é tão apreciado como devia ser em Portugal

Blessing Lumueno

Gualter Fatia

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Passe e Devolução é uma alusão clara à forma como o Nuno Amado, em três palavras, caracteriza a ideologia do melhor treinador que já existiu. Nunca vi ninguém definir tão bem e de forma tão simples o futebol de Guardiola. Veja-se a criatividade no uso de tão poucas palavras mas que abrangem toda a complexidade do jogo que vive na cabeça do génio catalão. E serve essa alusão para falar daquele que é o melhor jogador da sua geração.

Eis o diálogo:

T: Tiago Dantas recebe o passe e joga para trás.

T: A bola é devolvida para Dantas que de primeira toca, novamente, para trás.

D: Parece que o médio tem alguma dificuldade em jogar com a pressão, e ainda não está preparado para as exigências do futebol sénior. O facto de não arriscar jogar para a frente, e de preferir a segurança do passe para um colega mais recuado, é um claro indicador disso.

T: O médio volta a receber a bola e a sua opção é, novamente, jogar para um colega mais recuado.

D: Como estava a dizer, parece um jogador tímido que não quer arriscar e que está a atacar no sentido da própria baliza quando deveria estar a tentar jogar positivo para a baliza adversária. É um puto imberbe.

T: Tiago Dantas recebe e acelera, faz o passe que isola o colega e…

D: Aqui está! Tal como eu comentava, é isto que o Dantas deve fazer regularmente. Jogar com mais risco, jogar positivo, acelerar o jogo. Ele tem qualidade, mas fruto da sua inexperiência ainda não é algo regular no seu jogo e é isso que precisa de melhorar…

T: Talvez se sinta algo intimidado pelo choque, uma vez que não é um jogador potente.

D: Sim. A pouca robustez costuma resultar nisso, e numa maior dificuldade de adaptação ao futebol moderno. É um futebol que está cada vez mais rápido, mais intenso, que tem menos espaço e que por isso os jogadores chocam mais uns contra os outros. Essa vai ser uma barreira difícil de superar.

T: E o jogo aéreo?

D: Esse vai ser outro trabalho que os treinadores do Tiago vão ter que fazer com ele. Vão ter que ser criativos o suficiente para não deixar que esse factor prejudique as suas equipas. Um jogador com esta altura no meio-campo vai perder as bolas todas de cabeça. Aqui, no contexto de formação, ele pode ir jogando porque o resultado não é assim tão importante. Aqui pode errar sem grandes consequências. No patamar seguinte já não lhe vai ser perdoado não ser corpulento porque na alta competição joga-se para ganhar. Imaginem o que será deste jogador num jogo contra a seleção francesa…

FO: Perdoem-me a interrupção, mas está um olheiro do Manchester City a tirar notas e parece que se levantou para aplaudir o lance de pé.

T: Será possível que este jogador tenha espaço num clube tão poderoso?

D: Sim. Só um treinador como Guardiola é que pode apostar nele.

T: Numa equipa de uma liga tão física como a inglesa, não será uma aposta de risco?

D: Claro. Ainda mais na posição em que atua. Em Inglaterra o jogo é mais direto, tem menos interrupções, há os tackles, e é muito difícil para jogadores com este tipo de perfil. Para não voltar a falar do facto de não arriscar muito, e isso numa equipa grande não é visto com bons olhos.

T: Sim. Os números nunca mentem, e este lance é o exemplo disso. Nas quatro vezes que recebeu a bola fez três passes para trás, e só à quarta oportunidade é que tentou virar-se para a frente.

D: A estatística é clara, e diz-nos que ele não produz o suficiente para que se possa considerar neste momento como um talento emergente. E como dá para perceber pelos números apresentados por este gráfico, é dos jogadores que menos correu em campo. Falta-lhe intensidade, e uma maior amplitude no seu jogo para conseguir galgar mais metros.

FO: Entrevistei um adepto que me pede que questione ao nosso painel se este tipo de jogador não faz falta à nossa seleção.

T: Com maior robustez e mais objetividade, este miúdo poderia ser um caso sério para as seleções nacionais.

D: Concordo. Com mais altura, e mais peso, com mais músculo, de certeza que estaria sempre presente nas convocatórias das selecções mais jovens, e teria lugar de destaque como joia do trabalho de formação que se faz em Portugal. Mas para isso, precisa de crescer e de trabalhar a atitude competitiva.

No diálogo acima: T é o Tiago, narrador de um jogo entre a equipa B do Benfica e o Estoril Praia, a contar para a segunda divisão. D é o Dantas, o comentador convidado. FO é o Filipe Oliveira, o repórter de campo. O diálogo não é mais do que uma conversa normal, e em larga medida representativa, do nosso futebol.

O futebol em Portugal, infelizmente, ainda é muito pensado assim. Não aprendemos nada com Cruyff e com Maradona, tão pouco com Chalana ou George Best. Tivemos o Ricardo Carvalho. Passou o Paulo Sousa, o Figo, o João Pinto, o Rui Costa e o Deco.

Rui Costa - 94 jogos

Rui Costa - 94 jogos

SRDJAN PETROVIC

Jogadores para os quais todos olhávamos com um brilho especial, jogadores que todos admirámos, e nem por uma vez pestanejamos por serem baixos ou magrinhos. Não dissemos que não teriam hipótese de singrar. Foi-se Xavi, eternizou-se o Iniesta, e agora até temos um jogador que se olharmos com atenção parece que passa fome votado como o melhor jogador do mundo. Nem com a eleição de Modric, para quem só entende o estatuto, nos convencemos de que o critério fundamental para o futebol é o talento incomensurável. Talento que se percebe no pormenor.

Dos 58 quilos que Tiago Dantas pesa, 50 são massa encefálica, os restantes 8 são o suporte para essa musculatura. E é por isso que ele é capaz de brincar com o jogo com ações simples mas de uma enorme complexidade. É tão cerebral, o que ele faz do jogo, que dá até a impressão que ele faz de propósito para complicar os lances apenas para satisfazer a sua necessidade de resolver problemas mais complexos.

No jogo da equipa B do Benfica contra o Estoril, com passe e devolução, ele coloca três colegas no lance, fixa a oposição que se desloca para perto da bola, atraí a pressão de quatro elementos, para depois receber nas costas deles. Aí acelera. Arrisca manter a bola no mesmo sítio, arrisca manter a bola sob pressão, arrisca não fugir da pressão, arrisca provocar a pressão, arrisca que os colegas percam a bola por terem menos tempo e espaço, com um e apenas um só foco: transformar uma situação banal numa situação de verdadeira vantagem para ele ou para os colegas atacarem a baliza adversária.

Por aí, pela forma como envolve os colegas e os adversários se percebe a sua superioridade sobre os demais. Este lance é tão bom quanto qualquer um do Messi em que ele ultrapassa quatro, cinco, ou seis adversários em fila e depois atira ao ângulo. É um lance tão vistoso quanto esses, e que apresenta o talento do jogador de forma inequívoca. A forma como faz com que tudo pareça tão fácil e tão natural, tão limpo, é sublime.

Como se percebe, ele não precisa de corpo porque quando os adversários pensam tirar vantagem disso ele já soltou a bola e já caminha para outro espaço onde estará livre para receber. Infelizmente, o Dantas é mais um daquela estirpe que ousa desafiar a complexidade cognitiva com acções tão simples quanto o passe e a devolução. No Benfica há algum tempo que se percebeu o tamanho, a dimensão, que ele já tem; e percebeu-se também onde pode chegar no futuro. Falta o resto do nosso pequeno mundo tomar nota de algo que já é mais que evidente.