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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O que o futebol faz às pessoas (Duarte Gomes admite que as arbitragens das meias-finais da Allianz Cup foram muito infelizes. Mas...)

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve sobre as meias-finais da Taça da Liga e sobre tudo que se passou no pós-jogo(s): "Confunde-se, propositadamente, incompetência com desonestidade. Inexperiência com maldade. Erro com crime"

Duarte Gomes

Carlos Xistra apitou o Benfica-FC Porto para a Taça da Liga

JOSE COELHO/LUSA

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Antes que o título deste texto o faça atirar o primeiro palavrão nesta direção, fica nota prévia, sincera e muito clara: as arbitragens das duas meias-finais da Allianz Cup foram infelizes. Muito infelizes.

Houve falhas evitáveis e erros graves, alguns com influência no resultado. Foi uma jornada dupla de péssima memória e é fundamental que se retirem daí importantes ilações. Para o presente e para o futuro.

Agora vejam, por favor, se entendem este ponto de vista, aqui mais distante e pragmático:

Desde o final do primeiro jogo - e já lá vão três dias - que não se fala de outra coisa.

O país parou porque o árbitro errou.

Discute-se o milímetro pornográfico de um fora de jogo, o tipo de força exercido por um braço sobre umas costas, a intensidade de um contacto, a elasticidade de uma camisola.

O futebol movimenta milhões e os erros dos árbitros têm consequências gigantes. É indiscutível. E por isso é legítimo, totalmente legítimo, que exista indignação, revolta momentânea e vontade em apurar responsabilidades.

Mas há aí um limite que deve ser bem vincado e que raramente é respeitado. O limite que determina onde acaba a crítica técnica feroz e começa o ataque camuflado à idoneidade.

O que tem acontecido esta semana põe a nú o que já todos sabíamos há muito: o futebol é apenas o reflexo maior de uma cultura desportiva menor. As pessoas são mal formadas, mal educadas e mal preparadas.

O que tem acontecido esta semana pode até servir, seguramente, a muita gente... mas seguramente não serve o futebol.

Lances discutíveis, dentro de campo, deram o mote para mais uma guerra de palavras, bem fora dele.

Tudo resvalou, rapidamente, para perseguições deliberadas e ideias de favorecimento ostensivo. Para encomendas premeditadas e manipulações há muito preparadas.

Confunde-se, propositadamente, incompetência com desonestidade. Inexperiência com maldade. Erro com crime.

Lançam-se rumores. Desviam-se atenções. E põe-se quase tudo em causa.

O poder que o futebol tem - ampliado por alguns media, extrapolado por meia dúzia de pontas de lança e exponenciado por vários mensageiros - não é apenas arrepiante.

É perigoso e desumano. É inqualificável.

Num país onde há tanta gente boa e muita coisa a ser bem feita, o futebol continua a ser a montra que revela o lado mais feio, mais escabroso e mais ignóbil do ser humano.

Há aqui exceções relevantes.

Dou de barato a raiva (ainda que excessiva) do adepto comum, que paga e que sofre genuinamente. Que sente cada derrota com angústia profunda e cada vitória com euforia desmedida.

Entendo - até certo ponto e em certa medida - o descontrolo emocional do treinador que deu tudo e do dirigente que perdeu, que se desiludiu, que se frustrou.

Não percebo, não tolero e não respeito reações de pessoas bem formadas, com cargos de responsabilidade, que estão longe das emoções mais efervescentes e que se permitem sentir, em público... tudo o que deviam apenas sentir em privado.

Aí a desilusão não é grande. É estratosférica. É vertiginosa.

Secretários de Estado, presidentes de Associações de Futebol, jornalistas credenciados, comentadores conceituados... e, pasme-se, até árbitros no ativo. Árbitros no ativo!

Uma mão cheia de gente que sabe que não pode falar como pensa.

Uma tristeza. Uma verdadeira tristeza. Uma enorme desilusão.

O futebol não faz das pessoas o que elas não são. Apenas mostra, a espaços, o que elas verdadeiramente são.