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A perspetiva de sucesso a “curto prazo”

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre o sucesso

Ana Bispo Ramires

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Atletas, músicos, gestores e outros performers veem frequentemente o seu sucesso documentado em entrevistas, redes socias e demais mídia que, frequentemente, retratando um momento único - como se duma foto se tratasse, pouco interesse têm no percurso percorrido (e nas curvas e “tombos” dados) até ao momento que pretendem documentar (quem sabe ter a sorte de um exclusivo!) – o Sucesso.

De facto, não podemos sequer nos queixar de falta de informação nas mais variadas áreas:

- Artistas com vidas perfeitamente destruídas numa dada fase da sua carreira e após declarado sucesso;

- Atletas de futebol profissional (da premier league inglesa, por exemplo, já alvo de estudos de interesse aprofundado) que, num espaço muito
curto de tempo pós-final de carreira se encontram falidos, desenraizados socio-familiarmente e deprimidos;

- Atletas olímpicos que passam um período alargado de tempo em processos cirúrgicos e de recuperação de lesão, em perfeito anonimato;

- Gestores e administradores de empresa que desfalcam (de forma calculada ou por incompetência) as empresas de onde saem, deixam largos milhões de euros de prejuízo que, quase inevitavelmente, virão a ser suportados pelos contribuintes, entre tantos outros possíveis exemplos.

Que critérios determinam o Sucesso?

Num dos últimos momentos com a imprensa, José Mourinho, sendo questionado sobre o seu “insucesso”, retorquiu recordando toda uma carreira de galardões e prémios alcançados, evidenciando claramente uma noção de Sucesso como “trajeto” e não um momento pontual. Em boa verdade, um dos grandes problemas com que a sociedade se debate, prende-se com a valorização de um sucesso imediatista e a curto- prazo, muitas vezes sem qualquer noção das consequências desastrosas que este mesmo “sucesso” poderá ter na carreira e vida da pessoa/empresa/clube a médio-longo prazo.

Jason Cairnduff

Mas esta, não é uma “informação sexy” – não ativa e aguça a curiosidade de quem acede à mesma, não “vende”, não produz “likes”, nem “anestesia” de um quotidiano stressante do qual se pretende fugir... nem que seja a “sonhar” com a (aparente) vida de outros.

Este sucesso de “consumo imediato” que passa uma espécie de mensagem subliminar de que o sucesso é tangível a curto-prazo (e que, lamentavelmente, é irresponsavelmente defendida por pessoas que nada percebem de funcionamento humano e da dinâmica interna da personalidade de cada um, prometendo “golos, vitórias, dinheiro e felicidade” sustentado em... perdão, sem qualquer sustentação científica) acaba por funcionar, desta forma, como uma espécie de “shot” que faz as pessoas acreditarem que, de facto, basta querer.

TRABALHO DURO

Querer é de facto importante, mas DETERMINANTE é trabalhar duro, cair, levantar, voltar a cair, manter o esforço em frustração... é aprender a lidar com emoções “negativas”, manter o foco e resistir à tentação do “escapismo” fácil que desistir de forma precoce pode trazer sob a forma de “alivio”, intelectualizando um sem numero de razões e justificações que nada têm de racional ou estratégico.

O discurso emocionado de Lady Gaga, após concretizar um sonho de longa data, onde referiu que se encontrava naquele palco a segurar aquela estatueta em virtude de anos e anos de trabalho duro foi, em alguns meios, considerado de dramático e amplificado.

Não é dramático – É REAL.

Mas só o entenderá quem, passando um trajeto semelhante, compreender a expressão emocional e profundidade do seu discurso. Inúmeros são os casos que, nacional ou internacionalmente, espelham esta mesma “dura” realidade – o Sucesso (sustentado, duradouro, sem prejuízo irreparável das esferas pessoais e familiares de quem o protagoniza), não é uma corrida de 100m... é uma longa ultramaratona.

Mas, uma vez mais, este é o seu “lado sombra” – o lado de que quase não se fala, que não aparece nas redes sociais, no conteúdo das entrevistas ou da grande maioria dos livros biográficos ou, quando se fala, traduz-se apenas numa passagem rápida (e ligeira) para poder dar ainda mais ênfase ao Sucesso.

Potenciar o Sucesso

Como podemos preparar jovens, adultos e organizações se “vendemos” o sucesso como se fosse uma espécie de “pudim instantâneo”?

Como podemos preparar jovens, adultos e organizações se “vendemos” o sucesso, por exemplo, focado na prestação a curto-prazo das equipas comerciais das organizações, deixando as pessoas que se encontram na “engrenagem” dos bastidores (funções mais administrativas mas VITAIS para a eficiência dos processos) em perfeito anonimato e sem qualquer reconhecimento?

Como podemos preparar jovens, adultos e organizações se “vendemos” o sucesso nas escolas através de “rankings” de notas e prestações em
exames, sem qualquer referência a competências de trabalho e soft-skills (competências on-job), já recorrentemente documentadas como um dos principais fatores de sucesso no mundo adulto?

Como podemos potenciar sucesso se o associamos à “marcação de golos” e vitórias (desde a formação), não valorizando de igual forma (e com igual peso – mesmo que em processo interno da equipa) a prestação do guarda-redes, do defesa ou do médio que impediram uma série de movimentos de transição ofensiva do adversário?

Poder, podemos... mas envolve uma clara mudança de paradigma e talvez não seja assim tão complicado... mas, porque focado em propósitos a médio longo prazo, seguramente não será tão “sexy”.

É que a palavra “Sucesso” é “leve” e desejada, enquanto que a(s) palavra(s) “trabalho” (duro) traz um “peso” do qual muitos tentam fugir.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)