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Desporto, negócio e Olimpismo

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve José Araújo, da Comissão de Arbitragem do COP

José Araújo

A ex-jogadora Ticha Penicheiro (à direita)

Christian Petersen/Getty

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O Basquetebol é um dos mais importantes desportos coletivos olímpicos atuais.

Não só porque atingiu um desenvolvimento à escala mundial muito alto, mas também porque existe um país, Estados Unidos, que tem uma liga chamada NBA e que incluiu mais de 100 superatletas de mais de 40 países de todos os continentes, exportando o seu espetáculo um pouco por todo o universo.

Mas português não há nenhum. Porque somos um país com cada vez menos habitantes e por isso menos mercado ou porque o nosso nível nunca atingiu patamares acima do mediano?

Vamos tentar decifrar.

Quanto ao nível desportivo, a realidade, por muito que nos custe, é que coletivamente somos pouco competitivos. Temos uma seleção masculina que luta para voltar ao grupo A europeu, há vários anos, depois do 9º lugar de Espanha 2007, sem sucesso evidente. Ao nível de clubes há alguns anos que só conseguimos disputar as pré-eliminatórias para a 3ª ou 4ª divisão das competições europeias, longe também do tempo em que Benfica jogava na liga europeia principal de então (anos 90 ainda).

Individualmente é um pouco diferente, pois já tivemos uma grande jogadora, Ticha Penicheiro, campeã da WNBA e largamente premiada, e vários atletas jovens masculinos com algum destaque nas universidades por onde passaram, como Carlos Andrade, por exemplo, e até Betinho Gomes num summer camp/tryout da NBA. Houve ainda Carlos Lisboa, talvez o melhor e mais virtuoso jogador nacional e cujo nível também não foi por eles considerado na altura suficiente para um convite, talvez porque a NBA não era ainda uma liga à escala mundial.

Ora, o tema parece poder assim ser também claramente outro que não só o valor dos nossos atletas, pois a verdade é que esta modalidade olímpica (à semelhança de muito outros) se transformou, tal como a liga NBA, cada vez mais numa grande empresa multinacional, que gere os seus produtos (equipas /empresa com acionistas /donos) da melhor maneira possível, para rentabilizar os seus investimentos. Portugal é um território, pese ter imensos e dedicados adeptos, ter a NBA TV, ter a Sport TV a dar um ou mais jogos por dia, não terá nunca nem dimensão de mercado, nem capacidade financeira para rentabilizar um ou vários jogadores nacionais em uma ou mais equipas com minutos de jogo suficientes que justifiquem a sua contratação.

Claro que há exceções. Bósnia/Herzegovina, Camarões, Letónia, Montenegro, República Democrática do Congo, Bahamas, Geórgia, Haiti, Mali, Senegal, Sudão do Sul, Ucrânia e República Dominicana não serão muito diferentes de nós neste tema de dimensão e mercado, e têm jogadores na NBA. Alguns serão até piores que Portugal, quer a nível competitivo, quer nos fatores atrás referidos mas apareceu sempre um ou mais superatletas de dimensão basquetebolista claramente acima da média e aí o fator foi o valor desportivo sem comparação.

A boa notícia é que agora parece haver uma nova esperança nacional numa Universidade Americana que já esteve 20 vezes na sua história na fase final do famoso March-Madness, com estatísticas e altura acima da média: chama-se Barbosa Queta, nasceu no Barreiro há 19 anos, tem 2,08m, formou-se obviamente no Barreirense e foi para Utah State, já então ligado ao Benfica.

Será desta que vamos furar o princípio económico deste desporto mundial pelo valor desportivo, a verdadeira essência do espírito olimpico?

Na verdade, o mais parecido com o olimpismo neste desporto (e em muitos outros) já só conseguimos talvez encontrar (e nem sempre) nas Universalidades e nas High Schools, por esse mundo fora e, sobretudo, nos EUA, onde jovens atletas, professores, pais, público em geral, uma comunidade inteira vibra e vive à volta dos seus atletas de forma calorosa e verdadeira.

Os Jogos Olímpicos mais vibrantes são os da Juventude, onde as modalidades e atletas estão presentes por gosto e pelo amor ao desporto em si mesmo.

Portugal continua a ser um país onde para o bem e para o mal ainda há muito deste espirito, cabendo a todos nós que adoramos desporto e o olimpismo - não deixando de ignorar e estar atento á realidade que nos rodeia - defende-lo e preservá-lo puro para bem na nossa sociedade e das gerações vindouras.

Nas modalidades olímpicas nem sempre o fator economicista deverá prevalecer sobre a capacidade e gosto dos atletas que se dedicam á sua prática.