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Sim, assumo, sou uma pedra no sapato de muita gente (por Duarte Gomes)

O antigo árbitro, agora comentador da SIC Notícias e da Tribuna Expresso, escreve um manifesto contra a violência no futebol e propõe onze medidas de prevenção para erradicar um problema endémico: as agressões aos juízes do jogo

Duarte Gomes

David Davies - PA Images

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Assumo. Sou uma pedra no sapato.

Não o digo com vaidade (tinha que ser tolinho para achar que causar ferida no pé de alguém é coisa bonita de se ver), mas com consciência e sentido de responsabilidade. Digo-o com a noção de quem se sente determinado em lutar contra a violência no desporto, mesmo sabendo que esse é um papel que tende a incomodar áreas sensíveis deste pequeno grande mundo.

Esses são danos colaterais, iguais a tantos outros que envolvem todos os que se entregam, de corpo e alma, às causas em que acreditam. Faz parte.

A este propósito - o de agarrar este desafio e batalhar por ele - importa deixar aqui duas notas:
A primeira é que esta causa não é minha. Não inventei nada, não criei nada, não sou autor ou fabricante de coisa nenhuma. Esta é a causa de muitas outras pessoas, pessoas boas, com valor e integridade, que lutam há anos contra este flagelo. Esses sim, são os únicos que merecem o nosso elogio.
A segunda é que nunca fui falso moralista ou paladino da justiça. Pelo contrário. Sou, apenas e só, alguém que tem noção das suas enormes limitações e que sabe bem o quão ténue é a linha que separa o equilíbrio emocional da sua escorregadela pontual.

A questão de fundo que hoje aqui se levanta nada tem que ver com reações intempestivas ou com momentos menos felizes que todos nós, mais cedo ou mais tarde, temos. O fenómeno da violência no desporto é bem mais grave do que isso. É bem maior e aterrador. É fisicamente intrusivo e psicologicamente castrador.

Bater e coagir, partir dentes ou mandar para terapia, rachar narizes ou causar ataques de pânico, furar tímpanos ou obrigar a consultas psiquiátricas, enviar para o hospital ou criar ansiedades e fobias – isso sim, é a violência no seu sentido mais lato e medonho.

No seu sentido mais reprovável. No seu sentido real.

É isso que acontece. É isso que, hoje em dia, está a acontecer, vezes a mais, no desporto português.

Sabe quem acompanha muitos destes casos: quem visita miúdos e graúdos em casa ou no hospital, quem conversa com eles e com os seus pais, quem ouve testemunhos e lê relatórios policiais, quem recebe vídeos e vê imagens de bradar aos céus.

Está tudo errado quando se permite que um dos três agentes diretos do jogo seja fisicamente molestado quando cumpre a sua missão. É algo inconcebível, que não pode nem deve acontecer num país como o nosso.

Em Alcochete chamaram-lhe de terrorismo. E aqui e ali, além e acolá... é o quê? Massagem com pedras?

Se é, não pode ser.

Há várias prioridades que têm de ser estabelecidas: perceber a quem cabe a responsabilidade de evitar que isto aconteça; perceber o que pode ser feito para prevenir, antes de acontecer; perceber como penalizar exemplarmente, depois de acontecer.

Para lá chegarmos, há que ser realista: esta é, de facto, uma matéria muito sensível e complexa. Não se resolve num só dia. Mas o sentimento não pode ser de desistência. Esse é, aliás, o mote que nos deve mover a começar. A começar já, porque os relatos crescem e as consequências aumentam.

São dois os raios de ação em que se pode atuar (e também isto está diagnosticado há séculos): o da prevenção e o da sanção.

Um e outro, de braço dado, evitam o problema maior, que mora lá pelo meio.

O primeiro, o mais importante dos dois, deve ser bem planeado. Com critério e estratégia. Com cuidado e atenção. Deve envolver várias entidades, de várias áreas distintas (responsáveis, dirigentes associativos e dos clubes, atletas, árbitros e treinadores, autarquias e poder central, comunicação social, forças de segurança pública, adeptos/pais, etc).

A este nível, o que não faltam são ideias e medidas que poderiam ser implementadas, sem grandes custos ou investimentos.

Vejamos:

– Organizar ações de formação junto das Associações de Futebol, estas junto dos seus clubes e estes junto dos seus adeptos. Todas de caráter obrigatório, porque ensinar valores deve ser uma obrigação para quem tem responsabilidades no desporto;
– Distribuir, por todos os recintos desportivos, flyers e cartazes com mensagens impactantes, que apelem ao entretenimento, prazer pelo jogo e respeito por todos os intervenientes;
– Organizar sessões de sensibilização nacionais e locais, envolvendo ex-jogadores, ex-árbitros, ex- treinadores e, quem sabe, ex-hooligans, agora "arrependidos";
– Lançar campanhas abrangentes que reforcem a importância do fairplay na vida e no desporto;
– Organizar um conjunto de eventos, fóruns, palestras e seminários (nacionais e locais), com convidados-referência, mensagens positivas e exemplos de condutas a seguir;
– Criar formas de envolver e responsabilizar, pela positiva, pais/adeptos na organização de jogos, treinos e viagens das suas equipas;
– Proibir a venda de álcool durante os jogos e a entrada em (todos os) recintos desportivos de pessoas alcoolizadas e/ou notoriamente alteradas;
– Proibir a entrada, em todos os eventos desportivos, de material potencialmente perigoso (como garrafas vidro, etc);
– Organizar convívios regulares entre agentes desportivos e adeptos, de forma a promover o espírito de equipa... da equipa;
– Criar incentivos que premeiem exemplos de boas práticas e de condutas elogiáveis;
– Encontrar soluções que levem à obrigação da presença de policiamento em todos os jogos, tal como acontecia até 2012.

Além destas, tantas, tantas outras.

O que não faltam são maneiras diferentes de tentar a diferença. De fazer qualquer coisa, que sensibilize o adepto a ter a postura que se espera dele. Quando isso acontecer, eles serão os primeiros a condenar os comportamentos impróprios dos outros.

Do outro lado - o do "depois" -, é tudo ainda mais simples. O mais importante e que salta à vista de todos é criar condições legais que permitam o agravamento das sanções criminais e desportivas (quando a culpa recair em agentes do jogo).

Seria também benéfico:
– Sugerir às forças públicas que levantem autos de contra-ordenação a quem for culpado de atitudes de claro incitamento à violência;
– Impedir a entrada, nos treinos e jogos, de adeptos sinalizados/condenados como mal-comportados;
– Expulsão de qualquer associado que tenha condutas claramente condenáveis;
– Sancionar financeira e desportivamente os clubes que se recusem a tomar, podendo, medidas para afastar comportamentos grosseiros dos seus adeptos...

Enfim. É pôr mãos à obra e agarrar nisto agora, porque amanhã faz-se tarde.

Ninguém quer que algo de (mais) grave aconteça... pois não?