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Tempestade ou “bons ventos”? O desafio da “janela de transferências” em janeiro

Ana Bispo Ramires

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Janeiro traz, desde sempre, a hipótese de inovação e recriação nos plantéis em futebol (profissional ou não). Treinadores e Atletas vivem este período em “modo desafio” se estiverem a antecipar a possibilidade de uma nova oportunidade ou, inversamente, em “modo ansiedade” se, por alguma razão, percecionarem o seu lugar em risco.

É, por esta razão, uma janela temporal onde os plantéis se encontram naturalmente instáveis, com a insegurança a pairar na cabeça dos atletas: se alguns sabem ter o seu lugar garantido, outros tem a certeza da imperatividade da saída (vivendo a incerteza da nova colocação) e, os restantes, permanecem na dúvida por não terem certezas de nada – tudo isto contamina, naturalmente, a dinâmica da equipa.

Concomitantemente, é um período onde a competição não pára e que, por esta razão, pode traduzir-se na obtenção (ou não) de 12 pontos - determinantes de um título, de um acesso à Europa, ou de uma descida de divisão.

Doze pontos fundamentais.

Missão

O PROPÓSITO é, sem dúvida, ter a hipótese de fazer “aquele ajustamento” que se imagina que irá resolver os problemas de finalização, meio campo, de defesa ou até de balneário.

O DESAFIO é, ter uma correta monitorização dos indicadores de rendimento, comportamentais e sociométricos (recolhidos durante a época) para, tal qual um tabuleiro de xadrez, se saber mover a peça certa – informação e fundamentação vitais para escolher o elemento certo que serve as necessidades da equipa (e não apenas o elemento certo que irá “salvar” a equipa) e, às vezes de forma ainda mais determinante, a forma mais eficiente da sua integração.

A missão é, por isso, muito difícil.

Possíveis Obstáculos ao Sucesso

A listagem exaustiva de variáveis que podem contaminar este processo é infindável e, por esta razão, este artigo abordará apenas três, possivelmente menos equacionados no dia-a-dia dos clubes.

Dinâmica interna da equipa existente

Uma equipa é um “organismo vivo” que adquire o seu DNA de forma natural ou planeada pela sua equipa técnica (este fenómeno, com todas as suas qualidades e “defeitos”, acontecerá inevitavelmente com ou sem intervenção intencional da equipa técnica). Por esta razão, ao removermos ou acrescentarmos “peças” estamos a interferir na dinâmica existente.

Importa assim, entender que o funcionamento natural da mesma poderá apresentar disfuncionalidades a breve trecho e que, para além das características técnico-taticas de quem entra, se deve considerar também o tipo de “energia” que trará para a equipa existente.

Pela mesma razão, e sem entrar aqui em modelos teóricos muito aprofundados sobre dinâmica e gestão de equipas, há que, intencionalmente, procurar ajudar a equipa a retomar ou elevar a sua performance o mais rapidamente possível, através de medidas específicas.

Considerando o “alto rendimento”, qualquer medida que antecipe a chegada a estados ótimos de performance (em termos da dinâmica que se pretende) é, por esta razão, perfeitamente indispensável nesta fase.

Adaptabilidade precisa-se!

Demasiadas vezes quem chega vem com o enorme peso de “resolver”... resolver o que não se resolveu em meses de trabalho – de forma auto-imposta (próprio atleta) ou através da expectativa criada pela própria equipa que acolhe (colegas e pares), esta é uma variável a considerar.

Por esta razão, “casting” deste elemento deve englobar, para além dos seus indicadores e qualidades de rendimento e atitude em campo, informação referente à rapidez com que conseguiu, em experiências anteriores, transformar o seu potencial em rendimento em campo – esta informação permitirá ao clube, criar medidas suplementares em termos do “acolhimento”, que ajudem, a título de mero exemplo, este atleta a ultrapassar rapidamente a adversidade de “não se sentir em casa” e/ou de poder estar a “roubar o lugar” a algum colega que tenha peso informal significativo no balneário (entre muitas outras).

De extrema importância, a clarificação objetiva do seu papel na equipa (com o próprio e a equipa) como mais uma peça na engrenagem, diluindo responsabilidades para o sucesso e insucesso.

Acolhimento

Muito mais frequentemente do que se pensa, um atleta que chega vê a sua vida virada do avesso: sem casa, às vezes sem família (que tende a vir mais tarde) ou outro suporte social, sem conhecimento da cultura e até gastronomia que o acolhe – curiosidade: só a adaptação a uma nova “gastronomia” (ex: dificuldade em ingerir os nutrientes que necessita por má adaptação a temperos/alimentos ou alterações gastrointestinais) pode justificar alterações fisiológicas que comprometam a sua capacidade de produzir intensidade máxima do ponto de vista das suas qualidades físicas e psicoemocionais.

Ainda mais frequentemente, permanece neste tipo de situação porque não comunica com a equipa técnica/médica (às vezes, meramente por não querer demonstrar fragilidade) ou porque o clube, pura e simplesmente, demora mais tempo do que o desejável a encontrar um local de residência onde se possa sentir “em casa”, não providenciando o indispensável suporte necessário a uma adaptação bem sucedida.

Em suma: há que melhorar a Performance de um clube fora das quatro linhas.

Em boa verdade, e de um ponto de vista sistémico, é preciso planear todos os passos e variáveis que possam, mesmo de forma indireta, influenciar a efetivação do potencial dos reforços adquiridos, traduzindo-se no desempenho de quem chega e na elevação do funcionamento da Equipa.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)