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60.739 pessoas não querem saber de futebol feminino para nada

Foram 60.739 os adeptos que assistiram ao vivo ao Atlético de Madrid-Barcelona (0-2), jogo da Liga espanhola feminina que foi disputado no Wanda Metropolitano, domingo, marcando um novo recorde histórico para a modalidade

Mariana Cabral

Foram 60.739 os adeptos que assistiram ao vivo ao Atlético de Madrid-Barcelona (0-2), jogo da Liga espanhola feminina que foi disputado no Wanda Metropolitano, domingo, marcando um novo recorde histórico para a modalidade

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Chama-se alegria no trabalho: aqui na Tribuna Expresso, sempre que possível, temos o feliz hábito de ir almoçar todos juntos, seja no refeitório da empresa ou noutro sítio qualquer. Ora quinta-feira, 7 de março, como é habitual, almocei na companhia dos meus estimados colegas, apesar de saber que, às 15h, a FIFA iria colocar à venda os bilhetes para as meias-finais e para a final do Mundial feminino, que irá ser disputado entre 7 de junho e 7 de julho, em França.

Do refeitório à minha secretária demoro pouco mais de 30 segundos e, no decorrer desse percurso, ia contando a quem me ouvia que ia então comprar bilhetes para a final do Mundial, marcada para 7 de julho, em Lyon (onde já fui muito feliz; Hungria 3-3 Portugal e Portugal 2-0 País de Gales, no Euro 2016 - masculino, bem entendido).

Sentei-me em frente ao computador quando passavam pouco mais de 25 minutos das 15h, com um vagar de que me arrependeria logo de seguida: entrei no site da FIFA e deparei-me com a mensagem "sold out". Pensei que fosse um erro. Como assim, esgotado? Em meia-hora?

Sim, os bilhetes para a final do Mundial feminino, em Lyon (um estádio com cerca de 59 mil lugares) esgotaram em meia-hora.

E, como se isto já não fosse suficiente para se perceber que o futebol feminino está a mudar, este domingo, em Espanha, as equipas femininas do Atlético de Madrid e do Barcelona levaram 60739 adeptos ao Wanda Metropolitano, recorde internacional de assistência em jogos femininos entre clubes (entre seleções já houve 18 melhores, entre os 90 e os 61 mil, em Mundiais e em Jogos Olímpicos).

Aliás, minto: não é o futebol feminino que está a mudar; é a perceção que temos dele, enquanto sociedade, porque o futebol será sempre um reflexo daquilo que temos à nossa volta e somos diariamente. Não é segredo nenhum para ninguém que, historicamente, o desporto feminino tem sido sempre relegado para segundo plano, perante o masculino, por ideias altamente machistas e retrógadas, particularmente no que diz respeito ao futebol, que nos quiseram sempre vender como um território de machos singulares onde as donzelas não têm lugar.

O recorde que a assistência do Atlético de Madrid-Barcelona bateu tinha, aliás, 99 impressionantes anos: em 1920, 53 mil pessoas juntaram-se no Goodison Park, em Liverpool, para ver o Dick Kerr Ladies-St. Helen's Ladies, mas não demoraria muito para que a Federação Inglesa, do alto do seu paternalismo, banisse o futebol feminino do país, declarando a modalidade "inadequada para mulheres".

Como tão bem (d)escreveu, sábado, Jorge Valdano no "El País" (crónica que também é publicada semanalmente no jornal "A Bola"): "Uma vez, em tempos pré-feministas, um roupeiro que temia pelo futuro do clube disse, no silêncio do balneário: 'Nesta equipa, mais de metade dos jogadores não enganam as suas mulheres. Assim ninguém nos salva da descida'. Unindo, de uma forma bizarra, o machismo, o futebol e a malícia."

O futebol enquanto território macho há muito que está a ser invadido, mas, recentemente, a ocupação tornou-se permanente: a Bola de Ouro foi entregue, pela primeira vez, a uma futebolista (a norueguesa Ada Hegerberg, do Lyon, foi a premiada, não só com o troféu, mas com um comentário pouco feliz de Martin Solveig a pedir-lhe que dançasse - confirmando o exposto nos parágrafos anteriores); as grandes marcas começaram a perceber que há dinheiro a ganhar com a consumidora do sexo feminino (a Lucozade e a Budweiser começaram a patrocinar a seleção feminina de Inglaterra; a Visa passou a patrocinar todo o futebol feminino da UEFA; a Nike passou a ser parceira em todos as provas europeias de futebol feminino; tanto a Nike como a Adidas apresentaram, pela primeira vez, equipamentos específicos para as seleções femininas, pré-Mundial); tanto a UEFA como FIFA já falam do feminino como "presente" e não como "futuro" (a UEFA lançou a campanha "We play strong"; a FIFA confirmou a introdução de VAR no Mundial feminino); e praticamente todos os grandes clubes europeus já têm futebol feminino: Barcelona, Atlético de Madrid, Manchester United, Manchester City, Liverpool, PSG, Lyon (tricampeão europeu), Bayern de Munique, Juventus...

Em Portugal, depois das entradas de Sporting e Sporting de Braga há três anos, chegou o Benfica, esta época (e chegará o Vitória de Guimarães, na próxima), confirmando uma tendência inegável: ninguém quer ficar para trás. Com um forte empurrão da Federação Portuguesa de Futebol, que reorganizou a competição e impulsionou a entrada das novas equipas, o futebol feminino em Portugal começou a crescer de forma nunca antes vista: a 25 de fevereiro de 2017, o Sporting-Sporting de Braga levou 9263 adeptos ao estádio de Alvalade; a 4 de junho de 2017, o mesmo embate, agora para a final da Taça de Portugal, no Jamor, elevou a fasquia para 12213 adeptos.

Há cada vez mais adeptos, há cada vez mais equipas, há cada vez melhores prestações da seleção portuguesa, há cada vez mais jogadoras, há cada vez mais talento: Dolores Silva joga no Atlético de Madrid, campeão espanhol; Cláudia Neto está no Wolfsburg, que marca presença regularmente nas finais da Champions; Ana Borges, agora no Sporting, jogava antes no Chelsea; etc, etc, etc.

Há cada vez mais razões para nos rirmos às gargalhadas quando ouvimos o que ouvi durante muitos anos, enquanto joguei, num clube que até ganhava campeonatos, taças e ia à Liga dos Campeões, mas não pagava às jogadoras nem passava na televisão: "Futebol feminino? Ninguém quer saber disso para nada." Digam isso aos 60739 adeptos que encheram o Wanda Metropolitano. Ou aos 59 mil que vão encher o estádio do Lyon, na final do Mundial 2019. Ou, até, a todos os que irão estar em Alvalade ou na Luz, na próxima época, aquando do primeiro dérbi entre rivais. Ainda acharão que o futebol feminino não interessa?