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O novo dirigismo de Frederico Varandas mais não é do que o velho anti-benfiquismo

Depois de uma vitória na Taça da Liga e do bicampeonato de Inverno, Frederico Varandas terá percebido que a época do Sporting galopava para o triste final do costume. Nisso, revelou inteligência. Como em tantos outros momentos na história do seu clube, só lhe restava uma hipótese para mobilizar as hostes: apelar ao anti-benfiquismo

Vasco Mendonça (Um Azar do Kralj)

Pinto da Costa, Frederico Varandas e Pedro Proença na bancada no Sporting-FC Porto

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Todos sabemos que o futebol português está em pior estado que o nariz do Petrovic. Foi por isso que reagi com muito agrado quando soube que Frederico Varandas se tinha pronunciado sobre aquele que é hoje o seu principal paciente: não, não é o Sporting. É o futebol português. Já muitos tentaram antes dele e não é fácil. Para começar, requer formação e compromisso. A maioria esquiva-se ao juramento de Hipócrates e jura pela sua hipocrisia. Mas não Frederico Varandas, médico de formação, pensei eu.

Se quisermos prolongar um pouco mais esta analogia, e queremos, devemos dizer que, antes de qualquer cura, precisamos de um diagnóstico rigoroso. Mas como lá chegar? Recuo por isso à minha própria formação médica. Dr. House sempre pediu muitos exames e auscultações, mas acima de tudo era uma certa capacidade de distanciamento e sede de compreensão que lhe permitia interepretar os sintomas e ligá-los de forma a chegar às metástases ou, se tivéssemos sorte, um quadro mais benigno. Frederico Varandas mediu a temperatura ao futebol português, viu que fervia, e sem mais demoras prescreveu a terapêutica: um comunicado.

São palavras muito duras as que o presidente do Sporting Clube de Portugal dedica ao dirigismo desportivo. “Vergonha”, “caudilhismo”, “vassalagem”, “condutas promíscuas”, “decadência moral". Mas bom, chega de falar de Pinto da Costa. Ao longo de 4379 caracteres, Frederico Varandas procura antes destruir o dirigismo do Sport Lisboa e Benfica sob o pretexto de ter dois jogos contra eles nos próximos dias.

O tom do texto é quase tão previsível quanto um empate do Sporting numa noite de inverno em Setúbal. Lemos e reconhecemos tudo. Frederico Varandas ordena vocábulos estrategicamente. Quando chegamos a meio, já percebemos que o Sporting é a verdadeira vítima disto tudo e nada mais interessa na vida a não ser o Benfica. Neste último ponto, como sempre, concordamos.

Contexto: depois de uma vitória na Taça da Liga e do bicampeonato de Inverno, Frederico Varandas terá percebido que a época do Sporting galopava para o triste final do costume. Nisso, revelou inteligência. Como em tantos outros momentos na história do seu clube, só lhe restava uma hipótese para mobilizar as hostes: apelar ao anti-benfiquismo. Confirma aliás uma das características deste presidente, injustamente criticado pelos sportinguistas por não dar a devida atenção às modalidades amadoras. Nada mais errado, amigos sportinguistas. Mais uma vez, o Sporting prepara-se para vencer o Nacional do Anti-benfiquismo, ultrapassando na última chicane equipa de terrorismo digital do Futebol Clube do Porto. Aqui está uma derrota de que o Porto não se esconderá. Quando o Sporting ataca o Benfica, o Porto ganha. Quando o Porto ganha ao Benfica, o Sporting cresce e torna-se mais forte. Venha de lá essa guarda de honra.

Repito: o futebol português está num estado lastimável. O Benfica é parte desse problema. Eu revejo-me, em abstracto, em partes do que o presidente do Sporting escreve hoje no jornal oficial do clube. Mas é notável, e revelador, que Frederico Varandas finta meia dúzia de adversários vestidos de encarnado e ignora por completo quaisquer outros atores desta fantochada. Se não acreditam, atentem nesta beleza: "Há um desgaste, uma decadência moral, mas uma decadência e um desnorte também a vários níveis que vaticina o fim de um ciclo no dirigismo. Como em todas as instituições centenárias, há sempre referências, existirá consciência e, mais cedo ou mais tarde, acreditamos que haja um esforço e capacidade de regeneração."

Frederico Varandas diz tudo isto sem se rir, como se tivesse acabado de chegar ao futebol português e tudo estivesse a correr lindamente antes de Luís Filipe Vieira ou Paulo Gonçalves, ou como se outras figuras poluentes não tivessem emergido ou continuassem a perdurar no futebol português. É preciso ser muito cego, ou desonesto. Seria um pouco como censurar Ricardo Salgado e elogiar José Oliveira e Costa. Ambos geriram de forma ruinosa os seus bancos, no entanto, o primeiro ainda se presume inocente, enquanto que o segundo já foi condenado por um tribunal.

São apenas detalhes que em nada impedem Frederico Varandas de prosseguir com a sua lição de moral ao futebol português. Em vez de um incendiário, betinhos que cantam à volta da fogueira. Em vez da verdade desportiva, uma espécie de mentira cuidadosamente passada pelo corretor ortográfico. Em suma, Frederico Varandas critica tudo no Benfica, criticando-se até a si próprio. Uma pessoa mais desconfiada poderia considerar isto mais uma forma de condicionamento em vésperas de derby, mas não, jamais Frederico Varandas cometeria o erro que aponta aos outros.

Não. Isso seria trágico. Signficaria, afinal, que, o novo dirigismo de Frederico Varandas mais não era do que o velho anti-benfiquismo.