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O triunfo da sportinguidade (por Bruno Vieira Amaral)

Após o triunfo na Taça da Liga, Bruno Vieira Amaral fala-nos de um clube ao qual os deuses, nos seus concílios caprichosos, recusam as vitórias fáceis e sem tormentos. Mais do que um mero fornecedor de alegrias e tristezas aos adeptos, o Sporting é uma instituição pensada para quase os matar do coração

Bruno Vieira Amaral

HUGO DELGADO/EPA

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O melhor que se pode dizer do triunfo do Sporting na Taça da Liga é que foi uma vitória à Sporting. O jogo em si foi quase tão paupérrimo como o do campeonato há duas semanas em Alvalade. A diferença é que aqui estava em disputa um troféu e a emoção inerente a esse facto distrai-nos a todos da qualidade do futebol. Uma final, por muito mal jogada que seja, tem um tempero próprio que impede que se torne completamente sensaborona ou soporífera. Paira no ar aquela sensação de que, a qualquer momento, pode acontecer qualquer coisa. Para o Sporting essa coisa é quase sempre um desastre, um acidente, uma tragédia. Nenhum outro clube em Portugal tem esta relação íntima com a desgraça. Se algo pode correr mal é quase certo que é ao Sporting que há de correr mal.

Uma análise às últimas conquistas do Sporting parece desmentir esta ideia. Dos últimos quatro troféus que foram parar às vitrinas de Alvalade, três foram conquistados no desempate por penáltis. Registou-se um único triunfo nos noventa minutos, no primeiro jogo oficial de Jorge Jesus, na célebre Supertaça contra o Benfica. Mas esse foi precisamente o único triunfo sem o código genético leonino: uma vitória relativamente fácil, sem agonia, em que o Sporting foi muito superior ao adversário. Os outros foram triunfos fatídicos, se me é permitido o oxímoro, ou seja, triunfos à Sporting. A vitória na final da Taça de Portugal em 2015, com Marco Silva no banco e Sérgio Conceição a orientar o Braga, foi o epítome de uma vitória à Sporting: a perder por 2-0, com um jogador a menos, os leões conseguiram empatar o jogo, levar a decisão para os penáltis e aí, contra a cultura do fatídico mas nela mergulhado até ao pescoço, triunfar.

MIGUEL RIOPA/Getty

Os triunfos consecutivos na Taça da Liga também transbordam daquilo a que podemos chamar “sportinguidade”. Mais “sportinguidade” só se o Sporting tivesse perdido. No entanto, ganhou e, por incrível que possa parecer num clube perseguido por toda a sorte de azares, com quatro vitórias seguidas nos penáltis. Quando chega a terrível hora de resolver tudo na marca dos onze metros, as nuvens negras que se acumulam sobre o símbolo do leão dissipam-se e o Sporting torna-se uma Alemanha dos clubes. Porém, a “sportinguidade” reside não apenas naquele tipo de decisão, sempre enervante, mas no caminho até essa decisão.

Na segunda parte do jogo de sábado, o Porto foi claramente superior. O meio-campo do Sporting estava de rastos e quem olhasse para os nomes no banco não devia ficar muito animado. Percebeu-se que a melhor hipótese do Sporting era sobreviver aos noventa minutos e tentar deitar as mãos à taça nos penáltis, aproveitando a frustração de um adversário que se sabe superior, mas que é incapaz de dar corpo a essa superioridade. Nesta luta pela sobrevivência (que não foi assim tão desesperada porque, apesar do domínio, o Porto criou poucas ocasiões de golo), sucederam-se os casos clássicos de “sportinguidade”. André Pinto, que estava a jogar no lugar de Mathieu, saiu com o nariz fraturado. Sem grandes alternativas no banco, foi substituído por Petrovic que, poucos minutos depois, também ganhou um nariz cubista. Quando tudo indicava que o jogo tinha entrado numa via de sentido único para os penáltis, mais “sportinguidade”: Renan, herói do jogo contra o Braga, tentou encaixar um remate de Herrera, a bola ressaltou-lhe no peito e ficou ao alcance do avançado do Porto que marcou o golo que, de acordo com este analista de sofá, matava o jogo e a resistência do Sporting.

MIGUEL RIOPA/Getty

Foi então que a “sportinguidade” revelou a sua dimensão mais benigna, a das recuperações improváveis, desta vez com o auxílio do apito invisível (e justo) do VAR. Esses últimos minutos da partida foram completamente dominados pela “sportinguidade”: Bas Dost marcou o penálti, mas se o tivesse falhado isso seria “sportinguidade” (um penálti caído do céu e atirado para as nuvens seria o cúmulo da “sportinguidade” negativa). Raphinha teve uma grande oportunidade de fazer o 2-1, mas, consciente de que isso seria um atentado à “sportinguidade”, falhou. Quando os jogadores se preparavam para fazer aquele trajeto que o defesa inglês Stuart Pearce comparava à última caminhada de um condenado já se sabia que, acontecesse o que acontecesse, a vitória seria sempre da “sportinguidade”.

Perder nos penáltis depois de quarenta e cinco minutos de sobrevivência, dois narizes fraturados, um erro infantil do guarda-redes e um empate pouco menos que milagroso teria sido uma derrota à Sporting, que levaria os adeptos leoninos à costumeira reação do “isto só nos acontece a nós”. Vencer nos penáltis, depois de quarenta e cinco minutos de sobrevivência, dois narizes fraturados, um erro infantil do guarda-redes e um empate pouco menos que milagroso, ainda por cima concluindo uma série quase sobrenatural de seis vitórias consecutivas em desempates por penáltis, foi uma vitória à Sporting, arrancada das profundezas do sofrimento, da desesperança e da cultura do fatídico, uma daquelas coisas que, de facto, só acontecem ao Sporting.

O Sporting é um clube ao qual os deuses, nos seus concílios caprichosos, recusam as vitórias fáceis e sem tormentos. Mais do que um mero fornecedor de alegrias e tristezas aos adeptos, o Sporting é uma instituição pensada para quase os matar do coração. Que agora tenha um presidente-médico, capaz de socorrer sócios nas bancadas, é menos um acaso do que uma necessidade sanitária básica, uma ilustração preciosa de “sportinguidade” que deveria constar dos estatutos do clube.