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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O futebol pode ser o melhor lugar do mundo, assim o mundo o entenda (como é apitar uma final, por Duarte Gomes)

O antigo árbitro e agora colunista da Tribuna Expresso lamenta nunca ter tido a oportunidade de apitar uma final da Taça da Liga. Mas apitou outras finais e é daí que recupera o que sentiu e o que sentiram os jogadores e os técnicos e o staff antes do jogo derradeiro. Aquele que verdadeiramente decide

Duarte Gomes

O Sporting é o detentor do título, tendo batido o Setúbal em janeiro de 2018. No meio da festa está Frederico Varandas, então médico do clube e agora presidente

Gualter Fatia

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Uma das metas que nunca atingi enquanto árbitro principal, foi a de dirigir uma Final da Taça da Liga. Tive o privilégio de estar presente em muitas outras, felizmente... mas nessa não.

A minha única presença aconteceu enquanto quarto árbitro do Jorge Sousa, num Benfica-Sporting, disputado em tempos que já lá vão, no Estádio do Algarve.

Para quem não sabe - e é normal que, quem está cá fora, não saiba - as finais são, para os árbitros, o mesmo que são para jogadores e treinadores, dirigentes e adeptos: um momento mágico, único na carreira, que se atinge com esforço e que nos enche de orgulho.

São a cereja no topo de um bolo construído com cuidado e dedicação.

Diz-se que os jogos, todos os jogos, maiores ou menores, são importantes e é verdade. São importantes na entrega, na concentração, no foco e respeito pelos intervenientes, na preparação e atitude. Mas a verdade é que o jogo derradeiro, o último dos jogos, aquele que decide quem leva o troféu e quem fica em segundo... tem um sabor diferente.

É impossível não sentir, na pele, o fervilhar de emoções, a atenção mediática, o envolvimento tremendo que rodeia uma grande final.

A adrenalina cresce à medida que se aproxima o dia de todas as decisões. As notícias entram, em catadupa, por casa dentro.

Os onzes prováveis e improváveis, as declarações esperadas e inesperadas, as imagens captadas e gravadas sucedem-se. Hora a hora, minuto a minuto. Invadem o nosso espaço, a nossa privacidade, a nossa hora de lazer. Não pedem autorização nem pedem licença.

Não há como fugir, não há como escapar. Resta aceitar.

Nessa semana, a que antecede o jogo dos jogos, o tempo parece que passa mais devagar. Parece que nunca mais chega o momento de preparar a mala e partir, com a equipa, rumo ao estágio que nos levará ao estádio.

E quando chegamos lá, quando finalmente chegamos lá, percebemos que tudo está diferente.

Há mais gente envolvida, mais staff a trabalhar, mais voluntários a ajudar. Os balneários estão pintados com cores apelativas, que promovem o evento e agigantam a festa. É um espetáculo dentro do próprio espetáculo.

Há, no espaço que sempre conhecemos, um espaço totalmente diferente. É como se nos preparássemos para dirigir um jogo internacional mas em território nacional.

As pessoas estão mais stressadas. Algumas caras sorriem não porque estejam descontraídas, mas porque acham que isso lhes esconde o nervoso miudinho, a ansiedade latente. É giro de ver, de tão fácil que é de perceber.

É normal. É normal ser tudo tão anormal. É normal ser tudo tão especial. São dias e dias de preparação para noventa minutos de ação.

Quando nos cruzamos com atletas, sentimos que estão isolados num mundo só seu. No mundo da crença, da oração, da concentração. Os auscultadores nos ouvidos dão-lhes música no coração. Música que os leva dali para a fora. Para um sítio onde marcam golos e festejam, a cada compasso, a cada batida. A cada disco pedido.

É bonito de ver e tão fácil de entender.

Nós? Nós temos um nome a manter, por isso o ar é o de sempre: aparentemente sisudos, de sorriso controlado e com look profissional. A imagem credibiliza, a postura tranquiliza e a atitude não hostiliza.

Não há que facilitar um milímetro quando um milímetro é o que separa o sucesso do fracasso. Por dentro, bem lá por dentro, somos apenas meninos de sete, oito anos a saborear o primeiro gelado do Verão. Estamos felizes. Estamos eufóricos. Radiantes.

Comedidamente felizes, comedidamente eufóricos, comedidamente radiantes.

As finais são mesmo mágicas. Sabe quem está lá dentro, quem as respira e quem as sente. Sabe quem as vive intensamente. E quem carrega sobre si a responsabilidade de dar o espetáculo, de ser o centro de mesa, de estar no meio de tudo.

O futebol pode ser o melhor lugar do mundo, assim o mundo o entenda. Assim o mundo queira.