Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Ano Novo, vida nova? Nem tanto

Ana Bispo Ramires

Partilhar

Por altura da transição de ano multiplicam-se os votos, enumeram-se desejos, estabelecem-se metas e desafios que se acredita poderem trazer maior felicidade (seja lá o que isto for, na subjetividade de cada indivíduo).

De alguma forma, uma gigante onda de “otimismo” e desafio parece banhar a generalidade das pessoas, que se dedicam, por isso, a ensaios vários sobre as concretizações que gostariam de alcançar no ano que se inicia.

Muito frequentemente, pelo início de Fevereiro (já com algum nível de otimismo), a maioria deles foram já abandonados ou esquecidos.

Saber desejar

Em boa verdade, uma das questões que mais nos caracteriza, na atualidade, é um claro prejuízo na nossa capacidade de "desejar" algo e, posteriormente, na materialização desse desejo em ações – aparentemente, passada a euforia da contagem decrescente que nos aproxima do ano novo, toda e qualquer barreira ou obstáculo parece agigantar-se, entrepondo-se entre a vontade que expressámos e as ações que vamos sendo capazes de manter. Tudo também, parece mais interessante do que nos mantermos fiéis ao objetivo que traçamos.

Passar do DESEJO à MATERIALIZAÇÃO é, em si, um processo bastante complexo na medida que que nos exige saber reconhecer algo que gostaríamos (distinguindo-o de tantas outras possibilidades), definir um plano, implementá-lo, perceber que foi um mau plano, reformular, voltar a implementar, gerir frustração... continuar a desejar – assim, rapidamente, exige um profundo conhecimento de nós próprios, tempo, dedicação e capacidade de resistência à frustração (sabendo comemorar os pequenos êxitos que, se estivermos atento, saberemos identificar no decorrer do processo).

A uma questão que nem sempre é fácil saber dar resposta (o que gostaria de alcançar?) é cada vez menos frequente encontrarmos pessoas que sabem claramente o que valorizam e qual o seu projeto a médio-longo termo – a principal razão prende-se com o facto de estarmos todos muito mais voltados para a experienciação de emoções positivas no imediato (já alvo de reflexão aqui no artigo sobre a felicidade), do que em permanecer na incerteza e, por vezes, frustração, associada a uma meta a médio-termo.

Mesmo tendo ao nosso dispor um sem número de ferramentas de "auto-superação" (seja em livros, vídeos ou formação presencial, entre outras), na realidade a nossa maior "competência", e sem qualquer necessidade de aprendizagem voluntária e consciente, continua a ser em estratégias de auto-boicote.

O que nos traz, efetivamente, um imenso desafio pois, quase sempre, as nossas maiores concretizações encontram-se para lá dos nossos medos e bloqueios.

Solução?

Várias.

Deixar de estar “refém” das modas da superação, da felicidade e dos lemas “yes you can” é sempre um bom princípio – todos eles se transformam, muito rapidamente, numa gigantesca e incontornável onda de frustração que, a muito curto prazo, nos toldam o discernimento e a capacidade de reação.

Mais. Muito frequentemente se transformam em mecanismos de culpa pois “eu deveria ser capaz” de o fazer.

Não, não deveria – ninguém “deve” e, infelizmente, muitos dos que exibem este tipo de “competência”, na realidade, apenas a ensaiam para o exterior, tal qual de uma performance coreográfica se tratasse.

Entenda-se: o propósito da superação, da felicidade e da confiança em nós próprios para alcançarmos o que desejamos não está, de todo, errado – a forma como anda a ser “comercializado”, sim.

Crescer, amadurecer, ganhar maturidade, evoluir, desenvolver – use-se a expressão que se quiser não é um processo nem breve, nem leve, nem fluido... e muito menos “feliz”.

É sim um caminho onde se escolhe escolher, onde se erra e se acolhe o erro, onde se frustra, se pede desculpa, se ri e chora - onde se esfola os joelhos como se estivesse a aprender andar de bicicleta... onde se cai e se levanta para tentar de novo.

É um caminho longo, onde todas as emoções são bem-vindas (as que “gostamos” e não gostamos) pois todas elas transportam verdade – a nossa.

Desafio

Possivelmente, uma das melhores formas (haverá várias, certamente), será definir as “ferramentas” que queremos adquirir e não os objetivos que queremos alcançar – será focar no processo de evolução e não no resultado.

Importa também, ter a noção (e aceitar) que virão momentos e emoções difíceis que deveremos saber “olhar” e compreender, sem qualquer rasgo de evitamento pois, muito frequentemente, são elas que transportam a “solução” para o nosso “auto-boicote”.

Sem urgências de felicidade, seremos certamente mais capazes de a viver.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)