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Acordei aos 66 anos numa realidade desportiva diferente da atual

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Ricardo Andorinho, diretor financeiro e controller da Federação de Andebol de Portugal

Ricardo Andorinho

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Acordei aos 66 anos numa realidade desportiva diferente da atual. O Desportista e o seu valor eram reconhecidos no país pelo mérito desportivo. Esse valor, construído e cultivado pelo sistema desportivo nacional, resultaria de uma fábrica de competência e seria “utilizado” orgulhosamente pelo país como estandarte social e setorial, paralelamente a outras áreas, como a literatura ou a música.

Nessa realidade eram claras e transparentes as modalidades e os formatos em que os desportistas das mais diversas realidades sociais se poderiam inscrever, e sobretudo cuidar essa oferta para os jovens e para os mais idosos. Com regras claras, patrocinadas pelo Governo como principal interessado em servir a sociedade portuguesa de uma forma mais consciente e eficiente.

Os Media sabiam sobre Desporto e Cultura Desportiva, e competiam pela visibilidade dos seus canais pela técnica, com competência, e pelo conhecimento gerado a partir da especialidade das modalidades que acompanhavam, e não pela criminalidade e pela investigação policial.

O Desportista conseguia ver um caminho, ver que percurso seguir, perceber que fazia todo o sentido continuar a praticar desporto, o seu desporto, independentemente de ter conseguido ser campeão do mundo, ou somente utilizado o desporto como fonte de vida e de bem estar. Conhecíamos o valor do desporto na sociedade portuguesa e o seu contributo para a atividade económica do país.

Nessa realidade, 60% da população portuguesa praticava desporto, tinha duplicado o número de entidades gestoras e/ou produtoras de atividade desportiva, sabíamos exatamente os números de atletas olímpicos, paralímpicos, federados, não federados, masculinos e femininos, em qualquer prática desportiva, mais social ou mais competitiva, conhecíamos a atividade económica gerada pelo suporte às atividades desportivas, à recuperação de lesões, ao investimento da sociedade em Desporto.

Conhecendo a importância do desporto na atividade económica do país era fácil negociar com o Ministério das Finanças, Autoridade Tributária ou a Inspeção Geral de Finanças, porque todos conheciam as regras do jogo e o peso do desporto na Economia, poderíamos deixar de jogar ao jogo do gato e do rato e concentrarmo-nos naquilo que cada "entidade" desportiva sabe fazer: o atleta é competir, o treinador é treinar, o árbitro é regular o jogo e os organizadores é realizarem eventos.

Phil Cole

Voltei à nossa realidade, em que faltam cultura e ética desportivas à sociedade portuguesa e volto a encontrar:

* 69% da população portuguesa não pratica desporto

* PORTUGAL começou a ser identificado no mundo contemporâneo apenas com Cristiano Ronaldo

* Em Portugal existem cerca de 25 mil entidades que "produzem” desporto

* PORTUGAL não sabe quantos praticantes desportivos tem (estimam-se cerca de 700.000 federados e 2,100,000 praticantes desportivos não federados)

* No triénio 2010-2012 (números não atualizados pelo INE desde então, e claramente sub-avaliados) a atividade desportiva do país contribuiu em média com 1,2% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) e 1,4% do Emprego criado

* Os números do Turismo nacional englobam o turismo Desportivo, sem que o Desporto reivindique essa enorme fatia do seu peso na Economia

Voltei a acordar aos 42, mas continuarei a lutar para que aos meus 66 anos seja muito melhor praticar desporto do que aquilo que é hoje.