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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Messiânico, bom, normal, Fellaini? Desmitificando os 13 quilómetros de Bernardo Silva

O treinador Blessing Lumueno desconstrói os argumentos dos que olharam para os números do português do City diante do Liverpool e teceram variados elogios estratosféricos. Blessing diz que foram exagerados e injustificados

Blessing Lumueno

LINDSEY PARNABY

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O Manchester City venceu o Liverpool naquele que foi o pior jogo dos comandados de Guardiola contra a equipa de Klopp desde que ambos se juntaram à Premier League. E houve no jogo um dado que impulsionou a histeria colectiva um pouco por todo lado como forma de elogiar a exibição do Bernardo Silva: os quilómetros que percorreu nesse jogo.

Ora, estes foram utilizados de forma unânime por todos para catalogar como estratosférica a performance do médio ofensivo português. Normalmente, a histeria costuma ecoar mas vai encontrando sempre um ou outro foco de resistência, e creio que não houve atritos por se tratar de um jogador tão querido e tão unânime em Portugal – agora que os treinadores apostam nele.

Foram três os argumentos mais utilizados para justificar o elogio à exibição:

1) Que a distância percorrida mostrava que Bernardo tem competências táticas extraordinárias, porque conseguiu estar sempre no sítio certo, à hora exacta.

2) Que o Bernardo mostrou uma capacidade de adaptação fantástica às incidências do jogo.

3) Que o Bernardo estava a desfazer o mito que os criativos não têm intensidade, e que afinal – por ser um mito – podem jogar no meio campo.

Sobre o primeiro argumento, é certo que o Bernardo esteve muito concentrado nas tarefas defensivas e mostrou-se sempre disponível para apagar todos os fogos da equipa. E, do ponto de vista defensivo, tendo em conta a forma como o jogo estava a decorrer, ele defendeu bem. Mas pode dizer-se que não defendeu da melhor forma porque não conseguiu transformar as situações defensivas em que ficou com a bola em situações que permitiriam aos seus colegas manter a posse, e dessa forma evitaria estar tantas vezes em registo defensivo. Ainda não foi inventada, no futebol, melhor forma de defender do que manter a bola.

E sobre as competências tácticas do Bernardo, sobre a disponibilidade dele para as tarefas defensivas, quem segue regularmente os jogos dos citizens sabe que não são propriamente uma novidade. No futebol moderno, aliás, são poucos os criativos que não se disponibilizam para tal. Já quase não existe aquele jogador criativo, como antigamente, que só atacava. Claro que, cada um com o foco, por ordem de importância, nas tarefas que cada treinador lhes entrega. Por exemplo, para uns é mais importante o momento de pressão colectiva e a reacção à perda, enquanto para outros há uma exigência enorme na recuperação da posição atrás da linha da bola, ou até na questão de não se deixarem ser ultrapassados pelo adversário que foram pressionar. No Manchester City percebe-se a importância das zonas de pressão, mas mais do que isso dos momentos de reacção à perda de bola. E o Bernardo nunca fugiu desses momentos, e dá sempre um pouco mais do que o expectável por perceber muito bem a importância de recuperar a bola rapidamente para que possam fazer o seu jogo.

O segundo argumento valoriza a adaptação do Bernardo Silva às incidências do jogo, mas esquece que essa valorização desvaloriza-o. Isto é, a melhor característica do Bernardo, aquilo em que ele é extraordinário, aquilo que o distingue da maioria, é precisamente a capacidade de manipular o jogo para que ele e os colegas saiam beneficiados. Ou seja: o que o torna ímpar é ele estar a ser apertado com a bola no ar perto da área e ele conseguir encontrar uma solução para sair com ela controlada dali; É ele estar a ser pressionado e as linhas de passe próximas fechadas e ele brincar com o comportamento pressionante de tal forma que de repente consegue tempo e espaço para ele ou para um colega darem continuidade ao ataque; é o jogo estar numa velocidade e ele meter a sua própria velocidade; é os colegas dispararem na frente e ele meter o passe no pé para atrasar o ataque e dar tempo para que os outros cheguem; É ele não dar uma bola a um colega sem garantir melhores condições do que as que tinha antes do passe; é o não deixar que a aleatório e a arbitrariedade tomem conta do jogo da equipa, e não aceitar de forma alguma dividir o jogo quando é ele que tem a posse de bola. Quando ele tem a bola, manda ele.

É este o Bernardo que eu conheço. E quantos de vocês viram este Bernardo no jogo? Eu não vi. E a falta de discernimento que se notou nele (e em toda a equipa) não terá sido por força dessa adaptação ao contexto, por força de não terem tentado sequer enganar o contexto para fossem iguais a si mesmos? Então, poderá mesmo ser elogiosa essa adaptação ou será o resultado final a dar novamente o ar da sua graça?

O terceiro argumento foi utilizado de forma ingénua por quem quer defender que estes pequenos génios podem jogar em qualquer zona do campo, mas é no meio que são preponderantes. E eu, que me identifico com a ideia, creio que há alguma incoerência na valorização dos dados do Bernardo. Há, em primeiro lugar, o problema do argumento que defende que eles podem jogar no meio ser totalmente alheio à questão da intensidade (expressa na capacidade para correr muitos metros). Isto é: a melhor forma de defender que os criativos devem jogar no meio não é a mostrar que eles também podem correr, mas sim mostrando que eles resolvem melhor a maior parte das situações de jogo que enfrentam do que os outros.

Shaun Botterill

O que os diferencia é a capacidade para jogar dentro dos blocos adversários, a capacidade para criar o que não existe – tempo e espaço. E também quando perdem a bola, a capacidade de criar constrangimentos aos adversários no pouco tempo em que a bola está à sua mercê para que a equipa recupere novamente a posse. E correndo muitos metros, a maior parte é corrida para dar linhas de passe e a velocidade a que o fazem nunca é muito alta. O que estes jogadores provam, quando jogam nesses espaços, é serem melhores que os outros pelo que criam e não pelo que correm. Quando valorizamos o que correm, sem ter em conta o que criaram, estamos a colocá-los no mesmo patamar dos outros. E para isso, o melhor é mesmo jogarem os outros porque são melhores a correr. Afinal, é nisso que se especializaram.

O segundo problema prende-se com a afirmação em si. Ao afirmarmos que por correr treze quilómetros se prova que os criativos têm intensidade estamos a dizer que afinal o Xavi e o Iniesta devem correr todos os jogos para apagar fogos como o Bernardo o fez. E isso é um perigo enorme. Reparem, o Xavi e o Iniesta tinham aquela velocidade e aquela só. A atacar, e a defender: devagar, devagarinho. A velocidade deles era mental. E não precisavam de fazer a quantidade enorme de sprints que o Bernardo ou o Modric fazem para serem os melhores do mundo nas suas posições. E mesmo que o treinador lhes pedisse eles não conseguiriam fazê-lo porque a velocidade deles, o jogo deles, não era essa/e. E se para se ser o melhor do mundo não é preciso fazer-se esses sprints, o que é preciso então?

Aquilo que faltou ao Bernardo neste jogo: discernimento. Aquilo que ele foi perdendo cada vez que corria para pressionar à frente, corria para pressionar atrás, recuperava e jogava o mais longe possível. Aquilo que ele perdeu quando fez passes em profundidade sem ver porque não conseguiu refrear o seu próprio ímpeto. Não é que o Bernardo que não deva correr o que correu se ele o pode fazer, se a equipa necessitar disso. Mas correr mais ou menos não o fará mais apto para jogar no meio campo se com bola ele não quiser ser dominador e jogar um jogo que o torna igual aos iguais.

Outro problema é o da valorização do esforço nos momentos defensivos, por si, como condição suficiente para uma exibição de encher o olho. Como é que algo pode ser fantástico quando a sua principal competência não aparece em jogo? Sim, foi dos melhores (ou talvez o melhor) elementos do City em campo. Mas a exibição da equipa foi tão pobre que a fasquia para o melhor em campo estava muito baixa. E o ter sido o melhor da equipa, tendo em conta o nível de jogo apresentado, não significa que tenha estado tão incrível assim. Correu muito, é certo. E também aceito que tenha corrido bem. Mas quanto é que do discernimento dele foi afectado por isso? É que ficaram todos tão doidos com o que o Bernardo correu, com a forma como pressionou, com a forma como recuperou, que se esqueceram que mais importante do que resolver o problema uma e outra vez era prevenir que o problema se desse tantas vezes. E a única forma extraordinária de o fazer era precisamente parando. Parando o jogo da equipa, parando o ímpeto dos colegas, parando o ímpeto do adversário. O Manchester City e o Bernardo Silva já o fizeram de forma incrível no dérbi de Manchester.

O jogo do Bernardo foi de muita abnegação e entrega aos momentos de esforço, mas na realidade, na maior parte do tempo, não fez mais do que correr e aliviar. Nunca o tinha visto aliviar tantas vezes. Não há um único lance, com bola, distinto. Não há um único toque de génio, daquele génio que faz com que o comparem ao melhor jogador de sempre: Messi. Nem sequer no critério com bola, no acerto nas decisões e no passe conseguiu ser o jogador que é. Ter sido o Bernardo a correr estes treze quilómetros não o distingue de nada, nem de ninguém, porque fez um jogo que qualquer jogador cem vezes menos talentoso poderia ter feito. Isso não faz dele melhor, ou mais apto; mão faz dele fantástico. Aliás, o que fez ele de tão bom que o nosso querido Fellaini não seria capaz de fazer?

Deixo-vos com essa reflexão.