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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Será possível termos um futebol mais positivo? Tudo, tudo, tudo o que Duarte Gomes gostaria de ver no futebol português está aqui

O que falta fazer? O que falta mudar? Depende de quê? E de quem? Por onde começamos? O ex-árbitro Duarte Gomes responde a todas estas questões num texto esperançoso para o futebol português

Duarte Gomes

O Sporting venceu a Taça da Liga, depois de uma final four com muita polémica

HUGO DELGADO/LUSA

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Olhar para o futebol português é, nos dias de hoje, um exercício de pura bipolaridade. Pelo menos para mim, confesso.

Tanto me puxa o orgulho tremendo do muito que tem de único e brilhante, como a agonia lenta do tanto que tem de feio e dispensável.

Nos dias de hoje, não é fácil pedir ao adepto que olhe apenas para o lado mais belo e radioso do jogo, quando ele é inundado por notícias que o transportam para o seu lado mais feio e cinzento.

Entre o deve e o haver, já ninguém sabe bem se há de rir ou chorar. Se há de acreditar ou perder a fé.

As coisas são como são, mas... será que poderiam ser diferentes?

Será possível termos um futebol mais positivo, com mais coisas boas do que más ou isso é mera utopia? Será que conseguiremos criar um espetáculo que nos dê mais alegrias do que tristezas ou isso é mito urbano? Será que as boas notícias e os bons exemplos serão mais frequentes do que títulos polémicos ou isso é algo inatingível?

Como se chega a esse ponto? O que falta fazer? O que falta mudar? Depende de quê? E de quem? Por onde começamos?

Penso nisto com frequência. E quanto mais penso, mais embruteço.

Gostava que o futebol, em Portugal, mantivesse (e crescesse) em tudo aquilo que tem de melhor. Em tudo o que de excelente já conquistou. Em tudo o que ainda ambicionar concretizar.

E gostava também que fosse substancialmente diferente naquilo que tem de menos apelativo e bonito. Naquilo que tem de mais criticável e censurável.

Queria, por exemplo, que os jogos tivessem mais qualidade e que fossem disputados a ritmo elevado, com intensidade e emoção até ao apito final.

Queria partidas mais equilibradas, com mais talento "Made in Portugal" e com mais tempo útil de jogo. Queria que isso atraísse mais gente aos estádios e mais patrocinadores para as competições.

Queria que todas as equipas tivessem lideranças fortes, movidas pela busca permanente do sucesso. Do seu sucesso. Queria que orientassem a sua prioridade para o que depende de si e não para fora, para o que depende dos outros.

Queria que imperasse a ética, o respeito e o desportivismo. Que houvesse tranquilidade, educação e personalidade. Que houvesse verdade. E que isso abrangesse jogadores e árbitros, treinadores e dirigentes, jornalistas e comentadores.

Queria que os discursos bélicos, irónicos e acusatórios dessem lugar a outros, de maior elevação e dignidade. Que dessem lugar a diálogos frontais, discussões honestas, conversas civilizadas.

Queria que as boas práticas fossem contagiantes e que as menos abonatórias deixassem de proliferar.

Queria que parassem os ataques ferozes, os ataques covardes e os ataques sem sentido. Queria que, em torno do jogo, tudo fosse absolutamente transparente e cristalino. Que tudo fosse claro e insuspeito.

Queria que árbitros, jogadores, treinadores e dirigentes soubessem assumir os seus erros relevantes e reconhecer as suas falhas evitáveis. Queria que o fizessem com responsabilidade, nos momentos adequados, de forma adequada. E queria que fossem aí coerentes e corajosos, determinados e humildes.

Queria que toda a imprensa fosse livre. Verdadeiramente livre. Que equilibrasse, com critério, o dever de informar com a obrigação de sobreviver. Que servisse o interesse público e não o interesse de determinado público. E que se consciencializasse da importância do seu papel na formação de opinião.

Queria que o caráter das pessoas, de todas as pessoas, não dependesse apenas de vitórias ou derrotas, mas da sua estrutura moral. Da sua verticalidade. Da sua integridade.

Queria que o "produto futebol" fosse cada vez mais vendido pela positiva. Que os aspetos bons fossem mais focados do que os maus e que as suas virtudes fossem mais valorizadas do que os seus defeitos.

Queria que não houvesse violência dentro e fora dos estádios.

Queria que os adeptos soubessem usufruir e participar no jogo, sem esquecer que têm o dever de o tornar num espetáculo onde impere a cidadania, a segurança e o respeito à diferença. Sem atitudes racistas, sem xenofobia, sem intolerância.

Queria que houvesse mais controlo emocional em momentos de maior tensão. Que quem é mais relevante percebesse que o seu discurso tem o poder de serenar ou incendiar os ânimos.

Queria que houvesse mais prevenção e maior punição.

Queria que houvesse respeito institucional.

Queria que todos mandassem por igual.

Que não existissem lobbies, influências ou manobras menos éticas. Que não existissem cargos a troco de votos ou favores. Que o poder não fosse do mais forte porque todos deveriam ter a mesma força.

Queria que o vencedor de cada partida fosse aquele que mais a mereceu vencer. Que mais procurou a sua sorte. Que mais trabalhou para chegar à vitória.

Queria que o futebol privilegiasse a meritocracia. Que só os melhores, os mais capazes e qualificados estivessem no topo da pirâmide. A arbitrar e jogar, a treinar e dirigir. A informar e a comentar.

Queria que todos percebessemos que somos co-responsáveis pelo sucesso ou fracasso deste espetáculo. Que ele será sempre aquilo que nós quisermos que seja. E que quanto mais o valorizarmos e defendermos, mais ele crescerá. Mais ele será melhor e evoluído. Mais força terá.

Isso será sempre bom para a indústria, ótimo para a sociedade e excelente para o país. Perfeito para todos nós.

Algo assim, ambicioso mas concretizável, tem que ser um objetivo a atingir, não uma utopia fora de alcance.

Onde os conformados e desistentes vêem lirismo, os resilientes têm que ver um desafio a superar. Ainda que difícil, ainda que "impossível".

Não se rendam. As mudanças acontecem quando todos quisermos que aconteçam.

A História está cheia de bons exemplos.