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Jonas na barriga do Dragão

Essa de que os adeptos são irracionais é uma tirada racional. Por isso discordo dela. E concordo que o Benfica entra hoje no Dragão para ganhar. Estamos de peito feito, nós. Ainda bem: há não muito tempo entraríamos no estádio do FC Porto para não perder

Pedro Santos Guerreiro

Gualter Fatia/Getty

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Já se percebe que isto é uma crónica, numa crónica há lugar para o “eu”, e este benfiquista que vos escreve tem uma história triste para resgatar. A história, que fica para daqui a alguns parágrafos, é de 2010 e mete um galo, que será a único animal não místico desta crónica.

Talvez desde 2010 o Benfica não estivesse a jogar tão bem e tão bonito como está agora. Bruno Lage, candidato a maior revelação de sempre, transformou a equipa num ápice, como quem faz de um bidão à deriva uma lancha com rumo. Talvez Lage tenha arriscado porque nada tinha a perder, afinal ele só iria aquecer o banco para outro, mas até para isso é preciso coragem: em vez de se segurar aos consagrados e deixar os miúdos de bibe, pôs em campo a guelra dos Betta criados no aquário do Seixal e deu-lhes doses misteriosas de confiança.

A qualidade de jogadores como Félix, Ferro, Rúben ou Florentino foi uma bênção repentina numa equipa que antes acabava os jogos com o queixo encostado à relva, mas o que mais impressiona é a forma intrépida como jogam. Eles jogam sem medo. Sem o peso da camisola que envergam, sem acanhamento frente às camisolas que enfrentam. Parece quase que são inconscientes – mas não, jogam como que libertados de receios. São eles a águia.

O Benfica deflagrou. Os últimos jogos são um festival de bola, de golos, de alegria. Andamos de peito feito porque a pança está cheia. Mas ainda não defrontámos o FC Porto. É hoje à noite no Dragão. Seja qual for o resultado, o campeonato não acaba hoje, mas a vitória mostrará quem é o melhor, e determinará um esticão de moral no vencedor.

O Benfica mais confiante em épocas encontra o FC Porto menos confiável da época. Foi esse cruzamento astral, de vitórias encarnadas e empates azuis e brancos, que injetou em janeiro um suplemento de esperança em adeptos que já pensavam em agosto. Será “a força da técnica contra a técnica da força”, antecipa o Expresso desta manhã, parafraseando a língua gabrielalvina. Ou a alegria dos miúdos do Benfica, que se fez parceira dos jogadores consagrados, contra o futebol de comer-a-relva que Sérgio Conceição lavrou no FC Porto.

As duas equipas mais fortes do campeonato são tão diferentes uma da outra como uma pantera é de um tigre, mas ambas são carnívoras, ambas querem matar o jogo e comer a carne no fim. Talvez os portistas receiem a tempestade criativa dos jogadores do Benfica, talvez os benfiquistas temam que Maxi ceife a energia das pernas adversárias. Mas todos só vão contar as favas no fim do jogo. Mesmo se sabem todos que o jogo começa a ganhar-se antes, com a estratégia de cada treinador e a capacidade de cada um deles antecipar e surpreender a tática do outro. Bruno Lage e Sérgio Conceição têm o seu próprio duelo: afinal, ambos tiraram as equipas do rés-do-chão onde estavam antes de eles entrarem e mostrarem a porta do elevador.

A tal história que ia contar passa-se no final de 2010, quando, na véspera de um jogo como o de hoje, escrevi no jornal Record que Pinto da Costa devia entrar no autocarro do Benfica em Antuã para servir de escudo humano contra as bolas de golfe que vergonhosamente eram atiradas. O Benfica levou depois um baile de golos, houve até um galo atirado para o relvado que pôs meio mundo a rir, e eu recebi uma data de emails de gozo por causa do texto, com mensagens que metiam cinco bolas de golfe e que deixo à vossa imaginação. Para resgatar esta história, espero que Seferovic esteja melhor que Marega, que deixem os nossos miúdos jogar, que a tática de Bruno deslace a tática de Sérgio – e que seja um grande jogo, aberto, entusiasmante, à altura da velocidade e ambição que ambas as equipas têm demonstrado.

Que ganhe a força da técnica. Que ganhe a alegria. O Benfica entra no Dragão para de lá sair a respirar como o profeta Jonas saiu da barriga da baleia. Pode ser o Jonas a encostar o pé. Ou o Félix. Ou até um galo. Porque sendo o FC Porto o favorito, hoje o Benfica entra para ganhar.