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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Bloco baixo, pressão, corredores, engodos, movimentos furiosos, uma bola: o que esperar deste clássico

O treinador Blessing Lumueno faz a antevisão do Benfica - FC Porto desta terça-feira, lançando as bases táticas para uma discussão sobre quem quer/pode fazer o quê no clássico da Taça da Liga

Blessing Lumueno

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Sérgio Conceição tem tido a vantagem de nos clássicos do novo ano ser o treinador com mais tempo de trabalho. Isso faz com que, não havendo tempo para treinar e preparar o jogo de forma adequada, tenha uma vantagem sobre os seus adversários uma vez que tem o seu processo bem trabalhado; a dinâmica da equipa está bem enraizada, e mais facilmente poderá focar-se nos detalhes sem correr o risco de se perder.

Em 2019, é o favorito a vencer todos os clássicos.

E, também por ter o seu estilo de jogo bem identificado, os adversários mais facilmente conseguem perceber quais as dinâmicas e movimentos mais comuns, e que adaptações se fizeram em jogos anteriores contra os “grandes”. Porém, tal conhecimento só será uma vantagem para o adversário na medida em que os jogadores consigam absorver a informação e o detalhe táctico, e as formas de o combater, uma vez que o conhecimento do adversário está lá. Já jogaram tantas vezes uns contra os outros, já os viram tantas vezes jogar, que cada jogador conhece ao pormenor todos os jogadores do adversário.

A estratégia possível de Lage

Poder-se-á esperar de Bruno Lage, que basicamente só tem tido tempo para trabalhar a identidade da equipa e a parte estratégica em vídeo, em conversas com os jogadores, uma equipa com o bloco mais baixo. O Porto é uma equipa menos capaz, e menos competente no jogo que se propõe a jogar quanto menos espaço tiver. Será uma surpresa se apresentar dois extremos puros no onze (Rafa, Zivkovic, Salvio, Cervi), mas seja quem for que jogue como médio ala direito terá um papel fundamental na aproximação a André Almeida para fechar os movimentos de Brahimi.

A evolução do Benfica na parte defensiva tem sido notória, e os jogadores têm compreendido melhor que espaços fechar. Porém, por ser um jogo diferente onde o adversário tem mais poder, tem mais qualidade, há cuidados a ter com determinados espaços que não são tão relevantes assim noutro tipo de jogos.

Isto é, se é fundamental fechar o corredor central e a baliza, contra a equipa de Sérgio Conceição, é também importante não deixar que a bola entre confortavelmente em zona de cruzamento, estando Marega e Soares em simultâneo dentro da área: os movimentos de ambos para atacar a finalização são ferozes. Se é fundamental parar os movimentos entre sectores de Brahimi, também é importante não deixar que, mesmo por fora, ele tenha a possibilidade de ganhar tempo e espaço numa zona próxima da área.

Porque Brahimi é muito inteligente, tem muita qualidade, e sabe aproveitar bem esse espaço para tentar entrar dentro da área. E, não entrando, sabe colocar o Alex Telles em condições de cruzar para os dois monstros que coabitam na frente de ataque portista.

O plano de jogo do Benfica terá que passar por retirar o espaço para os movimentos habituais do Porto e estar o melhor preparado possível para as segundas bolas.

Libertem Félix

Do ponto de vista ofensivo terá que fazer um jogo diferente daquele que o Porto está habituado a enfrentar, e tentar libertar João Félix para criar nos espaços bem evidentes entre a linha média e a linha defensiva portista. Os alas deverão ser capazes de mais do que movimentos rápidos e de transição pelo corredor lateral; deverão provocar por dentro por forma a criar o embaraço, naquela zona, que poucos têm explorado. Com o poder da linha defensiva portista será sempre muito difícil contorná-la naquilo que são as suas melhores qualidades – nos duelos, na velocidade, na força.

Dois médios, três médios?

Sobre a equipa de Sérgio Conceição a maior dúvida que fica é se jogará com três médios, ficando um deles responsável pelos movimentos de aproximação ao corredor lateral e empurrando Marega para o corredor central no momento ofensivo, ou se jogará dentro do seu sistema habitual com dois avançados que partem do corredor central.

Será curioso verificar como é que Sérgio Conceição trabalhou a equipa para enfrentar um adversário que lhe retirará espaço, e que dinâmica preparou para enganar Bruno Lage e criar esse espaço que os seus jogadores tanto precisam. Na fase em que o Benfica está, seria interessante jogar com Brahimi a partir um pouco mais fora mas a trazer o jogo para dentro em condução onde encontraria os movimentos de ruptura de Soares e Marega, ou a possibilidade de remate à baliza.

Neste cenário o Alex Telles teria um papel preponderante, uma vez que os seus movimentos serviriam de engodo para que o médio ala do Benfica tivesse mais preocupações com ele libertando dessa forma mais o Brahimi.

Com a forma como o Benfica tem concentrado os jogadores no corredor central, seria também interessante ver o Porto alternar entre os cruzamentos e as entradas na área para retirar elementos da estrutura defensiva montada para defender a baliza, e assim ganhar espaço e tempo entre os ajustes defensivos para colocar a bola em zonas de finalização.

Sabendo-se que do lado direito o Porto não terá tanta profundidade, também será interessante perceber o que está preparado para romper com Grimaldo, que tem sido um elemento muito explorado por quem ataca a defesa encarnada.

P.S.: esta antevisão reflecte precisamente o maior tempo de trabalho que Sério Conceição tem, o que me torna mais capaz de o descrever e analisar.