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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Os casos cada vez mais injustos para os árbitros (Duarte Gomes explica os foras de jogo, as expulsões e os penáltis da 15ª jornada da Liga)

O ex-árbitro Duarte Gomes analisa os casos mais duvidosos da 15ª jornada da Liga portuguesa, incluindo um penálti que foi apitado mas acabou por não ser marcado

Duarte Gomes

MIGUEL RIOPA/Getty

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O início do ano não impediu a realização de mais uma jornada da Liga NOS, desta vez a meio da semana.

Os jogos de FC Porto, Benfica e Sporting - aqueles sobre os quais incidem todos os holofotes - ofereceram vários lances de análise muito interessante, (quase) todos subjetivos e/ou de escrutínio televisivo apertado.

Isso, só por si, sublinha a enorme dificuldade que as equipas de arbitragem terão sentido em campo. É cada vez mais injusto, para o árbitro, o papel de quem tem que comentar e debruçar-se sobre as suas atuações.

Por isso, é cada vez mais importante tentar fazê-lo com sentido construtivo, didático e pedagógico.

Exemplo flagrante foi a primeira parte do jogo de ontem, na Vila das Aves, entre Aves e FC Porto.

O árbitro assistente que acompanhou, nesse período, o ataque do FC Porto teve muito, mas mesmo muito trabalho e o certo é que, em campo e face ao que estipulam as regras, tomou sempre a melhor decisão. Vejamos:

- Marega cruzou para Soares que estava ligeiramente adiantado no terreno. Golo bem anulado, em lance de análise muito complexa;

- Mais tarde, Danilo ainda festejou, mas a verdade é que, também aqui, o médio azul e branco estava em posição irregular quando Alex Telles cruzou da esquerda. Outra excelente decisão, em lance difícil;

- Pelo meio, momento (bem) mais complicado, que tentaremos aqui explicar: Filipe cabeceou a bola na direção de Soares, que aparentou estar (milimetricamente) em fora de jogo.

Essa conclusão - na falta de imagens inequívocas - resulta apenas da observação das linhas longitudinais do terreno, que parecem sugerir o adiantamento dos pés/ombro do atacante face ao dos restantes defesas.

A primeira pergunta aqui seria a de saber se o ponta de lança brasileiro tomou ou não parte ativa no jogo. A resposta, neste caso, é mais simples: sim, tomou.

Soares tentou claramente disputar a bola com Ponck, tendo inclusivamente tocado, com o pé direito, na coxa direita daquele.

Partindo então do princípio que o jogador estaria "milimetricamente" adiantado... tecnicamente o lance seria punível com fora de jogo.

A segunda pergunta seria a de saber se o VAR poderia atuar. Bem, teoricamente podia, porque essa interferência ocorreu no lance que resultou em golo. Ou seja, o D. Aves - apesar do corte posterior do central Jorge Filipe, que serviu Éder Militão - nunca esteve de posse de bola, pelo que nunca houve nova jogada. Foi sempre a mesma.

Agora a parte prática e mais importante:

- Como sabemos, o protocolo impõe que o videoárbitro só intervenha quando tem certeza absoluta e inequívoca que o árbitro cometeu "um erro claro e óbvio".

Sejamos sinceros: neste lance, isso não aconteceu.

Uma coisa é nós termos a liberdade de opinar face ao que vemos e intuimos (não estamos sujeitos a restrições protocolares); outra coisa é o "árbitro de sala" garantir, sem margem para qualquer dúvida, que o fora de jogo foi uma evidência inabalável. Não, não foi.

Moral da história: em campo, o árbitro assistente, porque teve dúvidas, decidiu em conformidade; em sala, o VAR - pelo mesmo motivo - também.

Lance "impossível", que a sensatez impede que se rotule.

Em Portimão, no Portimonense-Benfica, o momento mais crítico foi a expulsão de Jonas. No campo prático, importa referir que a consequência seria sempre essa, quer o brasileiro do Benfica visse o vermelho direto (como viu), quer visse o segundo amarelo. Por aí, nada mudaria.

Dito isso e desmontando a jogada à luz das imagens que vimos, ficámos com a convicção que a segunda advertência teria sido a melhor solução:

- Jonas, de facto, levantou o pé com evidente negligência, mas tocou primeiro na bola e só depois acertou, com a bota em posição lateral, no rosto de Ricardo Ferreira. Importa referir que o guarda redes algarvio fizera movimento em sentido contrário, para tentar cortar a bola.

A entrada do avançado do Benfica foi antidesportiva, sem qualquer dúvida, mas não parece ter tido os ingredientes necessários para expulsão direta: malícia, intensidade, velocidade. Não houve tentativa em agredir ou magoar.

O encontro de Alvalade entre Sporting e Belenenses teve demasiadas infrações/cartões e instantes finais (nomeadamente os últimos dez minutos) de confusão, nervos e em que a bola mal rolou. Não foi bonito.

Em jogos assim, é dificil escapar a erros de pormenor, quer no critério técnico/disciplinar, quer na gestão emocional dos atletas.

Mas no único lance mais delicado - ocorrido na área do Sporting - João Capela esteve muito bem: Petrovic encostou em Eduardo, mas não cometeu qualquer infração passível de castigo máximo. Sem penálti.

Nota final para uma decisão interessante, ocorrida na partida entre Santa Clara e Tondela:

- César, defesa dos insulares, tentou cortar, com a mão e sobre a sua linha de golo, remate de Pité. Ainda assim, a bola entrou diretamente na sua baliza.

Num primeiro momento e já com a bola no fundo das redes, o árbitro assinalou pontapé de penálti (o que o obrigaria a invalidar o golo e a exibir o vermelho direto ao açoriano).

Mas depois (e bem) percebeu que, com a bola dentro da baliza, a única decisão - a mais justa para o jogo - seria a de validar o lance e advertir o jogador do Santa Clara, como mandam as regras.

Com essa sensatez, evitou prejudicar a equipa que marcou (podia falhar o castigo máximo) e poupou um cartão vermelho direto (no caso, o defesa não teve sorte, pois viu a segunda advertência).