Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Pode alguém ser quem não é? (Carlos Daniel e a importância da identidade tática de um treinador)

Depois da saída de Rui Vitória do Benfica (e de José Peseiro do Sporting e de José Mourinho do Manchester United), o jornalista Carlos Daniel escreve sobre a importância da identidade tática de um treinador

Carlos Daniel

Rui Vitória e José Peseiro, ex-treinadores de Benfica e Sporting, respetivamente

PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY

Partilhar

A pergunta está num dos estribilhos repetidos muito típicos das canções de Sérgio Godinho e ocorre-me vezes inúmeras a pretextos vários. A propósito de futebol e treinadores, lanço recorrentemente a pergunta em grupos de amigos: o que é que um treinador treina melhor? A resposta que busco ninguém a dá, de tão básica e absurda na aparência: é aquilo que sabe treinar. Mas é mesmo assim. Os argentinos ensinaram-nos há décadas que ambos podem ter sido campeões do mundo mas Menotti é uma coisa e Bilardo outra distinta, dividindo o mundo das ideias de jogo entre menottistas, falangistas do futebol-poema, e bilardistas, seguidores do que eufemisticamente chamamos pragmatismo. Não se peça a Guardiola que entregue a iniciativa de uma partida, não se reclame a Klopp que procure a pausa como regra, não se exija a Simeone que jogue no risco de uma defesa adiantada. E, todavia, todos são indiscutivelmente competentes. Pode alguém ser quem não é?

São muitas as circunstâncias em que se reclama de um treinador que promova a mudança, altere o sistema, troque jogadores, no limite “faça qualquer coisa”. Raramente se lhe coloca a pergunta anterior: será ele capaz de mudar? Conhecerá outro caminho e acreditará nele? O futebol pode ser apenas o exemplo mais fácil de tirar do bolso, porque recorrente desbloqueador de conversa, seja num elevador ou num táxi. Mas sugerir a um treinador que mude simplesmente não será muito diferente do que reclamar de um prosador que se torne poeta só porque lhe saiu mal o último romance, ou sugerir a um reputado ortopedista que quando farto de cirurgias longas e sangrentas passe a corrigir cataratas a laser.

A reflexão surge a pretexto da saída de Rui Vitória do Benfica, mas poderia ter ocorrido quando Peseiro deixou o Sporting, Mourinho o Manchester United ou Lopetegui o Real Madrid. O essencial da relação de um treinador com um clube estabelece-se no momento em que se celebra o contrato, como o bom negócio de uma habitação está, por regra, mais ligado ao momento da compra do que ao da venda. Mesmo quando um clube cede um treinador e recebe dinheiro por isso, o mérito fundamental está no momento em que optou por ele, antes que outros lhe percebessem todas as competências. Aristóteles dizia há uns dois mil e quinhentos anos que “o segredo do sucesso é saber algo que mais ninguém sabe”.

Pergunta seguinte: o que se pode saber de um treinador na hora de o contratar, se os currículos são públicos mas não falam, se há registos de resultados e trajetos mas não de convicções? Há anos que repito ser a escolha do treinador o momento mais determinante para aproximar do sucesso um clube ou uma SAD. Não duvido, por exemplo, que a opção por Sérgio Conceição foi decisiva para os dias felizes que vive o Futebol Clube do Porto. E foi muito mais que pelas competências técnicas, de pensar jogo e treino, do que pelas mais óbvias, de personalidade do técnico ou percurso anterior no clube. Acredito muito mais, sobretudo a prazo, na força de uma proposta de jogo do que em promessas de mentalidade ganhadora. A liderança só se percebe no contraste com a realidade. Quantos já lidámos com pessoas de liderança cantada e que vieram a revelar-se desilusões absolutas? Quando se contrata um treinador não há entrevista que lhe avalie definitivamente o carácter, já a proposta de jogo (e de treino, que a coisa não se desliga) pode ser esmiuçada como os sufrágios dos Gato Fedorento.

O FC Porto de Sérgio Conceição foi campeão nacional em 2017/18

O FC Porto de Sérgio Conceição foi campeão nacional em 2017/18

Gualter Fatia/Getty

Resumidamente, pode jogar-se seguindo três grandes caminhos: assumindo o jogo com bola (bons exemplos são Manchester City, Chelsea ou Shakhtar), procurando um futebol ofensivo mais direto, mais vertical do que horizontal, feito de duelos e acelerações sucessivas (Liverpool na Europa, Porto à escala portuguesa), ou privilegiando a organização defensiva com aposta no contra-ataque (Atlético de Madrid ou várias seleções quando em competições de duração curta e risco grande). E, muito importante, pode sempre jogar-se bem ou mal dentro de cada um desses caminhos, por haver uma infinidade de formas para construir cada “jogar”, sempre operacionalizado (palavra da moda mas que só neste contexto faz sentido) a partir do treinar. No treino constrói-se o jogo, no jogo percebe-se o treino. Quem acreditar ainda que uma grande equipa se obtém como um pudim instantâneo, juntando bons jogadores a um treinador com capacidade para gerir emoções, de duas uma: ou vive ainda no futebol do século XX ou acredita que o Real Madrid pode ser replicado como um franchise barato.

A propósito, em Madrid questiona-se hoje a estratégia do presidente Florentino, que tem valido Champions em série mas que só rendeu dois títulos espanhóis nas últimas 10 Ligas — contra sete do rival Barcelona —, ao ponto de quase se desejar mais um sucesso interno do que um quarto exemplar seguido da orelhuda taça europeia. O Bayern de Munique, comprador de todos os talentos alemães e gordo de seis títulos seguidos na Bundesliga, vacila após a chegada da ideia sedutora de Lucien Favre a Dortmund. Do mesmo modo se percebeu depressa que o génio de Sarri estava a construir um novo Chelsea, mais competitivo e sedutor, como em Espanha Quique Setién impacta com um futebol de romance que coloca o Betis na rota europeia. Em Portugal há Luís Castro e um Vitória de Guimarães sem estrelas, mas de coletivo trabalhado com critério e à minúcia, como já se lhe vira em Vila do Conde e em Chaves. Com mais tempo, qualquer treinador terá mais condições de mostrar serviço, mas os melhores são os que mostram serviço em pouco tempo.

Não se pode dizer que Rui Vitória falhou no Benfica — que um bicampeão nunca falha definitivamente —, mas sai pela esquerda baixa porque verdadeiramente não foi capaz de construir uma ideia de jogo própria, convicta e eficaz. A equipa foi sempre um misto de herança tática (de Jorge Jesus), talento individual e arte do treinador cessante na gestão do grupo. Deu para títulos nas primeiras épocas, mas percebeu-se cedo que o rendimento coletivo estava em plano inclinado, algo de que as sucessivas carreiras na Europa elucidam sem ambiguidade, mesmo se muitos demoraram a percebê-lo. Para uns quantos, aliás, ainda hoje parece linguagem exótica falar de fragilidade do processo de jogo, mesmo se traduz o mais básico e essencial: a competência coletiva sobre como atuar nos momentos de ataque e defesa (e que estão sempre ligados, que futebol não é andebol). Só em cima da organização tática deve brilhar (e brilha mais) o talento, que a ela se acrescenta, não a precede. Ninguém percorre o caminho certo, por muito sentido de orientação que tenha, sem saber onde quer chegar. O destino pode ser rumo, mas também é fado. Sem rumo definido, é fado triste.

Muitos reclamaram, sobretudo no último par de meses, que Rui Vitória mudasse, na ilusão de que fora a alteração de sistema — de 1-4-4-2 para 1-4-3-3 — na época anterior que lhe valera alguma recuperação de rendimento. Não foi, mas isso agora também não interessa muito. A questão é que não se pode pedir a alguém que faça o que não conhece, não acredita ou simplesmente não aprecia. Nunca o fará bem. Ninguém é quem não é!