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2019 – Odisseia no Desporto

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve João Pedro Maltez, assessor do COP

João Pedro Maltez

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Ainda no rescaldo de um ano que terminou com o tradicional cabaz de Natal em vários setores de atividade, no qual o Desporto também ganhou duas importantes batalhas em matéria fiscal, ainda assim não se pode deixar de recordar que os espetáculos desportivos foram arredados do epicentro dos benefícios fiscais que vieram congratular a luta da cultura na nossa sociedade.

O desporto, como em tudo, tem vários lados e integra uma panóplia incontável de perspetivas, cuja importância é essencial para se mesurar a verdadeira essência da sua realidade. O desporto tem o poder de mudar o mundo, de ser um verdadeiro salva-vidas, mas também consegue ser condutor de violência, dentro e fora dos recintos desportivos. Integra todos os agentes desportivos, desde o atleta, fisioterapeuta, massagista, psicólogo e treinador a qualquer outro técnico de acompanhamento desportivo, anónimos de excelência inigualável, mas também aqueles, que não o sendo, são objeto de mediatismo inusitado. Inclui modalidades individuais e coletivas, cria memórias e património inolvidável, cuja cultura importa fomentar e cultivar, integra um número cada vez maior de missões cobertas com as cores da bandeira nacional, que servem de veículo para milhares de marcas e mercados se alimentarem do espírito e sentimento que aquelas envolvem; abarca ambos os géneros, todas as orientações sexuais, crenças, identidades, raças, etnias, ou sentidos políticos, dos mais novos aos mais velhos, contando sempre com aqueles que alcançam repetidamente os seus mais profundos e complexos objetivos desportivos e com aqueles que, apesar do esforço, ficam aquém das marcas, metas, tempos, pontos ou golos necessários para atingi-los; e, naturalmente, inclui não só o desporto limpo mas também aquilo que não é sequer desporto.

Por toda a riqueza que o desporto oferece, seja ao público em geral, como a todos os entes que circundam o meio com maior proximidade, e que dele beneficiam diretamente, o desporto deve ser convenientemente valorizado e tomado em consideração por quem decide em Portugal. O desporto não deve continuar a ser considerado como “cultura de terceira”, mas sim como cultura, sem distinção, inserida no leque de beneficiários das medidas incentivadoras promovidas pelo Estado. Não deve ser assim considerado, sobretudo, pelo facto de revelar níveis de desenvolvimento tão baixos que colocam o sistema desportivo nacional na cauda da Europa. E, por fim, não deve continuar a ser confundido com uma ou outra modalidade, refém de um sinónimo limitador que em Portugal perdurou e perdura no tempo, em resultado de largos anos de promoção de uma monocultura desportiva.

Pese embora não se esqueça o destaque dado, por algumas capas de jornais, aos feitos obtidos no seio de outras modalidades chamadas menos convencionais, continua a existir um caminho a conquistar na prossecução do equilíbrio mediático entre modalidades desportivas. Está na hora de dar relevância e valor aos atletas nacionais, única e exclusivamente pelos méritos alcançados e pela superação das dificuldades ultrapassadas na obtenção dos seus resultados, e independentemente das modalidades que praticam, sendo imperioso conter a multiplicação de exemplos de casos esquecidos, de mérito desportivo incontornável ignorado, minorados por outros, não raras vezes de valor desportivo residual, que são alvo e foco de atenção mediática, tantas vezes com difícil justificação.

Na era cada vez mais globalizada, o país continua a precisar de alargar horizontes e mostrar novos mundos ao mundo, precisa de promover todo o seu desporto de uma forma transversal, sem discriminação, precisa de mais medalhados olímpicos, mais canoístas campeões da Europa e do Mundo, mais atletas de marcha campeãs da Europa e do Mundo, mais atletas de triplo salto e judocas campeões da Europa, mais tenistas em grande plano no ranking ATP, mais velejadores com recorde de presenças nos Jogos Olímpicos a vestir as cores de Portugal, entre tantos outros e outras nas mais distintas modalidades, que, não só merecem a visibilidade proporcional aos seus feitos, como garantirão mais e melhor desporto português, assegurando, nos fatores críticos do sistema desportivo nacional, um desenvolvimento mais rápido, que nos permitirá ir mais alto, para que, no futuro, e em todas as áreas, Portugal possa ser o mais forte.