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Paulo Gonçalves come no Douro

Paulo Gonçalves não é uma flor – e se fosse não seria flor que se cheire. As suspeitas que sobre ele recaem no processo e-toupeira são graves, na crença da Justiça de que é um homem da mala e na credulidade da mesma Justiça de que não é um homem de mão. Mas aceitar que um líder de uma claque o pode ameaçar num restaurante à frente da sua família seria voltar trinta anos atrás no desporto e três mil anos atrás na humanidade

Pedro Santos Guerreiro

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A história foi revelada ontem no Jornal de Notícias e está contada no Correio da Manhã de hoje, que diz que a cena foi fotografada e filmada, e está parcialmente confirmada no Record. Num restaurante na Foz do Douro, no Porto, Fernando Madureira insultou e terá ameaçado Paulo Gonçalves, que almoçava com um filho e outro familiar: que devia estar preso a comer da marmita, que devia ter vergonha, que lhe vão fazer a folha. O futebol não é para meninos, nunca foi, nem Paulo Gonçalves o é. Mas, para ficar só por aqui, nenhum filho nem familiar de uma personalidade pública tem de assistir a uma cena de intimidação ou humilhação. Até os canalhas têm pais ou têm filhos. E mesmo os canalhas são investigados e julgados.

Paulo Gonçalves era assessor jurídico do Benfica e é acusado de corrupção no caso e-Toupeira. Conhecendo-se as suspeitas em causa, e que foram amplamente noticiadas em vários jornais, incluindo aqui na Tribuna Expresso, a surpresa não foi que Gonçalves fosse acusado, mas que o Benfica não o tenha sido: ao contrário do que pretendia o Ministério Público, a juíza do Tribunal Central de Instrução Criminal optou pela não pronúncia da SAD do Benfica por qualquer dos 30 crimes (um crime de corrupção ativa, outro de oferta ou recebimento indevido de vantagem e de 28 crimes de falsidade informática) pelos quais estava a ser investigada: “os factos atribuídos a Paulo Gonçalves não podiam ser imputados diretamente à SAD do Benfica (…) [porque] não fazia parte dos órgãos sociais da pessoa coletiva, nem representava a pessoa coletiva, (…) [sendo apenas um] subalterno”.

Independentemente da inocência presumida, acreditar que Paulo Gonçalves não trabalhava para o Benfica é de gargalhada. Isto não significa que o Benfica é presumido culpado, até porque nenhum benfiquista quer acreditar que semelhantes práticas ocorreram. E se os tribunais ilibaram a SAD, confiemos nos tribunais, são eles o local certo para esclarecer suspeitas, para arquivar, julgar, condenar ou absolver. Mas constatemos também a ingenuidade que, nem sequer para este caso mas em geral, a decisão da juíza demonstra: asseverar uma falta de ligação por falta de vínculo contratual chega a ser um espantoso manual para ensinar delinquências.

Esta semana, o Ministério Público recorreu: “A decisão é contraditória quando afirma que 'no caso concreto os crimes que estão imputados ao arguido Paulo Gonçalves nada têm a ver com o prosseguimento do interesse e objeto de ente coletivo' e mais à frente, alegou o procurador, apontando que a SAD 'encarnada' devia ser responsabilizada por violar "o dever de vigilância", por não ser necessário ser feito por pessoa singular”; “Paulo Gonçalves, ao atuar como atuou, fê-lo no âmbito (por causa) do objeto da sociedade - empresa de futebol, visando simultaneamente lucros e resultados desportivos", frisou o procurador. (…) É também contestada a não pronúncia dos funcionários judiciais Júlio Loureiro, pelos crimes de corrupção passiva e de recebimento indevido de vantagem, e José Silva, por violação de segredo por funcionário, favorecimento pessoal, falsidade informática e acesso ilegítimo.” Paulo Gonçalves é afinal uma estrela: o e-toupeira é ele. É só ele. É só ele…

As investigações judiciais prosseguem o seu caminho, neste mundo imperfeito em que mesmo as decisões surpreendentes do sistema judicial devem prevalecer, não à prova de crítica mas à prova de suspeita conspirativa. A não pronúncia da SAD Benfica é questionável, como aliás está a ser pelo Ministério Público, mas é uma decisão respeitável. O que não é respeitável é ameaçar ou insultar acusados à frente de filhos, segui-los até ao automóvel, e acicatar as massas associativas já tão irresponsavelmente incitadas por comentadores que trocaram os extintores pelos lança-chamas. A Foz do Douro é para todos. Para todos os homens livres e para todos os homens que aguardam sentença em liberdade.

Artigo alterado às 11:49 com inserção de links para as notícias originais