Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

José Cordovil

José Cordovil

Presidente Comissão Ed. Física COP

Confiar para aprender

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve José Cordovil, presidente da Comissão de Educação Física e Desporto na Escola do COP

José Cordovil

Pascal Rondeau

Partilhar

Nos dias que vão correndo é frequente depararmo-nos com a suspeição e desconfiança nos diversos domínios da nossa vida em sociedade, quer no que respeita à política, às finanças e ao próprio desporto.

Este ambiente de suspeição e desconfiança, justificado por factos, mas também muito por via do empolamento que em termos especulativos deles vamos fazendo, pode ter efeitos muito profundos sobre as crianças e jovens que presenciam estas situações.

Como se pode depreender do título deste texto não pretendo juntar-me a este coro e quero chamar a atenção para a importância da confiança na Educação e no Desporto.

Ao longo de algumas décadas de atividade profissional na Educação Física e no Desporto fui podendo constatar que, para a motivação de um jovem que pretende aprender ou aperfeiçoar-se na prática de um desporto, a confiança é um fator indispensável.

Poder sentir que o professor ou treinador confia nele, independentemente dos erros e derrotas que o seu percurso vai sofrendo, é fundamental para poder aprender e aperfeiçoar-se.

Na vida como no desporto os erros e insucessos acontecem a todos. Os jovens que conseguem aprender mais e atingem maiores níveis de prestação não são os que nunca fazem erros ou ganham sempre, mas sim os que têm melhores condições para aceitarem os erros e compreenderem como os podem evitar no futuro. Neste processo, saber que o treinador não deixa de confiar nele, ainda que o faça reconhecer os seus erros ou contributo para os insucessos numa equipa, reveste-se da maior importância para a reação positiva em todos os momentos.

Alguns dos jovens de maior talento potencial que o nosso desporto produz não atingem o nível competitivo que poderiam almejar exatamente porque não sentiram o ambiente de confiança que é necessário para se desenvolverem plenamente.

Para a obtenção de níveis elevados de autoconfiança que permitem a um jovem melhorar e realizar-se no treino e competição, sem medo de correr novos riscos, é indispensável contar com a confiança incondicional do seu treinador.

Uma outra questão em torno do tema é a imprescindível confiança que o jovem tem de ter no seu treinador. Esta é uma questão premente num ambiente social dominado por múltiplas suspeições em torno dos mais diversos responsáveis pelo exercício do poder. Tanto mais importante quando falamos de jovens e da proximidade que se vive no desporto.

Enquanto que o treinador deve demonstrar ao jovem que confia nele de forma incondicional, ainda que não alijando a sua função de orientação e avaliação do percurso percorrido, o jovem precisará de sentir que pode confiar no seu treinador pelo exemplo dado. Na construção dessa confiança o exemplo do treinador é mais importante do que quaisquer outras mensagens que dele lhe chegam.

As reações do treinador perante as situações mais frustrantes, como os erros comprometedores e os maus resultados nas competições, vão marcar profundamente o jovem.

Encontrar justificações externas, como as más decisões de quem arbitra, para os maus resultados, poderá criar um clima menos frustrante, mas não contribui para reconhecer os nossos erros e aprender a evitá-los no futuro.