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Penáltis: trabalho ou "lotaria"?

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre os penáltis, que decidiram a meia-final da Taça da Liga entre Sporting e Sporting de Braga: serão mesmo uma "lotaria"?

Ana Bispo Ramires

HUGO DELGADO/LUSA

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Por demasiadas vezes na nossa sociedade, tendemos a confundir trabalho, persistência e talento (e a ordem apontada não é por acaso) com o fator ”sorte”. Por demasiadas vezes, ouvimos dizer da sorte que “A”, “B” ou “C” tiveram no emprego que conseguiram ou na promoção que alcançaram... ou se gaba o carro e a casa que têm.

Por demasiadas vezes porque, ingloriamente e de forma descontextualizada, conotamos profissionais dedicados com outros que, por vezes, de facto têm sorte.

O futebol não foge a este fenómeno – e, ontem, Marafona e Renan, também não.

Fora todas as polémicas levantadas pelo jogo e centrando-nos apenas no “mata-mata” dos penáltis, atribuir “sorte” ao facto de dois enormes guarda-redes terem evidenciado um rendimento claramente acima da média é, no mínimo, desconhecimento, ignorância ou desrespeito intencional – quem sabe, por se ter muita dificuldade em lidar com a competência que o outro acaba de evidenciar e, por isso, tendermos a ter a necessidade de o “diminuir” um pouco para o nosso ego poder “suportar” este tipo de evidência.

HUGO DELGADO/EPA

Colocamos em causa o Atleta, o seu treinador de guarda-redes (que, por alguma razão, tem “sorte” nos treinos que escolhe para potenciar as suas qualidades), o treinador principal que, se calhar, por “intuição” calhou escolher o guarda-redes “a” em vez do “b” e todo o staff invisível que, diariamente, trabalha... para ter “sorte”.

Assim é no futebol, no desporto... e na Vida.

Futebol Moderno

Há mais de 20 anos, quando iniciei no futebol, havia já a necessidade identificada de treinar competências específicas em guarda-redes para situações únicas que, em boa verdade, em algumas competições pode determinar arrecadar milhões nos cofres dos clubes ou o título da competição em questão.

Por esta razão, obviamente que no futebol moderno esta é uma preocupação específica que é alvo de trabalho multidisciplinar, com o intuito de elevar as qualidades físicas, técnico-táticas e psicoemocionais de quem remata e de quem defende... em contextos de extraordinária exigência emocional.

Lotaria sim... quando sem qualquer tipo de treino ou trabalho específico, se passa uma “espécie de pata de coelho” quando se entrega a bola ou a baliza a um atleta, sem ter tido qualquer tipo de preparação prévia para a elevação das suas competências, aumentando a probabilidade de sucesso na tarefa.

Sucesso é uma maratona e não uma prova de 100m e, seja em que área de performance for, resulta de trabalho árduo, persistência e, muito frequentemente, de elevados sacrifícios ao nível da vida pessoal e, por isto mesmo, é que nem todos o têm.

A “Sorte” que muitos desejam e ambicionam dá, de facto, muito trabalho.

P.S. Nota 10 para um enorme público que, numa situação de insucesso, soube
posicionar-se do lado dos seus Atletas, do seu Treinador e do seu Clube... como
todos o deveriam fazer.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)