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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Sérgio Conceição, Rui Vitória e o futebol português unidos pela mesma causa

Combater a violência no desporto parte de cada um dos intervenientes, como demonstra o ex-árbitro Duarte Gomes, num texto e num vídeo que vale a pena ver, rever e partilhar

Duarte Gomes

Rui Vitória, treinador do Benfica, e Sérgio Conceição, treinador do FC Porto

SOPA Images

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Há cerca de dois meses comecei a esboçar uma ideia mais ou menos ambiciosa.

A de criar um movimento que pudesse, de algum modo, influenciar positivamente o comportamento das pessoas. Das pessoas que vão e que estão no desporto.

A ideia partiu do nada mas cedo ganhou contornos sorridentes.

Pedi a várias personalidades do mundo do futebol (de entre jogadores no ativo e ex-jogadores, árbitros, treinadores, jornalistas e comentadores desportivos) que me enviassem uma mensagem de vídeo.

Uma mensagem curta, simples e informal, que tocasse no coração de cada um de nós.

Uma mensagem genuína e sentida, que apelasse ao fim das agressões (em particular as mais frequentes, cometidas sobre jovens árbitros) e a um maior respeito pelo jogo que todos gostamos.

A aceitação de todos foi tão positiva quanto supreendente.

É preciso não esquecer que o futebol gera emoções fortes e depende de demasiadas variáveis. Tem a capacidade rara de levar o ser humano ao seu limite máximo, num curto espaço de tempo.

Amor e raiva, alegria e tristeza, exaltação e frustração... tudo em meia dúzia de minutos absorventes, perturbadores, inesquecíveis.

Mas o certo é que, à distância, a frio e racionalmente, todos aqueles a quem lancei este desafio (todos sem exceção), disseram: "Sim, conta comigo!".

Mostraram, com essa abertura de espírito, o seu caráter e coragem e, sobretudo, a sua humildade em reconhecer que conhecem os limites. Os limites que nunca podem nem devem ser ultrapassados.

O produto final - um pequeno filme, com pouco mais de cinco minutos de duração - está já online e disponível para ser visto por quem quiser inspirar-se (pode vê-lo no final deste texto). Por quem quiser ver, no desporto, aquilo que ele deve ser sempre: um espetáculo entusiasmante, que é jogado, arbitrado, treinado e dirigido por pessoas.

Pessoas que dão o seu melhor, a cada momento, a cada instante, a cada segundo. Pessoas que sabem (e nunca podem esquecer) a responsabilidade que carregam sobre os ombros, enquanto modelo de conduta para os outros.

"Practice what you preach"... certo?

Vladimir Rys

A reação global de quem já o viu é elucidativa e reafirma que este é, de facto, o único caminho possível.

Enquanto uns elogiaram a iniciativa e a generosidade da sua mensagem, outros (diria, demasiados) focaram em aspetos menores e acessórios.

Por isso, caiu uma verdadeira tempestade nas costas deste vosso cronista. Não faltaram as habituais mensagens enraivecidas, as demagogas lições de moral e os ataques pessoais do costume.

Nesta coisa de mandar bitaites de sofá, com uma mini numa mão e uns tremoços noutra, não há gente como a gente.

Seria frustrante se não fosse expetável. Seria angustiante se não fosse habitual. Mas como é sempre assim, não faz mal.
Rimou e tudo.

Adoro o meu país e tenho orgulho tremendo em tanta coisa boa que produz e tem para oferecer, mas bolas... temos coisinhas tão pequeninas que até dá vergonha alheia.

Dizem que há meia dúzia de ideias que definem bem este padrão folclórico, este tipo de comportamento social: falta de educação, falta de cultura, falta de inteligência, falta de sensibilidade, falta de tato, falta de humanismo, falta de altruísmo, falta de valores, falta de sensatez.

Eu diria, aqui e ali... falta de quase tudo.

Apesar das pedrinhas na calçada - mal menor que só reafirma o acerto de uma causa maior - a coisa lá avançou mas, estejamos cientes, nenhuma iniciativa desta natureza mudará, só por si, o rumo preocupante que a situação está a tomar:

- A violência no desporto (no futebol, em particular) continuará a existir; mais árbitros serão agredidos; vários serão hospitalizados; alguns serão submetidos a cirurgias; muitos abandonarão; e o filtro dos que cá ficarem será feito pela preservação da quantidade e não pela premissa da qualidade.

Tudo mal, tudo errado, tudo ao contrário.

Embora esteja ciente que este é um fenónemo com raízes profundas, de solução complexa, que dificilmente se erradicará de um dia para outro (ninguém consegue evitar que um doido seja doido), a verdade é que, se houver convergência de energias, as coisas podem ser minimizadas. Controladas. Diminuídas.

Mas o sentimento que, hoje, todos temos é que ainda não há energia suficiente para convergir as coisas.

Até que isso aconteça, a minha - a nossa - escolha é muito simples: não fazer nada ou tentar fazer alguma coisa.

Eu escolho a segunda.

Vejam o vídeo. Partilhem-no. Muito. Muitas vezes.

Por cada cem pessoas que o vejam, se calhar haverá uma ou duas que se inspirem e deixem de arremessar a tal pedra, de dar o tal soco ou de desferir o tal pontapé.

Tenhamos fé. Dizem que move montanhas.

Nota final: o meu sincero agredecimento à disponibilidade mostrada pelos jogadores João Meira, Hélder Barbosa, Peçanha, André André, Nélson Lenho, Costinha, Edinho, Bracalli e Beto;

Aos ex-jogadores Nuno Gomes, Chainho e Jorge Andrade;

Aos árbitros Sophia Rosa e Vítor Ferreira;

Aos treinadores Francisco Chaló, Vasco Seabra, Sérgio Conceição, Carlos Carvalhal, Costinha, Rui Vitória, José Gomes, Luís Castro e Daúto Faquirá;

Ao craque do futsal, João Matos;

E aos meus "companheiros de bancada" Paulo Garcia (jornalista) e Paulo Andrade, José Guilherme Aguiar e Rui Gomes da Silva (comentadores/adeptos).

Um agradecimento também ao CA da FPF e às estruturas profissionais de todos os clubes aqui representados, que de imediato se disponibilizaram a colaborar nesta iniciativa. Sem restrições, sem obstáculos, sem condições.

Um último agradecimento à excelencia do trabalho de edição do meu amigo Luis Gonçalves e aos jogadores Raúl Silva, José Castro, Marco Fortes e Ricardo Costa, ao Diretor Desportivo Carlos Carneiro e ao técnico Marco Silva (Everton), que também responderam afirmativamente a este repto e apenas por motivos incontornáveis acabaram por não participar ativamente nesta ação.