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Isabel Mesquita

Isabel Mesquita

Presidente Comissão Treinadores COP

Coaching desportivo: a face oculta do treino

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Isabel Mesquita, presidente da Comissão de Treinadores do COP

Isabel Mesquita

David Ramos

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O Desporto constitui um fenómeno social que, a partir da última metade do século passado, sofreu um desenvolvimento notável reivindicando do agente responsável pela sua orientação, o treinador, competências que considerem as prerrogativas dos ambientes onde atua.

Não obstante, a matriz curricular dos cursos de formação de treinadores tem vindo a incidir, quase em exclusivo, nos conteúdos de treino, negligenciando os conteúdos alocados à aprendizagem para ser treinador. Esta missiva tem sido entregue ao acaso e à vontade e capacidade individual, explicando em grande medida a razão de muitos treinadores com formações altamente qualificadas não alcançarem sucesso. E outros, por sua vez, com formações deficitárias obterem algum sucesso.

Hodiernamente, a capacitação para saber lidar com os atletas e outros intervenientes, aprendendo a influenciá-los, dentro dos limites éticos requeridos, e a saber gerir situações conflituosas, ambíguas e problemáticas, apanágio do quotidiano da atividade do treinador, constitui elemento diferenciador do sucesso profissional.

Todavia, é lugar comum ouvir-se dizer que estas competências constituem um dom ou que se adquirem basicamente com a experiência. Então, assim sendo, iremos continuar a ter, apenas de quando em vez, treinadores com competências excecionais ao nível relacional e de autoconhecimento. Em boa verdade, grande parte dos treinadores focam-se quase em exclusivo nos conteúdos de treino e, por via disso, são incapazes de compreender e lidar com a paisagem social (i.e., cultura desportiva dominante, boas e más práticas instaladas, atores principais e secundários, poderes formais e informais, etc.). Esta problemática é sobremaneira importante em virtude de, não raramente, certos ambientes desportivos transformarem-se em arenas, onde os poderes informais tomam “o freio nos dentes” e influenciam decisivamente a micropolítica vigente, restando ao treinador ser uma marioneta ao sabor da corrente, alvo fácil a abater.

Isto é Coaching Desportivo. Tudo o que tem a ver com o ser treinador, na estreita simbiose com a natureza dinâmica, complexa e ambígua do contexto onde atua. Constitui, por isso, a face oculta do treino, ou seja, os elementos invisíveis difíceis de aceder, porquanto (i) não são traduzidos diretamente pelo que se vê; (ii) alcançam o que está para além do obvio; (iii) não se conseguem definir e classificar como os conteúdos de treino e (iv) reclamam ao treinador que aja mesmo com pouca informação. Logo, não há receitas que funcionem.

Uma das manifestações de Pep Guardiola (in Guardiola Confidencial, pp, 103) evidencia claramente a importância do Coaching Desportivo quando refere: “O que engrandece um técnico é aquilo que os jogadores dirão dele no final. Se eu conseguir convencer esses atletas a jogar dessa maneira e se puder ajudá-los a crescer e melhorar ainda mais, estarei muito contente e satisfeito. Tentaremos atuar bem e não apenas ganhar títulos”.

Mas, para se conseguir convencer os jogadores a “jogarem dessa maneira” é necessário o treinador ter Poder e Controlo sobre os intervenientes e o contexto onde atua. Até porque, o controlo que o treinador tem é proporcional ao poder que lhe é conferido e ganho por ele próprio. Ou seja, o treinador tem de saber orquestrar, empoderar, influenciar, gerir e liderar.

Para o efeito, urge alterar o paradigma de formação de treinadores e as más práticas por vezes instaladas nos contextos de trabalho, de forma a que a receita, instigadora da replicação (como se fosse remédio para todas as “maleitas”), seja substituída pelo domínio do conceito/princípio, base da criatividade e inovação. Ademais, moldar o treinador a padrões de atuação padronizados e generalistas, independentemente da “pessoa que é” e das especificidades particulares dos contextos onde atua, é incitador do dogma, o qual conduz:

(1) à aceitação de verdades “absolutas”, ao seguidismo e à subordinação;

(2) à prevalência da retórica, onde os chavões e a persuasão encontram terreno fértil, em prejuízo da aprendizagem e conhecimento.

Em suma, a natureza complexa, dinâmica e ambígua do treino tem de ser integrada e não descartada pelo treinador. Até porque, desconsiderar a ambiguidade que habita no ambiente desportivo bem como as dinâmicas relacionais que influenciam os poderes ocultos e os conflitos estratégicos, confere ao treinador uma ilusão de controlo. Não obstante, esta ilusão de controlo é instigadora de respostas lineares e dualistas (i.e., certo/errado), promotoras do seguidismo (i.e., faz porque viu fazer) e, logo, do insucesso.

Para alterar esta realidade, o Coaching Desportivo não pode mais tratado como dom (de alguns) ou que basta a experiência para se aprender a ser treinador. Constitui matéria que tem de ser integrada nos cursos de treinadores para dotar o treinador de ferramentas teóricas e princípios de atuação que o ajudem a ler a paisagem social e a reconhecer-se nela.

Só assim, o treinador será capaz de atuar de forma deliberada e intencional, reconhecendo: (i) que receitas infalíveis conduzem ao insucesso; (ii) controlando o que é possível de ser controlado; (iii) discernindo e aceitando o que não é possível de ser controlado; (iv) o que, por sua vez, aumenta o controlo do imponderável, na medida em que reconhece a sua existência.

Sem ser portador desta visão e conhecimento, o treinador corre o risco de ser um joguete na mão de outros, sendo mais vezes surpreendido do que surpreendendo, sendo mais vezes controlado do que controlando.