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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O apelo de Duarte Gomes: leia esta reflexão sobre o futebol português apenas quando se sentir emocionalmente disponível

Ano novo, futebol novo? Mais ou menos, explica Duarte Gomes: "São as pessoas que devem servir o futebol. Não o contrário, nunca o contrário"

Duarte Gomes

MIGUEL RIOPA

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Ano novo e, sim... vida nova! Certo?

Prepare-se. Segue-se reflexão romântica e apelo idealista. Se está em modo "pragmático", faça-me um favor: não leia este artigo agora.

Guarde-o. Passe os olhos mais tarde, quando se sentir emocionalmente disponível. Já vai perceber porquê.

Dizem que as palavras são instrumentos poderosos, em determinado contexto e a dado momento. Confesso, concordo em absoluto.

Um dos parágrafos do prefácio que Ricardo Araújo Pereira escreveu num dos livros da Sandra Duarte Tavares dizia quase tudo:

"Faço com palavras tudo o que é importante. Por exemplo, se quero que uma pessoa saiba que gosto dela, recorro mais depressa a palavras do que, digamos, a beijos”.

As minhas palavras de hoje são, essencialmente, de vontade. Vontade em ver o futebol manter muitas coisas boas e vontade em vê-lo mudar muitas outras, menos positivas.

Comecemos pelo princípio.

Sou um homem que vive e respira desporto, dos pés à cabeça. Comecei a carreira na arbitragem em 1991 (sou menos jovem do que o jovem que sinto ser), mas antes disso já dava uns pontapés na bola, convencido que tinha pinta para a coisa.

John Walton - EMPICS

Obviamente... não tinha. Por isso, desisti do sonho de jogar, mas não do sonho de continuar ligado a esse mundo. E assim foi, assim é, até aos dias de hoje. Até 2019.

O arranque do novo ano fez soar, de novo, o velho alarme psicológico que todos tememos: o de sentirmos que o tempo começa a escassear.

A cada momento que passa, encurta. Foge. Escapa pelos dedos.

Falta menos para criarmos mais. Para tentarmos o impossível. Para deixarmos obra feita.

E essa verdade, inevitável e bem maior do que nós, ganha outra força quando o calendário vira. Quando um ano morre para que outro nasça.

Isso devia ser suficiente a levar-nos a uma reflexão maior. Devia inspirar-nos.

Afinal de contas, o que é que andamos cá a fazer? Que legado queremos deixar para os nossos filhos? E como queremos ser recordados pelos outros?


Para quem está no mundo do futebol, essa pergunta faz sentido redobrado. Triplicado até. É que a indústria cresceu tanto, mas tanto que hoje é um monstro de dimensão incalculável.

Só em Portugal existem cerca de duzentos mil praticantes federados. Significa isso que, para além de tantos outros (amadores), há milhares e milhares de pessoas ligadas a este universo. E há muitas mais que trabalham e subsistem nele. Através dele. Por via dele.


É colossal! Um mundo dentro do mundo. Um mundo que afeta tanta gente e tantos setores de atividade.

Um mundo anormalmente portentoso.

Quem hoje tem responsabilidade direta nesta atividade deve questionar-se sobre o seguinte: como é que se consegue converter tanta força em algo ainda mais robusto, bonito e transparente?

A resposta exige que se tenha noção clara da realidade atual e dos desafios que esta apresenta. Três exemplos:

1.Temos uma estrutura nacional que é tida (com inteira justiça) com uma das grandes referências mundiais em matéria de profissionalismo e competência. Produzimos resultados individuais invejáveis (muitos), que refletem a excelência do trabalho feito por muita gente capaz.

No entanto e quase sempre, o jogador português prefere abandonar o seu país, o seu conforto e as suas raízes, para abraçar projetos noutras paragens. Porquê? Como convencê-lo a ficar? Como inverter essa lógica perversa, de criar com estima para os outros levarem com dinheiro? Como evitar essa sangria, que enche os cofres de quem cuida mas esvazia a competição de quem fica?

2. As nossas conquistas coletivas são igualmente admiráveis, sobretudo em anos recentes. Para nosso enorme orgulho, nosso enorme orgulho.

Dan Mullan

No entanto, o fosso entre o nosso principal campeonato e os respetivos "homólogos europeus" é cada vez maior. Além da questão de (não) conseguirmos reter as jóias mais preciosas, que outras medidas deviam ser tomadas no sentido de encurtar distâncias? O que se pode fazer para não perder este comboio, fundamental para a qualidade competitiva e saúde económica do nosso futebol? Se produzimos matéria-prima de qualidade e somamos pontos em tantas áreas, o que é que nos falta para sermos tão fortes como os outros? Que têm eles que não temos nós?!?

3. Quando quer unir-se, o futebol português é fantástico e, de facto, não há gente como a gente. Cria ações de solidariedade, envolve tudo e todos e mostra ao mundo todo a sua verdadeira dimensão ética. O seu lado mais altruísta.

No entanto, aos olhos de quem está cá dentro mas de fora, essa parece ser a exceção e não a regra. Porquê? Porque é que há essa sensação permanente? Que desvario bipolar é esse que leva pessoas capazes do melhor a se mascararem do pior? Que forças tão feias se levantam ao ponto de desvirtuar a essência da decência humana? Será a vontade de vencer, a todo o custo? Será sede de poder? Serão motivações financeiras? Ou um pouco de cada ?

Seja o que for, não é bonito de se ver.

Entre estas e tantas outras verdades do momento atual - não necessariamente negro mas tão capaz de ser melhor - há a tal questão de fundo. A do tempo.

Tic, tac. Tic, tac.

Cada momento do presente é, no instante seguido, passado. E quem agora tem tudo nas mãos deve saber aproveitar cada segundo para fazer ainda mais e melhor. Para tentar o impossível. Para honrar a camisola que veste e encher a consciência de orgulho e admiração.

Há que ter resiliência para preservar tudo o que de bom se construíu e coragem, muita coragem para afastar as pessoas erradas e as estratégias falhadas.

O futebol será cada vez melhor se tiver pessoas com essa virtuosidade. Se conseguir que cada uma delas abandone o "eu" para priorizar o "nós".

São as pessoas que devem servir o futebol. Não o contrário, nunca o contrário.