Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

A fase de “tomba gigantes”: um teste à liderança e motivação

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre as alturas de "crise" no desporto, particularmente no futebol

Ana Bispo Ramires

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Partilhar

A nove jornadas do final do principal campeonato de futebol em território português, com 27 pontos ainda por disputar, inicia-se de facto um teste à capacidade de mobilização de vontades e de gestão de ansiedades de um conjunto de plantéis que têm, ainda, o seu futuro por definir.

Esta é a altura, por excelência, onde os mais “pequenos” (entenda-se, os clubes com menor capacidade económica para arquitetar plantéis recheados de talento e performance) ganham maior visibilidade e, em paralelo, oportunidade de legitimar a sua posição no campeonato com maior destaque nacional – e fazem-no, constituindo-se como verdadeiras “dores de cabeça” quando teimam em “roubar” pontos a quem ambiciona ainda ganhar ou, por exemplo, garantir uma posição nas competições europeias.

Assim o fez o Belenenses, ao “roubar” dois pontos ao SLB no passado fim de semana, colocando-o numa posição mais frágil face ao seu adversário mais direto.

Gestão de uma “crise” anunciada

Diz-se, das “crises”, que fazem emergir o melhor e o pior dos “Homens” (enquanto raça, claro está) – em boa verdade, e em diferentes segmentos da sociedade, os períodos de turbulência e dificuldade, elevam qualidades e fazem sobressair inesperados “timoneiros” mas, evidenciam muitas vezes, e de igual forma, a falta de coesão, a incapacidade de liderança, a dificuldade de entrega, a prioritização do interesse individual sobre o do grupo... enfim, a perda de referências, a generalização do medo e o despertar dos instintos de sobrevivência mais primários – que acabam por colocar em causa a própria existência do mesmo.

Isto, observamos todos os dias na nossa sociedade e, consoante se gere este tipo de (inevitáveis e até saudáveis) períodos, assim se perde, assim se ganha.

Observando a realidade do Campeonato Nacional temos ainda um título em jogo, eventualmente (matematicamente falando), o acesso às competições europeias e quase dez equipas que ainda não sentem a sua manutenção assegurada.

Do ponto de vista individual, acentuam-se as vontades de ganhar maior visibilidade ou preponderância nos resultados alcançados, para garantir uma “moeda de troca” mais robusta na negociação de futuros contratos.

Ativam-se emoções, perdem-se ou ganham-se motivações e vive-se este período de inevitável e esperada turbulência com elevados níveis de insegurança, ansiedade e intranquilidade antecipando, a cada jogo menos bem sucedido, a iminência de uma crise que se quer evitar a todo o custo.

Encontram-se, assim, reunidas todas as condições para que, cada jogo, independentemente dos seus protagonistas, se possa vir a transformar numa verdadeira “caixa de surpresas” onde, o principal desafio ultrapassará, muito possivelmente, todas as questões técnico-taticas (certamente já devidamente consolidadas ao longo de mais de 25 jornadas, se considerarmos a pré-epoca) – a decisão passará, certamente, por um conjunto de fatores que se encontra muito longe do que se observa no ecrã de uma televisão.

O lugar aos “invisíveis”

Sendo impossível caracterizar todas as “peças da engrenagem” que alavancam a performance bem sucedida de uma equipa, importará ressalvar algumas delas, senão vejamos:

- O papel das famílias e dos cônjuges que, muitas vezes dedicando-se a garantir a estabilidade e qualidade do agregado ao qual o atleta (e treinador, já agora) retorna durante toda uma época, encontraram nesta fase um desafio “temperado” pela presença de maiores níveis de ansiedade, irritabilidade e até labilidade emocional;

- O papel individual de cada atleta e a responsabilidade individual que assume face à sua equipa, fortemente alavancado nas competências emocionais que possui (ou não) – mais do que um princípio de atuação ou valor de vida, muitos atletas que aparentam algum “egocentrismo” em fases de turbulência tem, frequentemente a raiz de tais comportamentos assente numa elevada insegurança que se traduz na ativação de um fortíssimo instinto de sobrevivência, com claro prejuízo no papel que desempenha no grupo (e nos interesses do mesmo);

- O papel das equipas médicas, responsáveis em grande parte pela qualidade física disponibilidade fisiológica (e até psicológica, ainda que
indiretamente) para a competição, num período onde a época já se apresenta longa, com aumento de sinais (e lesões) de fadiga e “overuse” que precisam ser geridos (ainda mais) cirurgicamente;

- O papel de um treinador que precisa dedicar especial atenção à ativação das suas competências de liderança, de mobilização da vontade (jogo a jogo, independentemente do resultado ou da posição na tabela) e de criação de um sentido de missão de equipa, num período onde, a capacidade de mobilização das emoções e motivações individuais para a missão da equipa se encontrará, possivelmente, ela própria já desgastada;

- E, por último, e não menos importante, o papel das estruturas diretivas que, muito frequentemente, esquecendo-se da sua CONDIÇÃO HUMANA, contribuem para a ativação de contextos de ansiedade para as suas equipas por, não estando atentas à sua própria ansiedade (natural e expectável), acabarem por contaminar e “intoxicar” balneários em determinado tipo de ações que, inicialmente, até começaram a ser desenvolvidas como se de ajuda se tratassem.

Motivação ou Necessidade?

Por último, e como “tempero final” pode-se observar ainda, uma “luta” que se opera nas diferentes identidades psicológicas que se digladiam jogo a jogo:

Queremos ganhar ou Precisamos Ganhar?

Em boa verdade, queremos ter uma casa, um carro, um casamento, filhos, um cão, um gato, uma carreira... mas, PRECISAMOS (necessitamos) COMER e DORMIR, sem isso não sobrevivemos.

Por esta mesma razão, equipas “aparentemente” mais frágeis ganham a esperados vencedores ou, num outro nível ser, por vezes, mais difícil vencer uma equipa de nove do que de onze jogadores – na realidade, de forma involuntária e inconsciente, a equipa que se sentiu “fragilizada” entrou em “modo sobrevivência” e isto catapultou-a para níveis superiores de performance.

Este será, possivelmente, o DESAFIO mais importante para cada Treinador:

Afinal, numa fase onde o inesperado deve ser o mais esperado, cruzando a dinâmica interna da equipa e as características subjetivas do próprio, como responder a duas perguntas específicas:

1) como blindar o balneário, agregando as necessidades individuais numa missão que seja de grupo?

2) como TRANSFORMAR MOTIVAÇÃO em NECESSIDADE ou NECESSIDADE em DIREÇÃO/Motivação? Certamente que, os pontos alcançados refletirão a qualidade das respostas.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)