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Bruno Lage encheu a barriga, caiu nos braços e subiu à cabeça dos benfiquistas

Pedro Santos Guerreiro, diretor do Expresso, escreve sobre este novo Benfica pós-Rui Vitória que tem no treinador o exemplo máximo do paradigma da formação

Pedro Santos Guerreiro

OZAN KOSE

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“Oiça, o que distingue um treinador não é saber mais de futebol. Ó minha querida, todos sabem praticamente o mesmo. O que distingue é o homem”. Assim respondia Manuel Sérgio à Tribuna vai para dois anos, numa entrevista em que explicava que antes dele ninguém do futebol sabia quem era Descartes.

“A diferença está aí, não está na tática. Hoje em dia um homem só não vale nada, tem de haver uma organização. O Benfica está tecnologicamente tão bem preparado como qualquer equipa europeia. Mas os homens é que comandam a tecnologia.” Já então havia um homem.

Vai-se ao Seixal e vê-se a tecnologia, sim, ginásios, tratamento de relvados, gabinetes médicos, maquinaria de ponta, umsimulador ali inventado que passa bolas a 80 quilómetros à hora, no Caixa Futebol Campus não há imparidades nem listas negras no banco patrocinador, há quartos onde os miúdos vivem, encarregados de educação que acompanham os estudos e treinadores, preparadores, educadores, fisioterapeutas...

Quando o Benfica começou a investir no Seixal, em 2006, parecia a léria do costume, a de que vamos apostar na formação e encontrar o próximo Ronaldo. Mas o Benfica investiu a sério (enquanto, aliás, o Sporting desinvestiu a sério) e anos depois os resultados começaram a saltar como milho numa frigideira quente. O Seixal é ninho, berço e incubadora. E já então havia um homem.

Assim começou uma fila de negócios que de tantos e tão bons parecia ao início coisa de agente abocanhando comissões. A fome juntava-se à vontade de comer. A vontade de comer negócios, a fome de dinheiro.

Quando o BES colapsou, em 2014, o Benfica perdeu o “telefone vermelho” para Ricardo Salgado: BCP e Novo Banco, então principais financiadores do Benfica, estavam apertados pelo Banco de Portugal, que conhecia o risco do futebol: bastava-lhe saber o escaldão que os mesmos bancos haviam apanhado no Sporting, na “reestruturação financeira” que escondia um perdão de dívida.

Desde então, o Benfica (como outros clubes) reduziu passivo e trocou empréstimos bancários por obrigações. Como? Tornou-se uma máquina de fazer receitas. E foi no Seixal que colheu os ovos de ouro da galinha que alimentara. Não foi sorte, foi investimento. E já então havia um homem.

Renato Sanches, Gonçalo Guedes, Bernardo Silva, Lindelof, Ederson, Ivan Cavaleiro, André Gomes, João Cancelo, Hélder Costa, todos passaram pelo Seixal, foram vendidos por 15, 20, 30, 35 milhões, bateram as asas e abateram a dívida, e neste processo a decisão de substituir Jorge Jesus (que deixava os miúdos na escola primária) por Rui Vitória (que os chamava à equipa A) não foi um acaso, era preciso quem os pusesse na montra maior, a dupla Luís Filipe Vieira – Jorge Mendes tratava do resto. E foi tratando. O Benfica encheu-se de receitas, ano após ano lapidando jogadores sem delapidar a equipa: foi tetracampeão.

E enquanto isto havia um homem.

Chamaram o homem há umas semanas. Nem aqueceria no banco, supunha-se, até porque da última vez que Luís Filipe Vieira tinha dormido no Seixal e refletido muito durante a noite, o treinador durou pouco. O homem ganhou. E goleou. E ganhou outra e outra vez. E subiu na tabela.

O homem ganhava mal, diziam, trinta mil euros por mês é pouco no futebol num país onde o salário médio não chega a mil euros. Aumentaram-no. Deram-lhe contrato com cláusula de rescisão. Tem novo agente, Jorge Mendes, who else?, está nas primeiras páginas dos jornais, os benfiquistas andam malucos com ele.

O que o homem fez no balneário não se sabe bem, mas sabe-se o que fez em campo. Mobilizou, motivou, teve sorte com os resultados do FC Porto, mas sobretudo arriscou, arriscou muito e pôs os miúdos do Seixal a jogar na equipa principal, seis em onze na Turquia onde o Benfica nunca tinha ganho, e agora há Felix, Ferro, Rúben, Florentino, que estão no campo sem estar no prelo prelo porque a SAD garante que já não precisa de vender jogadores para equilibrar contas..

O Benfica está a jogar bem e bonito, o que em si mesmo gera receitas (mais bilheteira, mais merchandising…). Talvez desde 2009/10 não jogasse tão bem, mas então Jorge Jesus tinha uma equipa de craques. Ainda não sabemos como o homem vai lidar com a derrota, nem com a pressão do primeiro grande jogo, será daqui a dias no Dragão. O homem, que nunca foi jogador, também vem do Seixal, onde aliás a sua promoção desimpediu a escadaria que outros do Seixal subiram. Luís Filipe Vieira prossegue a sua estratégia.

Os jogadores e o treinador atravessaram o Tejo, hoje o estádio do Seixal é a Luz. Se Rinus Michels inventou o conceito de “futebol total”, este homem aplicou no Benfica a “formação total”, como lhe chamou o editor desta Tribuna, Pedro Candeias.

“Não há jogos, há pessoas que jogam”, argumentava Manuel Sérgio, que um dia foi almoçar com Saviola numa tasquinha no Seixal à beirinha da água e lhe perguntou qual tinha o seu melhor treinador. “Resposta do Saviola, que não me respondeu, mas respondeu na mesma: ‘Eles de futebol sabiam todos, o melhor treinador é sempre o melhor nas relações humanas’.”

No “Erro de Descartes”, António Damásio argumentou que, ao contrário da tese cartesiana, a razão não prevalece sobre a emoção. Talvez seja isso que este homem saiba fazer. Enquanto estiver a ganhar, vai ser visto de coroa. Como já aqui escrevemos, vemo-nos dia 3 no Dragão. Lá estará o homem.

  • Só que não basta olhar para um fenómeno, é preciso compreendê-lo: este é Bruno Lage

    Benfica

    É a grande figura de um Benfica de “chama imensa”, de volta à luta pelo título. Em poucas semanas, passou sucessivamente de nome na sombra de Rui Vitória – talvez por culpa do clarão anedótico visto por Luís Filipe Vieira durante a noite de reflexão no Seixal – a interino, primeiro, depois a “técnico principal até final da temporada” e agora, com a renovação, a treinador com a cláusula mais alta da história dos encarnados. Só que não basta olhar para um fenómeno, é preciso compreendê-lo: é o que Luís Mateus tenta fazer, com a ajuda de quem conhece Lage desde os primeiros pontapés numa bola