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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Não há um adepto, seja de que clube for, que não se declare apaixonado pelo talento de um dos génios mundiais nascidos em 1999: João Félix

Sem golos, João Félix continuará a ser o melhor avançado do campeonato, e continuará a ser a melhor companhia para Bernardo e Ronaldo na frente de ataque nacional; com golos arranhará na luta pelo troféu de melhor jogador do mundo

Blessing Lumueno

João Félix brilhou no dérbi em Alvalade, que o Benfica venceu por 4-2

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Já pensaram no que será de João Félix quando os golos e as assistências deixarem de aparecer de forma tão regular? É que, hoje, por aparecer de forma frequente nos momentos de decisão, João Félix é unânime como poucos miúdos que foram lançados no futebol nacional nos últimos anos.

Não há um adepto, seja de que clube for, que não se declare apaixonado pelo talento de um dos génios mundiais nascidos em 1999. Entre os nomes que já apareceram há Puig, Havertz, de Ligt, Guendouzi, Brahim Diaz, Barco, Chakvetadze. Dos não tão credenciados temos Rafael Leão, Saku Ylatupa, Boubacar Kamara, Donyell Malen. E por que não Diogo Leite, Jota, ou Florentino?

Mas quando se fala de unanimidade, ao nível mundial, há um craque na Catalunha, um craque em Leverkusen, um craque em Amsterdão, um craque em Londres e João Félix a aparecer em Lisboa.

Mas, como Portugal é o país onde o rendimento se opõe ao potencial, tenho dúvidas que, caso fique por cá ou indo para fora, o estatuto se mantenha quando o número de golos e assistências não for tão constante quanto o de hoje. Por cá, quando um miúdo mostra potencial diz-se que não está pronto para o rendimento; normalmente são esses miúdos que são os melhores, e que estão mais prontos para render se o rendimento for olhado na qualidade das ações ao longo do tempo, e não num ou noutro jogo apenas.

Note que, neste momento, é quase unânime para todos que o João Félix tem que jogar na seleção; o selecionador, aliás, nem deve dormir de pensar em quão inoportuna foi a aposta inequívoca de Bruno Lage no miúdo na posição onde ele deve jogar sempre. Encaixar Ronaldo, João Félix, Cancelo, Bernardo e Rúben Neves, e deixar cair o status quo adquirido por alguns jogadores, é uma dor de cabeça que deve estar a deixar Fernando Santos muito desconfortável.

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É fácil perceber as características pelas quais João Félix se destaca; desde a qualidade técnica e a criatividade até à capacidade para jogar dentro dos bolsos (nos espaços reduzidos). A finalização, e a tomada de decisão que faz com que não só acerte quase sempre onde e quando deve colocar a bola, mas também no onde e quando deve aparecer para dar solução de passe, ou em que sítio deve aparecer para finalizar.

Qualquer um desses traços do génio são fáceis de ler, e em verdade se diga que em Portugal já houve talentos com algumas dessas características mas nenhum deles foi tão arrebatador como este tem sido. Poder-se-á dizer, e bem, que muitos deles não tiveram a exposição em jogo que este está a ter e que por isso não vingaram nem conseguiram a unanimidade deste. Mas, para lá da exposição em jogo, o miúdo tem algo que só vimos, nos jogadores formados cá nos últimos vinte anos, em Quaresma e em Ronaldo.

Tivemos imensos talentos aparecer nas mais diversas equipas, mas com esta idade apenas dois conseguiram fazer os próprios colegas renderem-se e entregarem-lhes a bola em todas as situações. João Félix tem traços de personalidade diferente: a confiança que tem na sua capacidade faz com que nunca se esconda do jogo e queira sempre a bola e isso faz com que os seus colegas fiquem condicionados a dar-lhe sempre a bola - com Ronaldo e Quaresma era igual. Os colegas sabiam que havia talento, sabiam que havia qualidade para resolver muitos dos problemas do jogo, e sabiam sobretudo que não havia a timidez que, por falta de paciência, acaba por matar muitos dos talentosos que não conseguiram vingar no futebol nacional.

Resumidamente, João Félix é aquele miúdo atrevido que é muito raro ainda vermos por aí. É muito, mas mesmo muito, atrevido. E é esse atrevimento que faz dele tão especial e que o pode catapultar para uma carreira estrondosa. Não é fácil chegar ao plantel principal de uma equipa da dimensão do Benfica e condicionar jogadores que têm anos a ganhar campeonatos, que têm finais europeias, que são internacionais pelos seus países. Não é fácil convencer toda uma equipa que é à volta dele que os melhores caminhos para a vitória vão aparecer.

Por isso, sem golos, João Félix continuará a ser o melhor avançado do campeonato, e continuará a ser a melhor companhia para Bernardo e Ronaldo na frente de ataque nacional; com golos arranhará na luta pelo troféu de melhor jogador do mundo.