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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O futebol é stress, ansiedade e emoções. O que não pode haver, de todo, é rebaldaria

O futebol é um espetáculo esmiuçado e revisto à lupa e, para Duarte Gomes, não pode ser "um 'bar aberto' para a azeitice, para pulos histéricos e para impropérios feios, gritados aos sete ventos, como se alguém estivesse a ser esfaqueado aos olhos de todo o mundo"

Duarte Gomes

Carlos Rodrigues

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Termina hoje, com o importante Feirense-Marítimo, a jornada 12 da Liga NOS.

Os primeiros cinco classificados venceram as suas partidas, colocando em campo o seu favoritivismo teórico.

No duelo de Guimarães - entre Vitória SC (5º) e Rio Ave (6º) - rezam as crónicas ter havido um verdadeiro hino ao futebol. As imagens que vimos, o número de golos marcados e a emoção sentida até ao apito final valeram o preço do bilhete de quem se deslocou ao D. Afonso Henriques.

Nuno Almeida, experiente árbitro algarvio, assinalou três pontapés de penálti na etapa inicial. Todos indiscutíveis, todos bem decididos, todos resultaram em golo.

Convém sublinhar as coisas boas, porque elas acontecem com mais frequência do que tanto se apregoa.

Dos duelos em que estiveram envolvidos FC Porto, Benfica e Sporting, algumas ilações a tirar. Ilações que pretendem, como sempre, lançar uma reflexão mais atenta, um olhar construtivo sobre o que toda a gente percebe não estar bem.

A primeira vai para o comportamento de alguns elementos dos bancos técnicos.

Estive quase vinte anos no futebol profissional. Sei, tão bem quanto muita gente, o que custa lidar com stress, ansiedade e emoções em catadupa.

É difícil. Muito difícil. E é difícil para jogadores, árbitros e técnicos.

Há e deve haver sempre um largo espaço de tolerância para reações mais efusivas e intempestivas, que o contexto do jogo ou do marcador o justifiquem. Esse espaço deve ser dado por quem ajuiza, com sensatez, amplitude e critério.

O que não pode haver, de todo, é rebaldaria.

É "bar aberto" para a azeitice, para pulos histéricos e para impropérios feios, gritados aos sete ventos, como se alguém estivesse a ser esfaqueado aos olhos de todo o mundo.

O futebol é um espetáculo visto e revisto, à lupa. Ao frame. Ao mais detalhado dos slow motions.

Não deve haver aí margem para folclore. São artes diferentes, para palcos bem distintos.

O que as imagens insistem em mostrar a quem paga para ver bola... roça o ridículo. Dá vergonha alheia.

É importante que as pessoas que têm a responsabilidade - sim, a responsabilidade - de se sentarem num banco técnico, percebam os seus limites. As balizas das suas reações.

Percebam, sobretudo, o impacto que as suas atitudes têm como exemplo para muitos.

Há, no futebol não profissional e no futebol distrital, quem siga idêntica linha, porque "a malta lá de cima também faz e não se passa nada". Isso é péssimo.

Um médico é um médico. Um fisioterapeuta é um fisioterapeuta. E um delegado ao jogo é um delegado ao jogo.

Deixem para os treinadores as dores de erros e acertos e, por favor, cumpram com as funções que vos estão adstritas, mas com classe. Com nível. Com dimensão humana.

Acreditem quando vos digo... o espetáculo que todos vemos é grotesco e não vos fica bem. Porque os senhores, eu sei, são pessoas de bem.

Segundo ponto: há, cada vez mais, uma diferença enorme entre as decisões que os árbitros tomam em campo e a expetativa exterior que existe em torno dessas opções.

O VAR está para o adepto comum como um pastel de nata está para uma refeição de dez pessoas. Parece curto. Muito curto.

O balanço entre o que o protocolo impõe e aquilo que o futebol espera que imponha está desnivelado. E esse é um assunto que merece atenção.

Se a introdução de uma ferramenta torna-se um foco de problemas, de ruído ou dispersão, se calhar há algo não está a correr como se pretendia.

Isso pode acontecer, faz parte, sobretudo quando se verificam mudanças tão estruturantes. Agora quando acontecem, há que ter a sensatez de ouvir o que anda todo a gente a dizer.

Se, na nossa estrada, todos parecem vir em sentido contrário, o mais certo é que o caminho que estamos a escolher não será o mais indicado. O que há a fazer? Encostar, rever estratégia e tomar o rumo certo.

Avançando.

Podíamos agora passar para os lances. Os mesmos que já foram falados, exaustivamente, nas últimas 48 horas.

Mas falemos apenas daqueles que o podem ajudar a perceber melhor o jogo e as suas regras:

- Acuña (Sporting) viu, bem, o segundo amarelo, ao derrubar Rúben Oliveira, porque cortou ataque prometedor. Não viu o vermelho direto porque Coates estava em clara posição de fazer o dobra, caso não tivesse havido infração;

- Vítor Costa estava sempre a olhar para a bola e não teve intenção de fazer falta sobre Diaby, mas fez. E aquele pontapé não precisava de ser deliberado para ser punido.

Foi imprudente, ou seja, o defesa avense não teve o cuidado que devia na sua abordagem. Uma vez que tentou jogar a bola quando cortou esse ataque prometedor, não viu (e bem) o segundo amarelo. Agora é assim, de acordo com recente alteração na lei quanto a despenalizações disciplinares nalguns tipos de situações.

- Felipe (FC Porto) fez falta para penálti. O central quis tocar na bola, mas foi surpreendido pela mudança de direção do adversário e acabou por tocar no pé daquele, derrubando-o. O lance foi evidente para 9 em cada 10 pessoas, mas os VAR têm recomendações para não se meter neste tipo de "contactos".

Lá está: a diferença entre as exigências teóricas e a expetativa que o senso comum emana são gritantes. Não deviam.

- Marega foi carregado (e bem carregado) na área adversária, por Possignolo, pouco depois de ter rematado, com perigo, à baliza da equipa algarvia. A entrada, negligente (ao estilo de atropelo), devia ter valido o castigo máximo.

Lance algo atípico, porque o foco estaria na bola e podia ser interpretado como "choque posterior inevitável", mas não foi. Não foi de todo.

- Do jogo de Setúbal, um comentário numérico: 43.

Quarenta e três faltas assinaladas, faltinhas por punir, interrupções para assistência médica, demora nas reposições e recomeços, tempo perdido em substituições, meios e meiinhos em torno do árbitro, pequenas e grandes confusões.

Na verdade... houve jogo em Setúbal?

Feio. Desnecessário. E ofensivo para quem paga bilhete e pay per view.

Nem vale a pena apontar o dedo para aqui ou para ali. Quando isto acontece, árbitros, jogadores e (até) técnicos têm boa dose de responsabilidade.

Façam alguma coisa, meus senhores. Não há Liga que evolua assim.