Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Sobre João Félix, etcetera

Centrar dois dérbis consecutivos exclusivamente num puto com borbulhas na cara imberbe e um aparelho nos dentes é uma receita instantânea para um estampanço inevitável que nem os superinflacionados 120 milhões de euros, as promessas do fixer Jorge Mendes e um futuro em Madrid consolarão se as expetativas se esvaziarem em duas, três exibições desinteressantes

Pedro Candeias

Carlos Rodrigues

Partilhar

Bom, para começar, é inquestionável que o rapaz é talentoso, aguenta o choque e tem a irreverência e a insolência e o nervo dos que chegam longe. Como, por exemplo, João Vieira Pinto, a quem é recorrentemente comparado.

Ninguém me provará o contrário: uma percentagem generosa do sucesso está dentro da cabeça e nas sinapses elétricas que lá ocorrem quando um tipo é lançado ao leão. Uns fogem, uns bloqueiam, outros como João Félix correm geralmente na direção certa, rematam à baliza e fazem golo.

Parece claro que o miúdo de Viseu que o Porto deixou sair em circunstâncias que exigem melhor explicação - a questão da magreza não convence - está destinado a grandes coisas, ou pelo menos maiores do que o anedótico futebol português em que clubes exigem explicações a comentadores e a estações de TV por fazerem piadas futebolísticas inofensivas.

Estivessem estes mais preocupados em controlar os seus dirigentes e os seus comportamentos, e também os seus agressivos trolls internéticos que sujam feeds das redes sociais, e a vida seria definitivamente muito mais simpática.

Obviamente, Félix é alheio a tudo isto – às guerras mediáticas e às propagandas–, mas não é certamente imune a nada disto. Ninguém o é aos 19 anos.

Por isso, centrar dois dérbis consecutivos exclusivamente num puto com borbulhas na cara imberbe e um aparelho nos dentes é uma receita instantânea para um estampanço inevitável que nem os superinflacionados 120 milhões de euros, as promessas do fixer Jorge Mendes e um futuro em Madrid consolarão se as expetativas se esvaziarem em duas, três exibições desinteressantes.

Porque é nesses instantes que o crítico implacável que existe em todos nós dirá sem compaixão que a fama lhe subiu à cabeça, que está cheio de manias, que estragaram o coitado do miúdo, que é como o outro, lembram-se?, que saiu de cá e foi para lá novinho de mais, etcetera.

Bruno Lage, que fez de ensinar adolescentes a sua carreira, inclui expressões como “trabalho de equipa” e até desenhos animados para crianças nas suas coloridas conferências de imprensa para relembrar a fragilidade da idade e prevenir males que nunca vêm por bem. O problema não é ele, mas é de uma ideia que é repetida como um mantra: o futuro é a formação. Pois que seja, mas primeiro é preciso formá-los.