Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Varandas ama Keizer que ama Gudelj, Bruno Gaspar e Petrovic, mas não ama Jovane Cabral nem Miguel Luís (por Nicolau Santos)

Nicolau Santos, presidente do Conselho de Administração da Lusa, jornalista e, para o que realmente interessa neste texto, sportinguista dos sete costados, escreve para a Tribuna Expresso sobre o momento menos simpático em Alvalade. Tudo começa com uma citação de um poema de Carlos Drummond de Andrade

Nicolau Santos

Gualter Fatia

Partilhar

Vamos lá parafrasear o poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade. Varandas ama Keizer que ama Gudelj, Bruno Gaspar e Petrovic, mas não ama Jovane Cabral nem Miguel Luís. Jovane Cabral e Miguel amam o jogo, mas Keizer não os ama e não os coloca a jogar. Varandas ama Keizer porque tinha o traquejo de ter trabalhado na formação do Ajax mas Keizer, talvez por ser holandês, não percebeu que foi por isso e não ama Varandas.

Ora no dia 31 de janeiro do ano da graça de 2019, o Sporting iniciou o encontro com o Vitória de Setubal sem um único jogador formado na Academia de Alcochete. Tal só tinha acontecido antes num remoto Outubro de 2007, há quase 12 anos e 566 jogos depois da formação principal de futebol do clube. É obra, sr. Keizer!

E no domingo, 3 de Fevereiro do mesmo ano da graça, o Sporting leva um banho de futebol em Alvalade e perde por 4-2 com o Benfica (e podiam ter sido mais), com golos de João Félix e Rúben Dias, dois jovens formados na academia benfiquista do Seixal. O título já era, o segundo lugar também e mesmo o terceiro está em sério risco. E a pergunta é: o dr. Varandas explicou mesmo ao sr. Keizer qual é o projecto do clube?

É que eu votei no dr. Varandas para presidente porque estava convencido que ele estava perfeitamente convencido que o Sporting tem de basear nos jovens que vem da Academia a sua equipa principal de futebol, mesclados com alguns jogadores estrangeiros ou portugueses com experiência e provas dadas. Ora. o que o sr. Keizer está a fazer é exatamente o contrário.

O sr. Keizer está a avalizar um conjunto de contratações de jogadores, a maior parte sem provas dadas até porque são demasiado jovens para isso, logo grandes incógnitas no que toca ao seu futuro, tapando com essas contratações a possibilidade de jovens formados na Academia de Alcochete ascenderem à equipa principal e, por essa via, se valorizarem, o que no futuro permitirá a sua venda e mais-valias importantes para o clube reequilibrar a sua situação financeira.

É, pois, um absurdo, o que está a ser feito no Sporting em matéria de contratações.

Outro problema: a falta de reacção do treinador. No descalabro de Alvalade, o Sporting perdia por 3-1 aos 57 minutos da segunda parte e a equipa estava destroçada. O que fez o sr. Keizer? Trocou Nani por Diaby aos 46 minutos, mas apenas porque Nani estava lesionado. E só voltou a mexer na equipa aos 86 minutos, fazendo entrar Jovane Cabral para o lugar de Raphinha e aos 90 minutos, quando tirou André Pinto para meter Luiz Phellype.

Ora. o que é um treinador espera de jogadores lançados no jogo a quatro minutos dele terminar ou mesmo em cima do tempo legal? Isto faz algum sentido?

Não, não faz. Assim como não fez qualquer sentido aquela equipa que o sr. Keizer colocou em jogo para defrontar o Tondela, sem um avançado de raiz. E só quando Montero entrou as coisas melhoraram.

E foi Montero que na prática marcou o golo do empate, apesar de ter sido Mathieu a chutar a bola em cima da linha de golo. Mas o mal estava feito. O Sporting deu meia parte de avanço e já foi tarde quando quis recuperar, embora jogasse contra dez praticamente durante toda a segunda parte.

Enfim, todas estas péssimas decisões são muito preocupantes. Em primeiro lugar, é muito preocupante que o sr. Keizer não aposte nos jogadores da formação, que são tão bons ou melhores do que aqueles comprados muito baratinhos na América Latina.

Em segundo, é muito preocupante que os empates com o Tondela e o Setúbal sejam da inteira responsabilidade do treinador pelas equipas que escalou (sim, é verdade que em Setúbal, Bas Dost falhou golos que não costuma falhar; mas isso não explica tudo).

Em terceiro, foi confrangedora a incapacidade da equipa perante o Braga, o Guimarães e agora o Benfica. E em quarto, é muito preocupante que o treinador não assuma os seus erros, preferindo falar sobre os erros dos jogadores.

Vamos lá a ver se nos entendemos. Com os jogadores que o Sporting tem neste momento, o melhor sistema é o 4-4-2. Sobretudo contra grandes equipas, Bas Dost não pode ser deixado sozinho lá na frente. E Luiz Phellype, sem ser excepcional, é brigão e pode ser muito útil.

Depois, tanto Jovane Cabral como Miguel Luís têm lugar nesta equipa de futebol. Quem não tem lugar é Bruno Gaspar como defesa direito. Ainda ontem fez um jogo miserável contra o Benfica. Por outro lado, Borja mostrou qualidades como defesa esquerdo, o que pode permitir colocar Acuña mais à frente.

Digamos, pois, que o melhor onze actual do Sporting seria: Renan Ribeiro; Ristovsky, Coates, Mathieu (Ilori) e Borja: Miguel Luís, Bruno Fernandes, Wendel (Raphinha) e Acuña; Bas Dost e Luiz Phellype (Jovane Cabral). Fugir muito disto – e o banco não é famoso – é aumentar enormemente as chances de perder.

Mas já agora talvez convenha olhar com atenção os jovens que evoluem na Academia ou outros que andam emprestados e que muito jeito nos dariam, como o Gelson Dala, que tem marcado vários golos pelo Rio Ave.

Na quarta-feira, o Sporting voltou a perder com o Benfica, mas agora por apenas 2-1. A equipa, apesar de ter voltado a cometer muitos erros defensivos e a ser apanhada várias vezes em contra-pé aquando dos contra-ataques rapidíssimos dos encarnados, esteve melhor que no jogo de Alvalade, talvez porque o treinador tenha feito a primeira substituição aos 71 minutos (Jovane por Diaby) e a segunda aos 76 (Wendel por Bas Dost). E o empate quase aconteceu, com o árbitro a invalidar uma jogada que daria golo aos 90 minutos.

Mas enfim, o Sporting saiu vivo da Luz e pode manter a esperança de ainda chegar à final da Taça de Portugal. Veremos se também o sr. Keizer vê a luz e rentabiliza a qualidade humana que tem à sua disposição, sem insistir em deixar de fora jogadores só porque foram formados na Academia.

Algo que o dr. Frederico Varandas lhe deveria ter dito que não podia fazer, porque essa aposta é o alfa e o ómega do projecto desta nova direcção. Ou será que sou eu que estou enganado?